quarta-feira, 3 de setembro de 2025

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 



    



    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino. 

    Nos recônditos do palácio começava um diálogo incomum entre a memória e o coração, no mais profundo do pensamento humano, no âmago quase inimaginável e inabitável da incompreensibilidade do complexo intelecto chamado de "eu" absoluto.


   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, aquela mesma de outrora, ela veio ao nosso castelo desfilando toda a sua beleza, com grande esplendor e formosura que lhe cabe, como das vezes anteriores, pousou na janela da alma sem a percebermos, devedoras é espantoso.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo o reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito, se realmente o que dissestes for verdade, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenha notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação de sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, equação de sentimentos nus? Está mais para um mosaico de sentimentos nus. Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor... Não o reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te? Frequentemente ela aparece no domínio da torre, aos olhares dos súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei que é o meu pai - ela é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais... Tu sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único a crer nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico como tudo aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem... Eu lhe conto.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado pela vossa benevolência para comigo.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luzes rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata em uma sinfonia única. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos flagrou no beijo. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do reino encantado, a meu pedido, movidas por grandiosa compaixão ao ver meu sofrimento por esse amor tão impossível, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível deste coração.

   — Santo Deus! Então esse é o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que eu tanto anseio, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo que vou guardar esse segredo com a minha própria vida, ele estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode retirar-se, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar tudo em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo sem direção indo sem destino, ou uma sombra passageira. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes sair agora amigo...

   — Como quiser.


   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio ser. 

    Observou uma vez mais a visão daquela noite, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da moça que há tanto tempo conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite afora, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite adentro, em si,

 o mosaico de sentimentos nus.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Conto.

 A MARCA DO PECADO.


Augusto era de poucas palavras quando em público, em ambientes com muitas pessoas ele era extremamente tímido, quase não falava, pouquíssimas vezes ele se relacionava com outras pessoas. Desde que o conheci, há dois anos atrás, quando entramos na empresa, que ele é assim. Entretanto, conhecendo-o melhor, na intimidade, claro, depois de um longo tempo, finalmente tornei-me íntima dele, mas, foi um árduo trabalho chegar a esse ponto. Eu estava disposta a tudo para ter uma noite de amor com Augusto, beijá-lo, sentir suas mãos fortes e firmes entre minhas pernas, sentir os seus lábios invadindo os meus… Eu ficava toda molhada quando em nossas conversas entrávamos em assuntos proibidos, ele, que antes era tão tímido, revelou-se um verdadeiro safado para comigo, falava de coisas que jamais imaginei escutar daqueles lábios. Enfim, eu estava muito carente, louca para cavalgar naquele pedaço de pecado. Havia um porém, ele, assim como eu, ambos éramos casados, a coisa tinha que ser muito bem feita, ou não - acredito que o nosso medo besta foi a barreira para que o inevitável viesse a acontecer. Sem mais delongas, vamos aos fatos, a parte sórdida que tanto me agrada, como imagino que a você também. 

   Prometo amiga, não vou me alongar muito nessa carta.

   Novembro, chuva, tempo ameno, tudo naquele dia pareceu contribuir para a nossa loucura acontecer. O João, meu esposo, estava de férias, em viagem para Minas, foi visitar a família, por sorte do destino eu não consegui tirar férias junto com ele. Augusto estava na mesmíssima situação, parece que alguma criatura bem fasseja, ou não tão bem assim, rascunhou nas folhas do nosso pecaminoso destino com as mesmas cores da danação. A esposa de Augusto, também estava de férias e de viagem, e o fato é que Augusto não havia conseguido férias. O meu garotão estava sozinho há três semanas, sem ninguém, sem sexo, subindo pelas paredes como eu, plano perfeito para que tudo viesse acontecesse. 

Neste mesmo novembro chuvoso, em um domingo, após sairmos do trabalho, o impensável aconteceu, Augusto ofereceu carona, ele estava de carro, sozinho, eu, louquinha para cavalgar nele. De pronto aceitei, eu senti no olhar dele as mais sórdidas intenções. 

Era o que eu queria, ele também.

Demoramos um pouco no trajeto para minha casa - devido ao bendito trânsito Paulistano - conversamos bastante, safadezas foi o que não faltou, eu já estava toda molhada de tanto tesão, era visível o volume pulsando na calça de Augusto, calculadamente eu diria, ambos jogávamos com a sedução, alisando por vezes as pernas um do outro, eu, vez é outra tocava em meus seios, mordia a pontinha dos lábios, por pouco não o fiz bater o carro. 

Finalmente havíamos chegado, educada, o convidei para entrar, ele não pensou duas vezes, de pronto aceitou. As coisas estavam indo como queríamos...


Depois de conversas e provocações, partimos para o ataque, ele, que mostrava-se tão tímido, revelou-se diante de meus olhos. Beijando-me com voracidade, como um leão a devorar sua inocente presa. Estávamos na sala, abraçados, beijos sórdidos, língua com língua. Eu podia sentir o seu pênis pulsando na minha buceta. Arranquei a camiseta, seus olhos fixos em meus enormes seios. Beijou-os delicadamente a medida que eu tirava o sutiã, chupando, sugando meus mamilos endurecidos. Eu gemia a cada toque de sua língua. 

Ele despiu-se, por inteiro, meus olhos se encantaram diante daquele mastro Grosso e pulsante.

Eu também me despi, lentamente, rebolando e esfregando a bunda em seu corpo, em seu caralho endurecido. De joelhos, ele literalmente enfiou a cara no meio da minha bunda, afastou a calcinha, penetrou a língua na minha bucetinha toda molhada, minhas pernas tremiam de prazer.

" Vem logo, me come vai… Me fode gostoso". Ajoelhei-me de quatro para ele, que, novamente me chupou a ponto de me enlouquecer. Augusto enfiou seu mastro na minha buceta meladinha, indo e vindo, fodendo com força. Depois foi a vez do cuzinho, quase gritei de prazer e dor quando ele me penetrou. Depois virou-me de frente, deitando-me no sofá. Ousado, Augusto pegou o doce de leite que estava na mesa de centro - pois havíamos comido alguns doces - e lambuzou o bico dos meus peitos chupando em seguida… que sensação indescritível de prazer, gozei horrores. Ele fez o mesmo processo com na minha pepeca, lambuzou ele todinha chupando cada pedacinho. Eu não poderia deixar de retribuir, fiz o mesmo em seu pênis, chupando com tanta vontade que o fiz gozar.

