quarta-feira, 17 de julho de 2019

CONTO 4.



ANJO LEDO.




    "Os sonhos são pontes suspensas entre o mundo dos nossos desejos e as nossas memórias, então, sonhar seria ligar esses dois mundos e transitar por eles desfrutando de seus mistérios".




 O meu nome é Olafec Orcam, sou um poeta apaixonado, basta isso e nada mais. 
 O relato que vou lhes contar é de grande relevância; irei dizer a despeito de certo anjo ledo, que surgiu em minha vida há alguns anos. esse nome que lhe dei de - anjo ledo,  deve-se ao fato dela ser uma mulher belíssima, muitíssimo especial. Ainda não encontrei beleza que eu possa fazer comparação. Nada é mais vívido, nada é mais dócil, nem todas as flores do mundo tem o perfume semelhante ao dela, nada, exatamente nada neste mundo se compara a beleza desse anjo ledo, ela é simplesmente divina. 
 Esses relatos desrespeitam a minha vida, a minha história, e confesso que, fiquei pensativo em como começar a contar-lhes, mesmo porque, o anjo ledo aos meus olhos tem qualidades divinas, que supera em muito o reles mortal que sou. Não é só pela beldade magnífica, vai muito além, esse anjo ledo tem algo simplesmente mágico, um poder conquistador irresistível. 
 Os seus negros olhos falam ao coração mais duro, a graciosidade de seu sorriso toca a alma mais distante. Eu nunca fui de crer em histórias sobre personagens mitológicos, pelo menos não era antes de conhecê-la, agora, eu posso afirmar categoricamente que ela é a própria Afrodite personificada. Eu não estou exagerando ao afirmar que ela é a deusa do amor e da beleza, por esse motivo a chamo de anjo ledo, anjo que arrebatou-me a alma com apenas um olhar, e que aprisionou-me o coração com apenas um sorriso.
 Eu sempre ouvi dizer que o amor é forte e arrebatador, e também sempre pensei que já o havia conhecido e o experimentado. Mas… Em um belo dia, esse anjo ledo surgiu no horizonte dos meus olhos, tudo então mudou, percebi que eu ainda não tinha conhecido o verdadeiro amor. Aos poucos o meu coração foi se rendendo a sua beleza, ao brilho intenso do seu olhar, ao seu sorriso cativante, de forma despretensiosa ela foi me conquistando, dia após dia, no início tentei resistir, tentei fugir desse amor, mas confesso que não tive forças, algo dentro de mim dizia que esse era o grande amor da minha vida, e, por mais que eu tentasse impedi-lo, seria simplesmente inútil, nada é mais poderoso que esse amor, não há como fugir dele. Quando estou próximo dela, fico observando-a; na verdade admirando o que ela faz, o jeito dela se sentar e cruzar as pernas, o jeito como ela arruma os cabelos, aquele olhar de canto de olho, os sorrisos em momentos de descontração, o jeito charmoso e sexy de andar, a sonoridade da sua voz, enfim, tudo nela é maravilhoso. Quando me atenho a estas cenas do nosso cotidiano, confesso que choro por dentro, isso mesmo, derramou rios de lágrimas na minha alma, até quase me afogar em um descontrolado desejo de abraçá-la e beijá-la, de tocar aquele corpo, de possuí-lo em meus braços, de sugar a seiva virgem daqueles seios, de sentir a maciez de seu sexo. 
 Como é difícil controlar os meus desejos, como é difícil te amar desmesuradamente, como é difícil mirar os teus lábios imaginar os teus beijos sabendo que não está no alcance desse pobre mortal, não posso desfrutar das delícias que se esconde nestes pequenos lábios, neste corpo nu, esse é, e sempre será o meu eterno desejo, impossível desejo. Amar o anjo ledo não fazia parte dos meus planos, mas o destino quis que acontecesse, e quer saber de uma verdade; foi a melhor coisa que já me aconteceu, este divino sentimento me renova a mocidade todos os dias, a magnífica e glorificada beleza do anjo ledo me revigora.

