NOTA INICIAL.
Dias antes de me mudar de Rio das Pedras, alguém desconhecido deixou um embrulho na porta da minha casa, não sei dizer em que horário foi, pela manhã que o notei. Estava ao lado do jardim, a princípio, desconfiei do embrulho, eu não havia comprado nada que fosse entregue pelos correios, peguei o misterioso pacote, relutei em não abri-lo, embora ele estivesse devidamente arrumado, não havia o endereço de origem, era apenas o meu endereço. Relutante ao abri-lo deparei-me com um calhamaço de papéis datilografados, neles, uma fotografia de um senhor, de idade já bem avançada, e uma história, o que estava escrito naquelas inúmeras folhas desrespeita ao meu passado, o meu último trabalho como investigador na então cidade interiorana de Mor - Lugar onde trabalhei há muitos anos atrás.
O autor desse calhamaço - Apolo Lombardi Lucano - era o então delegado da cidade naquela ocasião, trabalhamos juntos naquele ano.
O caso aconteceu há quase vinte anos, se não falha a memória. Depois de ler e reler os papéis escritos por Apolo, eles revelaram ao final, fatos importantíssimos de certo caso, que, na época nunca foram desvendados. Por isso resolvi publicá-los.
( Abderis Franzoni. )
Apontamentos…
( Apolo Lombardi Lucano )
Como tudo começou? Bem… Vamos por partes amigo, tenha calma, irei lhe contar tudo. Mas antes, permita-me algumas breves considerações desse que vos escreve.
Uma vida tranquila?
Talvez…
Uma vida pacata e sem problemas?
Quem sabe.
Afinal, quem não deseja uma vida tranquila, à beira de um lago, vara de pescar, o silêncio da natureza.
Certo que todos desejam, eu também desejei, é isso que todos almejam, inclusive você.
Desde cedo, ainda na época da escola, menino, eu sempre evitei os conflitos e as brigas. Defino-me, portanto, como alguém reservado e de poucas palavras, porém, sempre fui muito atento e observador, dom esse que me seria extremamente útil no futuro, como de fato foi. Meus amigos sempre foram poucos, na verdade, era apenas um, o José. Eu o conheci quando tinha dez anos, em uma escola que ficava na pequena fazenda dos Alcântara, nas proximidades de Mor, assim como eu, José também era reservado e não gostava nem um pouco de conversar e de fazer amizades, quando estávamos juntos - era diferente - nos comunicávamos a nossa maneira, do nosso jeito, embora estranho, confesso, era uma comunicação quase unicamente gestual, assim nos dávamos muito bem.
Bons tempos aqueles, se fosse possível voltar a um determinado momento no passado, certamente eu escolheria aquele momento da minha infância, aqueles foram os meus melhores dias - era feliz e não sabia.
A vida tem dessas coisas caro amigo, não sabemos aproveitar os bons momentos que ela nos oferece, somente depois que eles passam é que lamentamos e choramos o que foi desperdiçado. Assim como é a sombra em um dia de sol, assim é o tempo, foi o tempo, e sempre será o tempo, fugaz. Hoje, tantos anos depois, o que me resta são apenas as boas lembranças que ainda vagam solitárias pela minha falha memória.
Quando jovem, eu queria ser artista plástico, logo percebi que não tinha o menor talento. Tentei de tudo um pouco, e também trabalhei em quase tudo. Quando eu completei vinte anos, consegui entrar para a polícia, rapaz forte, alto, boa aparência, inteligente, tudo parecia contribuir para que eu entrasse para a polícia, mesmo contrariando demais opiniões, segui em frente, havia um objetivo naquela carreira que se iniciava.
No último dia de novembro de… Não me lembro a data. Começava a minha carreira como delegado de polícia, a cidade que eu trabalharia, a primeira e única até ao dia em que saí, foi a cidade de Mor, ao extremo norte de Minas Gerais. Eu nunca imaginei que nesta cidade tão pequena, tão pacata, que construiria a minha carreira como delegado e alcançasse o meu principal objetivo, foi em Mor, que com esforço e muito suor, lágrimas e sangue, principalmente sangue, que construí a minha carreira policial.