A noite seguiu o seu curso de horrores e pecado. Augusto me comeu em todas as posições possíveis, gozei tantas vezes até quase perder o fôlego. Literalmente, tiramos todo o atraso da vida.

No outro dia fomos trabalhar como se nada tivesse acontecido, na troca de olhares, no discreto sorrir, a marca do pecado que, inevitavelmente, voltaria a acontecer.





segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O SONHO.

 


O homem acorda…

Ele não dormiu bem, teve sonhos eróticos com uma das colegas de trabalho, as fortes dores nas costas o fez levantar cedo. 

- Vai levantar agora? Pergunta a esposa.

- Sim Irene, não dormi bem a noite.

- Você gemeu a noite toda, teve algum pesadelo? Perguntou ela curiosa.

- Acho que sim, não consigo me lembrar Irene, o que sei dizer é que foi um sonho horrível, embora eu não me lembre de nada, sei que foi perturbador.

O homem mentiu, na verdade ele lembrava-se de cada sórdido detalhe do sonho, ficou aliviado pela esposa não ter desconfiado de nada. O homem dá um beijo na face da esposa, levanta-se, vai ao banheiro, fica alguns minutos parado diante do espelho, fitando seu reflexo, a barba por fazer, já esbranquiçada, a falha nos dentes, o homem tem horror de si mesmo. Escova os dentes lentamente, nos pensamentos, lembranças do sonho, os beijos quentes de Fernandinha, ele ainda está excitado, sexo duro como ferro… o homem se alivia como pode, faz semanas desde que teve relações com a esposa, e quando teve, ou, nas vezes em que tem, é aquela coisa sem graça, a mesma posição sem nenhuma novidade interessante.

O homem está cansado da vida que leva, se sente uma fraude, na igreja e entre os familiares, nutre a imagem de respeito, homem correto, mas, no trabalho, principalmente entre as colegas, sua imagem é totalmente ao inverso, de homem safado, esperando apenas uma brecha entre as colegas para realizar das suas, tanto no trabalho como na igreja ele costuma observar o corpo das mulheres, seios, bundas, imagina mil safadezas. Ele sai do banheiro, vai a cozinha, silêncio, manhã bonita, quente. O homem faz o café, arruma a mesa, no armário, alguns pães, ele deixa tudo arrumado, esperando apenas a esposa acordar, que, não será assim tão cedo. Ele se perde na quietude de seus pensamentos nefastos… 

No sonho, o homem está no trabalho, Fernanda o provocando o tempo todo, ele, alimentando a provocação e deixando-se provocar, nem parece o mesmo cara da igreja de terno e gravata. Fernanda diz estar excitada, toda molhada, cheia de vontade, quer ser chupada, ser penetrada com força. Os dois trabalham em um açougue de uma grande rede de supermercado, mas não ficam no balçao de atendimento, trabalham juntos, nos processados e embandeijamentos, muitas pessoas trabalham com eles. O homem tem que ser esperto, agir com cautela para não ficar tão evidente quais são as suas intenções com Fernanda, ou com qualquer outra mulher, aliás. De repente, os dois estão sozinhos dentro da câmera fria, coisa de sonho, ela o beija, ele, desce as mãos por dentro de sua calça, por dentro da calcinha, sente sua boceta molhada, ela faz o mesmo, sentindo pulsar nas mãos o sexo duro do colega, o chupa ali mesmo…

- Oi amor, acordei mais cedo. Responde a esposa interrompendo os seus pensamentos, ele se assusta.

- Que foi homem, parece tão distante, no que está pensando?

- Em nada amor, em nada, estou muito cansado, semana horrível que tive, só isso.

- Imagino amor, mas descansa, tome o seu café, deite-se novamente.

- Acho que é isso mesmo que vou fazer.

O homem queria continuar com as lembranças do sonho vívidas na memória, não queria esquecer nenhum detalhe. Assim, no dia seguinte, poderia contar tudo para Fernanda, e quem sabe tornar toda aquela loucura realidade. Pelo menos parte dela, beijar-lhe quem sabe, acariciar sua boceta lisinha, escondidamente, sentir seus dedos molhados, correndo o risco de serem apanhados, chupar seus enormes seios, tudo o excitava sobremaneira, ao ponto de quase enlouquece-lo.

O homem acorda…

Era tudo um sonho, um sonho dentro de outro sonho, desses que parecem reais, os seus pensamentos ficaram ainda mais confusos. A esposa dormia profundamente ao seu lado, os seus pensamentos estavam turvos, lembrando de Fernanda, em seus beijos, seu sexo quente. Desejos, fantasias, dessa vez o homem teve certeza de que estava mesmo para enlouquecer.


 


terça-feira, 14 de abril de 2020

NOVELA. 7° CAPÍTULO.

7. 