 Os dias foram se arrastando no palco da vida, e sem tê-la ao meu lado, os dias não têm sentido, se arrastão lenta e dolorosamente. Enquanto no mais profundo da minha alma a saudade flagelava o peito em chagas incuráveis, dói muito saber que nunca a terei, dói ter tanto amor dentro do peito e não poder 
dividi-lo com ela.
 Dias depois vieram os sonhos, como se fosse uma forma de castigo imposta a mim, quero lhes falar sobre esses meus sonhos, pelo menos um deles, se eu fosse contextualizar a todos, certamente daria um livro enorme. Vou lhes narrar o que mais mexeu comigo, digo isso pela 
forma como ele pareceu-me real, tanto que chorei ao despertar, eu queria que aquele sonho fosse eterno. 
 O sonho deu-se da seguinte maneira:
 “Era noite, e estávamos em um quarto muito bonito por sinal, mas não era quarto de hotel, nele havia uma cama enorme e redonda, havia também um espelho no teto, enorme, eu estava deitado totalmente nu, quando ela entrou de repente. O seu perfume tomou todo o ambiente, quase enlouqueci, aquele corpo nu, os seios redondos, pele morena, mamilos endurecidos, a pele brilhante, sua intimidade como a flor de açucena, úmida, pedindo que eu a possuísse. Uma música tocava baixinho,  então ela se aproximou, eu senti o calor daquele corpo juvenil, e aqueles lábios de mel tocaram os meus em ardentes e descontrolados beijos, e desceu até meu sexo, degustando toda minha rigidez. As minhas peregrinas mãos tocaram cada centímetro daquele corpo, sentindo aqueles mamilos vermelhos, endurecidos, esfregando-se em mim, a umidade latejando em meu sexo, o espelho no teto refletindo a sua nudez, nossos corpos suados, ela por cima de mim, nossos corações acelerados. Foi um sonho delicioso, ela gemia, pedia mais, com força, até chegarmos ao ápice, ela enlouquecia, eu também, foi incrível, parecia real."

 Ainda agora consigo sentir o sabor de seus lábios, o meu corpo inflama só em lembrar-se do sonho; depois de despertar chorei de tristeza por ser apenas um sonho, um desvario da minha imaginação enlouquecendo. 
 Eu te amo anjo ledo, com todas as forças do meu coração, mesmo sabendo que você nunca será minha, ainda sim te desejo, sou um reles mortal, indigno de possuí-la, divino ser dos meus sonhos noturnos. Permita-me falar um pouco mais de você, o quanto admiro sua beleza. O que eu mais gosto em você é esse seu jeito inocente e despreocupado, é o seu jeito de seduzir sem saber que está seduzindo, a sua inocência angelical me faz esquecer que vivemos em um mundo caótico e preconceituoso, amo você. Os teus ideais tão bem definidos, a tua candura, o teu jeito de encantar até mesmo as flores, te amo anjo ledo. Seu corpo, se me permite dizer, é perfeito; esplendoroso. Os negros olhos conseguem penetrar no mais profundo da minha alma, os teus pequenos lábios tão bem desenhados arrancam da lira do amor os suspiros e as notas mais ardentes, os seus belos seios, me faz perder em mil imaginações e desejos de 
amor. As tuas pernas formosas tão bem desenhadas, tem no diâmetro a perfeição do pecado, não estou exagerando quando digo que na face desta terra, não há beleza maior, me tornei poeta somente para ser seu escravo, um servo fiel desse platônico amor.
 Um pedido ousado tem a lhe fazer anjo ledo de meus sonhos de amor, embora eu saiba que tal pedido é impossível; mesmo assim eu te suplico.
“Desnuda-te da sua divindade, renegue o seu alto trono, desfaça de suas asas, e torna-te mortal tal como sou, despe de sua glória e faça parte desse mundo mortal e pecador, meu coração já é teu, permita que o seu coração, nem que seja por um minuto apenas, seja meu também. Permita que os meus lábios tenham os teus beijos, e os meus braços os teus abraços, nem que seja por um minuto apenas, basta esse minuto para que tudo se torne eterno.
               
                                *****
        

“É difícil explicar as coisas do coração, quando a razão está dizendo que é loucura; da mesma forma, é impossível de explicar a razão, quando o coração diz que é loucura, uma se opõe a outra.”