Hoje, já velho, faço apenas relembrar minhas memórias nesta última válvula de escape da minha vida, a literatura, vou terminando os meus dias lendo, e, entre uma leitura e outra, resolvi escrever minha própria história, aliás. Uma confissão final. Hoje, preso ao cárcere deste meu corpo moribundo e canceroso, passo o dia cheio de dores, as vezes grito de dor, quando passa a dor, escrevo minhas memórias.
Permita-me, caríssimo amigo, que eu lhe conte um pouco do que não lhe foi dito. Vou lhe confidenciar a verdade de como foi o nosso último caso em Mor, o pior e o maior de todos, foi com este caso que encerrei a minha carreira profissional, alcançando o meu objetivo, prendendo o criminoso mais perigoso de todos os tempos. Os crimes que ele cometeu - lembre-se - desafiou a todos nós, os seus métodos incomuns e a sua crueldade eram um desafio para as mentes mais inteligentes - Há de concordar. Tudo levou-nos ao extremo de nosso exercício profissional, em uma caçada angustiante contra alguém extremamente aplicado e perigoso, as baixas surgiram, mas, finalmente, conseguimos prender o assassino, ao olhar de muitos do povo, ele era um herói justiceiro, de outros, apenas um assassino, dos demais, um executor, para a lei, ele era apenas um criminoso e assassino.
Tentarei da melhor maneira possível contar-lhe toda a verdade não dita, e de tudo quanto aconteceu naquele fatídico ano, você, caríssimo amigo, talvez fique surpreso, você, estimado amigo, vai estar diante de um final que não consta nos autos policiais, a verdade por detrás dos fatos… Vai te deixar em grande desconforto.
Então… Vamos adiante…
Os fatos se passaram na pacata cidade de Mor, um lugar que parou no tempo, as casas eram simples e pequenas, boa parte delas foram construídas em madeira, de uma arquitetura de singular beleza. Uma cidade com muito verde e de belas praças, cidade hospitaleira, de um povo alegre e acolhedor, assemelhando-se às casas de certas cidades do interior dos Estados Unidos.
Mas o tempo passou, tudo passou.
Mor contudo, nunca mudou.
Lembro-me bem do prefeito de Mor, chamava-se Diomedes, era conhecido pela grande criação de cavalos que possuía em sua fazenda, a maioria deles cavalos selvagens, e necessitam de adestramento para depois serem comercializados. Essa prática tornou o prefeito um fazendeiro rico e ambicioso que fazia tudo ao seu alcance para ter o que desejava seus olhos. Todos na cidade de Mor o temia, e, faziam praticamente todos os seus desejos. Contam os mais antigos, que Diomedes matou várias pessoas por dinheiro, abusou de inúmeras empregadas que trabalhou em sua fazenda. Para os moradores ele era um verdadeiro tirano, um déspota, que não respeitava nem a própria mãe, colocando-se sempre acima da lei, porém, ninguém se opunha a ele.
A cidade sempre foi governada com mãos de ferro pelo carrasco e corrupto prefeito, e quem ousava desafiá-lo ou ir contra as suas vontades rapidamente desaparecia sem deixar rastros, acreditava-se que ele havia construído um cemitério escondido em sua fazenda, lugar onde, segundo diziam as más línguas, ele enterrava as vítimas assassinados por seus capangas, aqueles que ele considerava os seus inimigos. Contava-se também que ele alimentava os seus cavalos selvagens com partes das suas vítimas misturadas na ração - algo que foge à compreensão humana.
Por várias vezes eu tentei conduzir investigações contra ele, buscava conseguir provas que o levasse a cadeia, mas nunca obtive sucesso, o seu poder financeiro e a sua influência política eram obstáculos difíceis de serem vencidos.
A sua família era formada de políticos importantes, pai, avô, tios, primos, enfim, todos com cargos na esfera política nacional, alguns inclusive em Brasília. ("Até aos dias de hoje")
Nunca houve quem o contrariasse, ninguém na cidade tinha coragem de se colocar contra o prefeito, àquele demônio chamado Diomedes teria que prestar contas a Deus, meu avô dizia que nesta terra ninguém que é ruim passa sem punição.