    A cidade de Mor sentiu-se a salva com a prisão de Hércules, que na verdade, era o policial Ariel. Mor voltou a sua normalidade, as pessoas não tinham mais medo de saírem à noite, os políticos festejavam e tudo parecia bem... Eu designei o assassino para uma avaliação psiquiátrica com um especialista. Os teus amigos detetives voltaram para a capital, apenas você, caríssimo Abderis, resolveu ficar mais aquela semana na cidade. Embora tudo parecesse bem, uma coisa ainda te incomodava, e, era exatamente a última frase dita do assassino quando o prendemos. ( - Não se preocupe delegado, estou apenas começando, não se esqueça de que são doze os trabalhos, são doze os signos, aquilo que não terminei, meus discípulos… Terminaram, isso eu lhe garanto ─ Disse o policial assassino no momento em que foi colocado na viatura da polícia.)  Você bem que achou a captura de Ariel fácil demais, alguma coisa ainda estava errada na história toda na sua concepção. Você dizia "Eu quero entender os verdadeiros motivos do assassino, e, por que ele matou uma jovem inocente?" Esse era um dos questionamentos, eram muitas as perguntas que não haviam sido respondidas, mas, você estava determinado em obter respostas. O assassino foi colocado em uma sala pequena, no próprio prédio da delegacia, para ser analisado do ponto de vista psicológico pelo doutor Neuzariã, nesta sala havia apenas dois sofás e uma pequena mesa de centro. Ariel permaneceu o tempo todo algemado, não esboçou qualquer tipo de sentimento que remetesse violência, medo, ou arrependimento. Ele apenas respondia às perguntas feitas com extrema naturalidade. Friamente.
"Podemos começar senhor Ariel?"Disse o doutor. "Sim claro, podemos"?"Como tudo isso começou? o senhor poderia contar-me Ariel, como você começou e porquê começou a matar todas essas pessoas"?"Eu não me lembro de como ou quando isso começou. O que eu posso dizer é que eu tive uma infância normal. Eu posso falar da minha infância doutor?"
"Sim pode, prossiga". "Como eu disse, eu tive uma infância normal, pelo menos eu a considero normal, não sei se isso tem haver com os fatos, mas eu tinha muitos amigos doutor, e, como toda a criança sempre fui muito arteiro; coitada da minha mãe, elas quase arrancava os cabelos de tanto nervoso que passava comigo, também não era para menos, um bando de moleques soltos o dia todo na rua, só podia dar em bagunça, mas… Foi uma época boa". "Onde o senhor morava nessa época, em que considera como, " Boa".?
"Até os doze anos de idade eu morei em um sítio; não… Desculpe, sítio não doutor… Uma fazenda, essa fazenda ficava no interior de uma cidade próxima à cidade de Rio das Antas, que lugar maravilhoso e encantado. Havia de tudo lá, de tudo mesmo". "Você tinha irmãos Ariel"? "Sim, éramos dois irmãos e uma irmã, eu e o Fábio somos os mais velhos, somos gêmeos, e a caçula é a Anita, sempre fomos muito travessos, como irmãos mais velhos a culpa de todas as traquinagens da minha irmã recaia sobre mim e o Fábio, as chineladas, palmadas e varas de goiaba eram sempre para nós, como minha irmã era a caçula, você já pode imaginar né... Ela aprontava todas e se livrava da culpa, meu pai não batia doutor, o desgraçado filho da mãe me espancava, a mim unicamente. Meu irmão Fábio era o tipo calado, ficava mudo diante de nosso pai, como eu sempre tentava explicar os fatos a culpa sobrava para mim no final das contas. Que merda que era aquilo". "Essa violência sofrida no seio do seu lar, você a considera um dos motivos de tê-lo influenciado aos seus atos posteriores"? "Não sei lhe dizer se isso influenciou no meu futuro, às vezes penso que sim, às vezes penso que não. Às vezes penso que temos uma missão. Talvez aquela fosse a minha". "Como foi à educação que você recebeu de seus pais? Você a considera uma boa educação"? "Quando o senhor fala em educação, sim, a minha mãe sempre me deu uma boa educação, a escola era próxima da nossa casa, naquela época na fazenda tinha até a quarta série, da quinta série em diante tinha que ir para a cidade estudar". "E quanto ao seu pai, quer dizer alguma coisa dele"? "Não toque mais nesse assunto doutor, por favor, não estrague a entrevista, me irrita falar de meu pai". "Tudo bem, eu não vou falar nele. Agora me diga; você era uma criança travessa certo"? "Se eu era bagunceiro. Mas é claro que era doutor, sempre aprontei todas, brigava quase todos os dias. Eu era muito bom em brigas". "O seu temperamento era calmo? Ou o seu temperamento era explosivo? Como você julga o seu temperamento"? "Sim, o meu temperamento era muito explosivo na adolescência principalmente, sempre foi, e por causa disso apanhei a beça, mas na fase adulta, quando entrei para academia de polícia, meu temperamento foi trancado em uma pequena jaula ou modificado, não sei ao certo". "Quando foi o seu primeiro contato com a violência? O senhor poderia me contar"? "Lembro-me da minha primeira briga sim, ô se lembro doutor. Foi na terceira série, com um menino da mesma idade minha, o motivo foi muito besta é claro, estávamos na fila do recreio, o folgado do menino cortou a fila, e bem na minha frente, eu pedi para que ele saísse e voltasse para o seu lugar, mas daí ele deu de ombros, não perdoei aquilo doutor, dei-lhe uma tremenda bofetada na cara, o resto você já sabe, socos e pontapés na orelha, fomos para diretoria, nossos pais tiveram que comparecer na escola levei uma tremenda surra do meu pai naquele dia, fiquei todo marcado, até hoje tenho as marcas". "Embora, o senhor descreve sua infância ligada a eventos de violência, como o senhor julgar ter sido ela"? "Minha infância foi assim, de certa forma normal, toda criança apronta briga e tudo mais, a única coisa que era diferente em mim, isso eu reconheço, era meu temperamento explosivo, era anormal, coisas mínimas me tiravam do sério, às vezes no momento de raiva eu ouvia vozes". "Você morou até a fase adulta com seus pais"? "Não, quando eu completei doze anos fui morar na cidade de Rio das Antas, na casa de um tio, o motivo era os estudos, mas foi bem nessa época que as coisas começaram a acontecer, eu estava entrando na adolescência a fase mais difícil da vida, pelo menos no meu ponto de vista". "O senhor cultivava amizades, ou era recluso, do tipo que não queria saber de ninguém"? "Recluso não, tive muitos amigos na escola, e todos eles eram os piores da escola doutor, minhas amizades definiriam quem eu seria, é sempre assim dotor, as amizades da adolescência influencia no nosso futuro, se não diretamente, indiretamente, no meu caso foi dos dois jeitos eu acho, indireta e diretamente". "Os seus pais brigavam, houve eventos em que o senhor quando criança presenciou brigas"? "Os meus pais brigavam muito doutor, não tinha lugar, não tinha hora, bastava um mínimo de qualquer desentendimento e pronto, estava feita a briga". "Eles faziam isso na sua frente Ariel"? "Sim claro, eles brigavam muito na minha frente, não só de boca, eram socos para tudo o que é lado, minha adolescência foi recheada de violência, começando pela casa dos meus pais, na verdade o meu pai era o violento, minha mãe apenas se defendia. Depois a violência se estendeu a escola, e foi na escola que experimentei o cigarro pela primeira vez doutor, um colega chamado Bruno me ofereceu no recreio, daí foi uma consequência desastrosa de erros, de um cigarro foi para dois e três, e depois veio à maconha, cocaína, eram sempre as mesmas pessoas que ofereciam, depois veio o vício, nessa época eu já tinha atingido a maioridade, eu saí de casa, perambulei por aí, depois de muito tempo. Eu fui para uma clínica de recuperação da polícia na cidade de Mor, me recuperei lá, e por influência deles mais tarde tornei-me policial". "O senhor via os seus pais nesse período"? "Não, eu não via meus pais com frequência, eu diria que a cada dois meses eu acho, no começo meus pais tentaram conversar comigo, mas não adiantou a rebeldia já havia dominado meu coração, e um ódio descontrolado pelo meu pai que não consigo explicar, aquilo tomou conta de mim, na verdade ditava as regras da minha vida. Mesmo depois de estar na Polícia". "O senhor conseguia controlar as suas emoções"? "Não doutor, eu nunca tive controle das minhas emoções, era e é tudo uma bagunça dentro da minha cabeça, eu nunca consegui me controlar de verdade". "O senhor já furtou antes? Lembra-se de como foi"? "Sim, lembro-me perfeitamente da primeira vez que roubei, foi um mercadinho próximo de casa, lembra-se do Bruno que me deu o primeiro cigarro que mencionei agora a pouco, então, foi ele quem me deu a arma, um trinta e oito bem velho e enferrujado, ele me deu uma daquelas toucas ninjas, esperei o melhor momento e fui ao ataque".  "O quê o senhor sentiu naquele momento em que cometia o crime"? "Olha doutor… É difícil dizer o que eu senti naquele momento, eu diria que medo, com dose de euforia, e depois do roubo, uma sensação de alegria talvez, eu gostei daquilo eu tive prazer em roubar, depois é claro veio às outras coisas". "O senhor voltou a morar com os seus pais nessa época". "Não, eu não moro mais com meus pais, eles pegavam muito no meu pé, e como eu tenho um temperamento descontrolado e agressivo, decidi morar em outro lugar, antes que eu fizesse algo de ruim com eles". "E o senhor teria coragem de agredi-los"? "Se eu tinha coragem! Mas doutor, é claro que eu tinha e tenho, eu acho… Bom… Não tenho muita certeza doutor, deve ser por isso que pediram que você viesse né, não sei por que isso tudo, mais tudo bem, vamos lá, continuemos então.
 "O senhor se viciou em Drogas" "Sim, eu era um viciado em varias drogas doutor, e o vicio é como dizem te escraviza, te domina, não adianta tentar fugir, não adianta doutor". "E as suas antigas amizades? Ainda perduram"? "Sim, eu continuei com as mesmas amizades, o Bruno é como um irmão para mim". "Havia naquela época algum tipo de grupo ou organização da qual os senhores agiam"?
 "Sim doutor, tínhamos um grupo, fazíamos barbáries, todos tinham medo, principalmente de mim, pelo meu temperamento, e com o efeito das drogas eu ficava ainda pior. Vivíamos fugindo da polícia, meus pais, por exemplo, doutor, eu nem visitava, mas, a única falta que sinto é da minha mãe, principalmente dos abraços dela". "Vamos fazer um intervalo, um descanso, se o senhor quiser, continuará depois do almoço. "Tudo bem então doutor, foi até bom desabafar com o senhor, depois do almoço então, tudo bem para mim, combinado então, tenho muita coisa a lhe contar, de certa forma isso parece me deixar um pouco mais calmo, quem sabe o senhor consiga me consertar. Não é mesmo doutor. Obrigado, um bom almoço para o senhor".