 Eu sou apenas um poeta solitário, sem destino certo, tendo como tesouro apenas as palavras e a disposição em lhes contar mais esses pormenores.  Talvez eu seja um louco, talvez cada leitor me julgue como louco, seja como for, de certa forma talvez eu seja mesmo insano, e aceito tal sentença. Eu já lhes contei sobre certo anjo ledo que surgiu em minha vida, assim de repente, sem avisar ela surgiu e sem piedade ela enlouqueceu-me. Desde então, do momento em que meus olhos viram aqueles belos olhos brilhantes, minha vida virou do avesso.
 O amor foi crescendo dentro do meu peito, crescendo como uma erva, envenenou o meu coração, tomou a minha alma, escureceu a minha razão. O que vou lhes contar me sobreveio pouco depois daqueles primeiros dias, o anjo ledo que se mostrava oculta e inacessível, respondeu aos meus anseios e aos meus pedidos.
 Era uma bela tarde de domingo, primavera, as flores desfilavam toda a sua beleza no jardim próximo a minha residência. Na tarde daquele domingo eu resolvi caminhar, buscar novos ares, sentir o perfume de outras flores em um jardim mais próximo, levantei-me de onde estava, e lentamente fui à outra praça. Perdoe-me, mas não me sinto à vontade para lhes revelar os nomes dos locais e onde os fatos se passaram. Lá estava este poeta, no ofício de sua labuta, buscando no âmago do coração a inspiração de cada verso. Desde que comecei a escrever, sempre risquei meus textos e poemas em um modesto moleskine, somente depois que os passo para a máquina de escrever, isso antes do advento da modernidade, agora existem os computadores, essas maravilhas da modernidade, que na verdade são máquinas de escrever glorificadas, mas o meu processo criativo segue sempre a mesma sequência. Naquela manhã, uma inspiração inesperada tomou meu coração, a minha cabeça estava cheia de palavras de amor, o motivo, - foi certo sonho com o anjo ledo -, seguido de uma mensagem, ardente mensagem de amor. Ela havia correspondido, e respondia positivamente, meu coração parecia explodir dentro do peito.
 Cheguei a tal praça, silêncio, poucos transeuntes passavam ali, no pensamento, o sabor do sonho, o sabor daqueles lábios de mel na memória, o sexo ardente, queimando a pele como fogo, a lembrança daquela mensagem, o sabor do pecado estava ao alcance dos meus lábios, a minha razão conflitava com o meu coração, a razão dizia que não, o coração dizia que sim. Eu não sabia a quem ouvir, eu desejava e muito o anjo ledo, mas era um amor proibido, impossível, mas que se configurava possível. Minha idade, minha posição social, meus compromissos políticos, tudo se opunha a esse amor, mas o meu coração, que por tanto tempo a desejava, me dominava naquele momento. Sentado no banco da praça, eu comecei a rabiscar algumas palavras, era a forma que eu encontrava para descarregar o excesso do sentimento em mim.

Eis aí, o poema que fiz naquele dia.
Ele reflete bem o meu desespero, a minha angústia, o poema fala por si só.

ODE AO AMOR ENLOUQUECIDO.

O amor ainda existe lá dentro do peito,
O amor ainda é muito forte lá dentro do peito,
Este sentimento imensurável dentro de mim,
Eu, que pensei, que este sentimento estava adormecido,
Eu que o julguei deveras esquecido,
E de repente, bastaram as tuas palavras,
De repente a sonoridade da sua voz surgiu,
Penetrou no mais profundo de mim,
E este amor prisioneiro e traiçoeiro,
Se revelou novamente me causando medo.




Este amor que no passado trouxe devastação,
Este amor que no passado fez-me desfalecer,
Este amor que arrancou de meus olhos todas as lágrimas,
Que fez de mim este poeta solitário e esquecido,
Que fez de mim escárnio de meus próprios versos,
Que fez em pedaços o meu universo,
Amor com a qual sonhei noites inteiras,
Amor que machucou a minha alma inteira,
Amor que fez em pedaços o meu coração,
Amor que eu mesmo criei.




Com muitas dificuldades e infindas lutas,
Eu o havia aprisionado no calabouço da solidão,
Eu o tranquei e joguei as chaves fora,
Era um amor perigoso, devastador,
Um amor tão forte quanto o aço,
Um amor tão forte quanto a morte,
Um amor que fez de mim um escravo,
Eu finalmente o aprisionei, joguei as chaves fora,
Então fechei os meus olhos e dei as costas para a prisão,
Eu fui embora sem querer ir, assim foi,
Eu que pensei que tudo estava resolvido.