    Essa foi a entrevista de Ariel com o psiquiatra, devidamente gravada e registrada a meu pedido, do ponto de vista do psiquiatra, quase tudo o que foi dito por ele é invenção, segundo o doutor, Ariel sofre de esquizofrenia.




****




        Eu estava pensativo, aflito, ainda analisando os fatos referentes aos crimes e as provas, tentando entender algumas coisas, que porventura, vieram a passar despercebido. De repente, um dos policiais entrou em minha sala apressadamente, o olhar assustado. "Mais o quê foi agora Carlos, que cara é essa, viu algum fantasma"? "Delegado!… É melhor o senhor vê isso, estão todos assustados". "Ver o quê homem? Conte-me logo o quê houve, estão todos assustados com o quê"? "Lembra-se da jovem morta, a última vítima do Ariel". "Sim, eu me lembro. O que tem ela"? "O pai dela, o vereador Anacleto, lembra-se dele? Que depois da morte da filha disseram que ele tinha viajado". "Sim, claro, mas o que tem haver isso meu filho? O que você quer dizer? Seja claro".
"Acabaram de encontrá-lo doutor… Morto... Amarrado dentro de uma jaula com javalis selvagens, coisa horrenda. E tem mais… Na sua testa estava escrito, Hércules, e o número sete". "Quando os policiais escutaram aquele nome deram um salto das cadeiras onde estavam. Coloquei as mãos sobre a cabeça, acendi outro cigarro". "Mais ele está preso -- Disse o policial a mim -- o assassino está preso, como pode"? "Por favor, Carlos, mande chamar o detetive agora, ele ainda está na cidade, no hotel nova Esperança. Mantenha isso em segredo, tente ser discreto, e… Por favor, mantenha a mídia fora disso entendeu". O policial saiu na mesma hora, quase a tropeçar nos próprios passos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

UMA JORNADA NO TEMPO.



- Não mais vivemos no século 21 Richard. Essa sua obsessão pelo passado está se tornando doentia.
- O que tem gostar do passado? Aprendo mais a cada dia estudando o que as pessoas faziam no século 21.
- Você e suas loucuras.
- Me deixa Alfred, terminou o seu relatório, Aliás?
- Ainda faltam dados, tivemos problemas nessa semana com uma das unidades robóticas, a produção inteira parou por alguns minutos, graças ao sistema secundário não tivemos tantos danos, ainda sim, eles me pediram um relatório da unidade inteira.
- Boa sorte então.
 Alfred saiu do escritório, Richard continuava analisando documento antigos, todos do século 21, conseguidos no museu nacional. Tomou o elevador e subiu ao nível 5, robôs trabalhavam no novo protótipo, um veículo que anula a gravidade, podendo levitar, ir para todas as direções, comandado apenas pela voz do usuário. Verificou os protocolos na unidade central, tudo corria normalmente, não havia motivos para preocupações. Alfred resolveu que era hora de ir embora, ele estava na fábrica há quase dez horas, cinco a mais do permitido pela lei.
 Richard também havia deixado o escritório, foi direto para o estacionamento, sua unidade inteligente de transporte o aguardava. Estava um começo de uma noite fria, chovia naquele momento. A noite avançava com uma fúria silenciosa, as luzes da cidade acesa, prédios monumentais, no dia seguinte seria o lançamento dos novos veículos de gravidade zero, um milhão de unidades prontas para o uso. Era o futuro no próprio futuro.

Manhã seguinte.
No salão nobre da empresa,  um monumental evento foi preparado, convidados importantes, tudo pronto. O evento prestes a começar, transmitido ao mundo inteiro.  O sorriso largo no rosto do Cláudio, diretor da unidade, era a evidência do sucesso. Tudo corria bem… Em uma das mesas, mais afastadas da elite, estavam Richard e Alfred, conversando sobre diversos assuntos. Richard era o que mais falava, as suas recentes descobertas e suas possibilidades o deixou eufórico.
- Esse assunto novamente Richard, você não desiste mesmo do século 21.
- As possibilidades meu amigo, se minhas teorias estiverem corretas, será um marco na história humana, sempre se falou sobre isso, nunca se tentou, veja, se eu conseguir provar a possibilidade de viagem no espaço tempo, meu nome ficará na história.
- Ou, na plataforma eletrônica de algum sanatório.
- Essa noite… Essa noite Alfred, vou provar minhas descobertas…
- Tudo bem viajante do tempo… Agora preste atenção no evento e se concentre nos convidados. Teremos que gerar um relatório dessa apresentação.
- Relatórios…. Relatórios… 
Enquanto a apresentação seguia o seu curso, com a demonstração de toda nova tecnologia do veículo, Richard perdia-se em pensamentos. A possibilidade de voltar no tempo, revisitar momentos da história, o próprio século 21, o ano de 2020, ano da grande terceira guerra, ou quem sabe até antes disso. Tudo o encantava, mas, ele concordava que ainda faltava cálculos a serem feitos. Quais os efeitos no corpo e na mente? Uma desconstrução molecular e uma reconstrução segundos depois? A criação de uma ponte de Einstein house? O uso da energia escura?
Um pequeno buraco negro criado em um laboratório experimental? Perguntas e mais perguntas, eram possibilidades com muitas variáveis, mas, ele estava disposto a tudo para atingir seu objetivo. A noite do dia seguinte seria decisiva para Richard, foram anos de estudos, anos juntando recursos e materiais para construção de seu primeiro protótipo de máquina do tempo, inúmeros testes foram feitos com cobaias, ao que analisou, todas com sucesso. Agora a cobaia do último teste seria ele.

Richard acordou cedo, estava bem disposto, seria um dia importante para ele, onde finalmente, se provaria que é possível a viagem no tempo. Faltava apenas os últimos preparativos, a máquina estava pronta, o último elemento que seria adicionado a ela era uma cápsula contendo energía escura e partículas que ele chamava de elementares. Esses dois, 'ingredientes', permitiria dobrar para trás o espaço tempo, como uma folha permitindo a viagem no espaço tempo. Sua máquina deformaria o espaço tempo de modo a fazer uma espécie de portal nessa dobra. O ano pretendido era 2020. Mas antes, ele teria que passar na empresa, fazer uma pequena visita, para que ninguém desconfiasse. A única pessoa que sabia parcialmente da ideia, porém, não da máquina, era o amigo Alfred. Tudo estava planejado, cada detalhe.
Foi direto para empresa, a inauguração aconteceria em poucos minutos. Havia muitos convidados importantes de várias nacionalidades, todos ansiosos para apresentação. Richard foi direto para o centro de transmissão onde o amigo estava. Encontrou-o impaciente.
- Richard, você está atrasado, daqui a dez minutos abriremos a unidade, por onde você andou?
- Eu… É que não estou me sentindo muito bem, acho que foi alguma coisa que comi.
- Já sei… São aquelas porcarias do século passado, o modo primitivo deles se alimentarem foi proibido a anos Richar, você sabe disso.
- Lá vem você com seus sermões. Tudo pronto aí.
- Sim claro, acha que sou o quê?
Assim que a transmissão começou, Richard aproveitando da grande movimentação que estava no salão, e do fato do amigo estar muitíssimo atarefado, disse não estar bem, retirou-se alegando tonturas. Era o que precisava, no meio do alvoroço, pegou a última peça que faltava, um transmissor criado por ele, que iria funcionar como um GPS para direcioná-lo através do espaço tempo assim como para trazê-lo de volta. Foi diretamente para sua casa, chegando,  direto para a garagem, acoplou o GPS multidimensional no peito, acionou a máquina, definiu o local tempo e espaço, por fim, ligou…
Richard estava eufórico, tudo àquilo representava o trabalho de sua vida, e, poderia acabar em nada, como em dar muito certo. Ligou o último botão, posicionamento na rampa, uma bola de luz azulada formou-se na na frente da máquina, de repente, de um estalo, a bola azulada engoliu a máquina que desapareceu, e o portal fechou-se. Tanto a luz como Richar. A máquina havia funcionado como previsto.