Mas na última noite ,entretanto,
Quando sem que eu percebesse,
Eu me aproximei demais daquele calabouço,
Entre as grades de ferro, eu vi o amor sem vestes,
Aquele mesmo amor que devastou-me por inteiro,
Aquele amor que sempre fez de mim prisioneiro,
Aquele amor… Desfilava sua nudez,
Pronunciou do profundo das sombras as suas palavras despidas e devassas,
Então o que eu não imaginava aconteceu,
As lembranças retornam como fogo na memória.




Nesta última noite ,entretanto,
Foi que eu percebi o meu erro do passado,
Eu tranquei aquele amor em grades de ferro,
Eu havia jogado todas as chaves fora
Para certificar que ele nunca sairia dali,
Mas cometi o pior de todos os erros,
Junto à esse amor prisioneiro,
Eu também tranquei o meu coração,
Eu não havia percebido que o amor o tomou para si,
E o levou ocultamente meu coração calabouço adentro,
A verdade é que eu me tranquei naquela prisão.




Hoje… Eu já não sei o que fazer,
Talvez eu enlouqueça com esse amor,
Talvez eu enlouqueça de tanto te amar,
O que será daqui para frente já não sei,
Mas aquelas íntimas palavras,
Pronunciadas no fogo da paixão,
Revelou o que eu sempre fui para este amor,
Eu sempre serei…
Um eterno escravo de teu corpo nu.




 Meu coração estava enlouquecido, morrendo de amor pelo anjo lendo, um abismo que eu mesmo criei para mim. E de repente, lá estava ela, ao longe, passou tranqüilamente, eu a vi, ela não me viu. É sempre assim, ela me seduz, me enfeitiça, me enlouquece, e depois… Depois fingi não me conhecer.
 Essa situação está me enlouquecendo, meu coração está envenenado, eu quero aquele amor proibido, àquele corpo nu proibido, àqueles seios selvagens proibidos, mas não devo, mas não posso... Certa vez, quando ela estava na minha mansão, em uma raríssima ocasião em que ficamos sozinhos, algo de diferente aconteceu. A princípio ela estava quieta, não queria conversa, eu a respeitei, eu não sei explicar como, mas iniciamos um curto diálogo e a certa altura, o diálogo foi se prolongando, ela contava-me de seus sonhos, de suas aventuras como atriz, eu, apenas escutava, bebia do brilho de seus olhos, da famosidade daquela face. Mas o diálogo partiu para um terreno perigoso, assuntos e fatos ardentes, eu senti nos olhos dela um descontrolado desejo por mim, e não suportando mais, cedi a pressão do coração. Nos beijamos, fizemos amor naquele dia, beijei sua intimidade pulsante, minha embriaguez foi da sua beleza, perdoe-me por não lhes dar tantos detalhes, lembrar daquele dia é difícil, escrever os detalhes da nossa noite de amor é demais para mim.
 Tempos depois ela enviou-me uma mensagem, que ao ler petrificou minha alma. A mensagem era curta e dizia o seguinte. "Estou grávida, e agora, o que faremos? Papai está desconfiado". Aquelas palavras foram como facas no meu coração, eu, político renomado, homem conhecido de todos, havia engravidado a filha menor de idade da minha empregada. Eu não sabia o que fazer, e estava completamente desesperado. Para não ruir diante da sociedade, fiz o que não deveria fazer, o que eu reprovo em mim mesmo, eu fugi, abandonei Brasília, identidades falsas, grana alta no bolso, fim de mandato, início de uma vida de riquezas. Eu vivo solitário, em uma mansão, talvez agora os senhores compreendam o motivo que não lhes dei tantos detalhes em meus relatos. Escrever foi a forma que encontrei de aliviar o peso da alma, eu recorro a isso diariamente. Ainda há coisas a contar-lhes, pormenores de toda essa, 'história', detalhes que talvez os senhores desejam saber, e quem sabe neste momento estão se perguntando, "Quem é o meu filho". Eu não prometo nada… Mas quem sabe em breve, eu lhes conte mais algumas coisas referentes a minha desastrosa vida.

Ainda te amo anjo ledo, mesmo distante e covarde.

Seu… Sempre seu, Conde Olafec Orcam.




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