                                    *****

A luz azulada diminuiu a intensidade até se apagar por completo. Sua máquina havia funcionado, Richard estava em uma rua de paralelepípedo, em um beco estreito entre dois grandes prédios. Sua máquina estava programada para levá-lo ao futuro novamente depois de 48 horas. Richard levantou-se, não sabia exatamente onde estava, mais a frente estava uma avenida, sem muito movimento. De fato, aquele era o século passado, o impossível acabará de acontecer, ele voltou um século atrás. Em um lugar completamente desconhecido para ele. Seu olhar atento, observava tudo, pessoas, vestimentas, carros, o modo de vida. Tudo exatamente como ele havia estudado em sua longa pesquisa. 
Richard resolveu caminhar por aquela avenida desconhecida. As pessoas que passavam por ele olhavam-no com certa estranheza, suas vestes nada comum chamava a atenção, um pouco mais a frente, próximo ao que seria um ponto de ônibus segundo suas pesquisas, encontrou o que naquele século as pessoas chamavam de jornais. A data o espantou, 20 de junho de 2020. Era a prova definitiva do seu sucesso. Guardou o jornal. Era preciso caminhar um pouco mais, fazer análises, explorar a cidade, que na visão de seu povo no século futuro, era primitiva, impossível de se viver.
Richard estava eufórico, suas pesquisas finalmente deram resultado, dez anos de estudos. O local onde ele caminhava era completamente desconhecido, segundo sua máquina, era para ele estar na mesma cidade, ASTANA, porém, no século passado. Aquele lugar em nada parecia com a moderníssima e futurística cidade do século 22, ou, talvez realmente fosse, mas, do século passado. Richard voltou no ponto de ônibus onde deixará o jornal, analisou-o novamente. O jornal dizia: ' O diário de Sorocaba, 20 de junho de 2020'. Na primeira página estava a seguinte reportagem. ' Tensão no Oriente médio'. Richard estava no lugar certo, àquela cidade, um século a frente se transformaria na futurista Astana. Ele se viu privilegiado, o homem do futuro, que, agora no passado, sabia exatamente o que aconteceria nos próximos anos. Entretanto, quem acreditaria em suas palavras? Ele tinha exatas 40 horas restantes. Não havia muito o que fazer. Richard resolveu caminhar, talvez pegar algumas provas para levar consigo, mas, algo incomodava suas ideias. Quem no futuro acreditaria? Certamente que ele seria taxado de mentiroso, que furtou artefatos de museus para dizer que foi ao passado, seria até preso. Revelar sua máquina também não era uma ideia boa. 
Richard caminhou por muito tempo, chegou no que naquele século chamavam de zoológico. Haviam muitas pessoas, que, adentravam naquele local por uma, 'catraca eletrônica', como chamavam. Era preciso o dinheiro da época, ele não havia trago nada, de modo que seria impossível entrar. Richard sentou-se próximo ao local, ficou apenas observando a multidão enfileirada, foi quando percebeu, que ninguém pagava para entrar. 'A entrada deve ser gratuita', pensou. Não custava arriscar. Entrou na fila, na entrada havia dois guardas monitores, que nada disseram, apenas olhavam aquele homem de vestes estranhas entrando no local, porém, não deram mais atenção. Richard estava livre para fazer pesquisas e análises, pois, muitos daqueles animais estavam extintos no seu tempo. Restava-lhe apenas 35 horas de exploração. Embora não compreendesse muitas coisas daquele tempo, e, percebendo que era inútil tentar provar para alguém que era do futuro, assim como seria improvável que, uma vez de retorno ao futuro, ninguém acreditaria em suas palavras. Restava-lhe apenas explorar e desfrutar do momento único da sua vida.

Faltavam algumas horas para o seu retorno ao futuro, Richard deixou o local, foi quase que correndo para onde sua máquina estava. Por sorte ninguém a notou naquele beco estreito e escuro. Richard sentou-se na máquina, ligou-a, acionou o campo de força, direcionou o local para o retorno. A mesma luz azulada, em poucos segundos viu-se de retorno a garagem de sua casa, tudo parecia bem. Desligou a máquina, fechou a garagem. Ao entrar na sua casa havia uma chamada de seu amigo no dispositivo de comunicação. Acionou-o, o holograma de Alfred apareceu.
- O que você quer? Perguntou Richard.
- Quero saber como você está? Já chegou em sua casa?
- Sim, faz horas que estou aqui.
- Como assim, faz cinco minutos que você saiu daqui.
- Claro que não, faz quase cinquenta horas que estou em casa.
- Meu Deus Richard… Vai descansar, você não está bem, nos vemos amanhã.
O amigo desligou.
Curioso Richard olhou no relógio, Alfred estava certo, no seu tempo presente havia se passado alguns minutos, mas, no tempo do passado, havia se passado quarenta horas. Richard arquivou todas aquelas informações, seu experimento funcionou, ele estava agora pronto para novas incursões no passado, e descobrir um modo de mostrar ao mundo moderno o mundo passado, e ao passado, o mundo moderno.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

NOVELA 6° CAPÍTULO.

A morte do prefeito Leônidas trouxe grande comoção aos moradores de Mor, era o nosso quinto caso seguido, o assassinato do novo prefeito extrapolou todos os limites colocando os moradores em total desespero. O corpo de Leônidas estava diante de mim, os olhos arregalados e a marca de dedos no pescoço, com a mesma inscrição enigmática na testa, Hércules, e o número cinco em algarismos romanos. Naquele momento estavam presentes mais dois investigadores, e dois secretários da prefeitura, todo o quarteirão foi cercado e isolado, a prefeitura também foi cercada, os policiais fizeram uma busca em cada cômodo em cada canto do prédio e nada foi encontrado - veja você - nenhum sinal de arrombamento, tudo estava no seu devido lugar.
    As marcas dos dedos no pescoço da vítima eram bem visíveis, fotos foram tiradas e todo o ambiente vasculhado, e mais uma vez nada foi encontrado, não havia sinais de digitais desconhecidas no gabinete, eu estava nervoso, acendi outro cigarro enquanto observava a terrível cena, pedi para um dos rapazes que estava acompanhando as investigações que pegasse os depoimentos de todos os funcionários, para ver se alguém tinha notado qualquer coisa estranha ou alguém desconhecido. Como nós dois tínhamos em mente um suspeito, tivemos uma ideia para tentar sanar a dúvida é capturar o assassino.
"Por favor, policial - eu disse a um dos policiais que ali estavam - emitam um chamado, quero que todos os policiais estejam aqui em meia hora, nos reuniremos na sala de reuniões da prefeitura. Isso é urgentíssimo". "Tudo bem delegado". Respondeu-me o policial.


    Meia hora depois estavam todos os policiais reunidos na sala, cerca de cem policiais ou mais, a prefeitura ficou congestionada com o número enorme de viaturas e motos, em poucas horas uma multidão de pessoas se aglomeraram na frente da prefeitura, todos curiosos por saberem o que tinha acontecido. Eu e você entramos primeiro na sala, havia um silêncio absoluto, meus olhos atentos percorreu toda a sala, os meus anos à frente da delegacia me fez conhecer cada policial que estava sob meu comando, e até os das cidades vizinhas eu os conhecia, logo percebi que faltava um, não disse nada, apenas pisquei discretamente para você, que entendeu o recado. "Senhores… Obrigado pela rapidez, chamei-os aqui para ressaltar a necessidade de um maior esforço da nossa parte para capturar o assassino, sem uma ajuda mútua dos senhores jamais conseguiremos, de hoje em diante apenas lhes peço que reforcem as rondas, que trabalhem em número de três em cada viatura, e também quero um relatório na minha mesa no final de cada turno, obrigado mais uma vez, os senhores estão dispensados, podem voltar aos seus postos, e boa sorte". "Muito bom delegado - Você disse - dessa vez ele não nos escapa".
    O corpo do prefeito foi levado para o necrotério, enquanto eu e você retornamos para a sala central. Apenas alguns dos investigadores estavam na sala conosco, e havia novidades importantes que ajudaria no caso. "Alguma coisa"? Você perguntou.  "Sim… Temos - Respondeu-nós Roberto - Os cortes feitos na testa das vítimas com o nome de Hércules e a numeração, pela precisão e profundidade, indicam serem feitos por alguma ferramenta extremamente afiada, o mais provável é que seja um bisturi cirúrgico, ou uma gilete. "Muito bem, obrigado Roberto, eu tenho um palpite e também um plano, vou precisar da ajuda dos senhores, dessa vez ele não nos escapa". "Roberto… Você já descobriu qual a ordem certa dos trabalhos de Hércules que o assassino está usando". Perguntei. "Descobri sim Apolo, e veja só, o sexto trabalho é a tomada do cinturão de Hipólita, neste trabalho o destemido herói toma da Rainha das amazonas e o seu cinturão, mas ele acaba matando-a, e também o sexto signo é o de virgem. Outra coisa, esses dias percebi que um dos seus policiais estava com a parte inferior da farda com um pequeno rasgo, sem que ele percebesse eu o fotografei, depois comparei a foto que tirei com o pedaço que encontramos no estábulo, e não é que bateu, portanto eu já sei que esse indivíduo é a suspeita mais provável dos senhores, estou certo".
"Brilhante Roberto, simplesmente brilhante, você está corretíssimo, agora é só arquitetar o plano que se dará da seguinte maneira"... 
Você começou a explicar o seu plano. Era costume na cidade de Mor ter um concurso de beleza todos os anos, todas as moças da cidade e das cidades circunvizinhas participaram, e o concurso seria nas próximas semanas, embora o clima da cidade fosse de medo, as autoridades políticas - às minhas ordens - resolveram que não iam impedir o concurso de acontecer, as rondas policiais seriam reforçadas, o povo tentava assimilar tudo o que estava acontecendo, os anúncios do concurso foi espalhada, mesmo temerosa, a população de Mor ainda buscava ânimo para participar da tradicional festa. 

                                 *****

    Na praça principal da cidade foi montado um grande palco - era o dia do concurso - estava cheio de luzes e enfeites, arquibancadas foram montadas, pessoas importantes foram convidadas, tudo estava pronto, policiais estavam posicionados em diversos locais estratégicos, deixei alguns fora do esquema propositalmente, principalmente o policial da qual desconfiávamos.
    O evento começou às cinco da tarde, muitos camarins foram montado, um em especial seria a da ganhadora do concurso, eu e você estávamos disfarçados no meio da multidão, um dos detetives estava próximo aos camarins, o concurso começou. Tudo corria na sua normalidade, quase ao final do concurso recebi um telefonema de meu informante dizendo que o suspeito tinha acabado de sair da delegacia, dizendo que teria que atender um chamado policial, a delegacia era próxima do evento, em menos de dez minutos o suspeito estaria ali, era necessário agir com rapidez.
    Enquanto isso, a garota que era a favorita é provável a ganhar do prêmio, estava no camarim se preparando para desfilar pela última vez, tudo indicava que ela seria a campeã das outras três selecionadas, do lado de fora, nos preparamos.
"Abderis é agora". Eu disse usando um pequeno rádio portátil. Em poucos minutos depois de se desvencilhar da multidão,  chegamos ao camarim principal onde a garota estava, chamamos pela moça por várias vezes, mas ela não respondia, você estranhou o silêncio no camarim, então usou da força para arrombar a porta, qual não foi a nossa surpresa, bem diante dos nossos olhos, com uma faca nas mãos toda ensanguentada, estava o policial suspeito, mas era tarde demais, a moça que era a cotada a ganhar o concurso já estava morta. Ela tinha apenas dezesseis anos, era filha de um dos vereadores da cidade, seu nome era   ngela. "Mãos para o alto seu desgraçado, maldito". Você gritou pronto a disparar. "Tarde demais senhores, tarde demais… Tudo está feito". Disse o assassino sorrindo sarcasticamente enquanto jogava a arma do crime no chão. "Cale a boca e coloque as mãos onde eu possa ver". Você prosseguiu.     Naquele momento outros policiais chegaram, entraram no camarim, assustados eles não acreditavam no que os seus olhos viam, o plano não tinha funcionado como eles esperavam, o que nós não imaginávamos é que o assassino fosse rápido demais. O assassino era mesmo um dos meus polícias, era o mais velho deles, ele foi algemado e levado para a viatura, à multidão estava assustada com a morte da filha do vereador, mesmo assim, aplaudiram a polícia por ter finalmente capturado o assassino. "Fim da linha para você Ariel, que decepção, logo você, meu melhor policial, foi difícil, mas conseguimos parar essa sua loucura". Eu disse o encarando com fúria. "Não se preocupe delegado… Estou apenas começando, não se esqueça de que são doze os memoráveis trabalhos, não se esqueça… São doze os gloriosos signos, não se esqueça… Aquilo que não terminei meus discípulos… Terminará, isso eu lhe garanto" - Disse o policial assassino no momento em que foi colocado na viatura da polícia.
    Assim fomos todos para a delegacia, regozijantes por termos capturado o assassino. A cidade agora poderia desfrutar da sua paz e tranquilidade cotidiana, embora as mortes das vítimas, tudo ficaria bem.
Mas… Havia algo que não se encaixava, o assassino praticamente se deixou prender, aquilo incomodou…

    



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

CONTO.



( CONTO EM POESIA.  A HISTÓRIA DA CRIAÇÃO E DA QUEDA DO HOMEM. )


PASSOS NO PARAÍSO.

1.

No princípio fez céus e terra,
A terra figurava sem forma, inóspita,
O Espírito divino pairava sobre as águas,
Falou o verbo - E houve a luz,
Separou-as das trevas,
Falou o verbo - E houve firmamento,
Chamou-os de céus,
Falou o verbo - E juntou-se às águas,
Surge a terra, surge os oceanos,
Viu Deus que tudo era bom.

Falou o verbo - E resplandece a natureza,
Floresce toda beleza, perfumes, cores,
Falou o verbo - E brilhou as estrelas,
Constelações bailarinas no céu negro,
Ao dia designou o sol,
Para a noite fez a lua,
Era o começo da criação,
Da mente divina tudo bem feito,
De tudo fez distinção,
Viu Deus que tudo era bom.

Criou a diversidade marinha,
Aves grandiosas e pequenas,
Falou o verbo - E houve grande fauna,
Encheu-se a terra de toda sorte de animais,
Falou o verbo - E brilhou a jóia da criação,
O fez a sua imagem e semelhança,
Deu a ele todo o domínio,
Um mundo inteiro para governar,
Alegrou-se Deus em seu coração,
Viu que tudo era muito bom.

2.

Assim terminado céu e terra,
Ao dia sétimo descansou,
Abençoou-o dando-lhe por sagrado,
Essa é a história da criação,
Céu e terra formados,
Não havia na terra chuvas,
Nem homens para à cultivar,
Solo virgem, imaculado,
Entretanto,
Do manancial terrestre tudo regava,
Terra e água misturados, o barro,
Da argila moldou o homem,
Insuflou-lhe hálito vivente.

No Éden foi colocado,
Do jardim o homem iria cuidar,
Plantou Deus frutíferas árvores,
Também a do bem e do mal,
O rio de quatro braços regava-o,
Pison, Havilá, onde ouro há,
Reluzente metal,
Perfumes e pedras sem igual,
Pison, terceiro braço envolto a cuch,
Tigre, Eufrates, a leste da Assíria,
Presenteado foi o homem estando lá,
Foi lhe dada certa ordem, 
"De 'quase' tudo comerás".

"Porém" - disse o criador,
"Da árvore do conhecimento não tomarás",
Disse-lhe também,
"Não é bom que estejas só",
"Far-lhe-ei a sua outra metade",
Criou aves, animais e toda espécie,
Ao homem levou-os para nomear,
De bom grado Adão os classificou,
Entre os tais igual não achou,
Deu-lhe Deus profundo sono,
Tirou-lhe a costela do meio,
E dela fez bela mulher,
Alegre disse Adão,
"Ossos dos meus ossos",
"É carne da minha carne",
E a mulher chamou-a de Eva,
É mistério da criação,
De um fez dois,
Dois que trona-se-a em um,
Nu estavam,
De nada se envergonhavam.


3.

Astuta serpente ao desagrado humano,
Dialogando ao gênero feminino,
Questionando-a das árvores comestíveis no jardim
A feminilidade inocente respondendo,
Quase tudo lhe era lícito, entretanto, uma não,
A morte seria certeza se de tal árvore tomar,
A astuta serpente destilou o seu veneno,
Enganou-a distorcendo o entender divino,
" Certamente não morrerás", disse mais:
" Como Deus altíssimo serás", continuou.

A mulher tomou a apetitosa fruta,
Que a mentirosa serpente ofereceu,
De tão saborosa que era ao lábios,
Ao seu apaixonado marido ofereceu,
Degustou o prazer que tem no pecado,
Percebeu na mesma hora a nudez que lhe vestia,
Vendo o seu erro, envergonhado ficou,
Soprava a brisa no final daquela tarde,
Ouviram passos no paraíso,
Era o altíssimo que se aproximava.

Disse o Deus com voz potente,
Ele, que todas as coisas conhece,
Repreendeu a astuta serpente,
Pela eternidade arrastava-se pelo ventre,
Proferiu antiquíssima sentença,
Entre a mulher e a sua descendência,
Sua voz dirigiu-se à mulher,
Multiplicou-lhe as dores da gravidez, era sentença,
E disse ainda mais, 
Que dominada seria pelo homem.

Continuou Deus com voz de trovão,
Pois dele não se esconde nem se escapa,
Repreendeu fortemente a Adão,
Pois que a mulher foi dar ouvidos,
Desprezando preciso conselho divino,
Selou o homem o seu terrível destino,
Comeria sempre do muito suor do seu rosto,
A mulher, chamou-a de Eva, mãe de todos viventes,
E assim expulsou-os do Éden o altíssimo,
E guardou-o a espadas de querubins.




MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

           As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino.      Nos recônditos ...