A significativa mudança dessa situação teve iniciou em um domingo, no início da primavera - não vou me recordar as datas, perdoe-me - como é costumeiro nas pequenas cidades interioranas - ainda nos tempos atuais - a maioria dos moradores se encontravam na igreja nas manhãs de Domingo, e, não era diferente na pacata cidade de Mor. A maioria das pessoas mais influentes da cidade gostavam de se encontrarem na Matriz e de ouvirem os sermões do padre Jonas, um senhor não muito simpático que não gosta de conversas paralelas durante a sua missa.
Naquele domingo em questão, o prefeito Diomedes não compareceu à missa, o fato chamou a atenção daqueles que estavam presentes, a minha nem tanto - nunca dei importância a isso -, era do costume do prefeito comparecer às missas de domingo, e pelo fato dele nunca ter faltado desde que assumiu a prefeitura - não que ele fosse o exemplo de religiosidade, sabíamos que era puramente estratégica política para agradar o eleitorado ─ A ausência do prefeito gerou muitos comentários durante a missa do padre Jonas. Audíveis comentários eu diria, e adivinhe caríssimo amigo, de quem foi o primeiro comentário…
"Você viu quem faltou à missa hoje Apolo, é a primeira vez que isso acontece".
( Nós sempre íamos as missas de domingo, eu e minha esposa, assim como a maioria das famílias de Mor, não gostávamos de faltar às missas.)
"E você acha que eu não percebi Armênia, todos estão comentando, aquele crápula deve estar aprontando só pode, mas isso não é da nossa conta Armênia, preste atenção a missa antes que o padre Jonas chame sua atenção". Atrás de onde estávamos sentados, dois moradores comentavam sobre o mesmo assunto.
"Abner, ô Abner… Onde está o prefeito que até agora não apareceu homem? Será que aconteceu alguma coisa, olha, ele nunca falta nas missas do padre Jonas, deve ter acontecido alguma coisa homem".
"Sê besta Roberto. Até parece, vaso ruim não quebra, é mais fácil o capeta mudar para o polo norte do que acontecer algo de ruim com aquele peste de merda, onde já se viu, agora… Você bem que o conhece, já trabalhou na fazenda daquela víbora, não é mesmo... Lembra".
"Verdade né, ô rapaz, e como trabalhei! Dois anos naquela fazenda, e só por eu ter me esquecido de dar ração a um de seus cavalos prediletos ele me mandou embora, vê se pode o miserável nem o tempo de serviço ele me pagou, e ainda me ameaçou quando fui reclamar, pode isso".
"E você ainda se preocupa com uma peste daquelas, faça-me o favor né Roberto".
Esses comentários que ainda me vagam na memória, surgiam dentro da igreja de todos os cantos, aqui, ali e acolá, a igreja virou em um falatório só, até que, de repente, entrou na igreja à passos largos o policial Josivaldo, 'lembra dele'; que eu tinha designado para ficar de plantão na delegacia... Então, a sua voz ressoou estridente em toda a igreja, àquilo deixou o padre Jonas ainda mais irritado.
"Delegado Apolo… Delegado Apolo… Por favor, delegado Apolo, uma desgraça nos aconteceu".
O infeliz fez isso em plena missa, enquanto me procurava na igreja, eu até baixei a cabeça, estava morto de vergonha com toda aquela cena.
"Meu filho o que significa isso - Vociferava o padre de cima do altar ─ tenha mais respeito com a casa de Deus, onde já se viu, que falta de respeito".
Admoestava-lhe o padre Jonas com certa irritação no tom da voz, a face avermelhada feito pimentão, olhos quase fechados de raiva. E não era para menos.
"Desculpe seu padre - Insistia Josivaldo - me perdoe mesmo sabe, mais o caso é… De extrema importância, acabaram de encontrar o prefeito Diomedes mortinho em sua fazenda".
Quando Josivaldo mencionou essas palavras, 'Mortinho em sua fazenda', Eu dei um salto do banco onde estava sentado, coloquei as mãos na cabeça, não conseguindo acreditar no que estavam ouvindo, a igreja toda virou em um grande alvoroço de vozes e conversas paralelas misturadas a xingamentos e risadas, parecia mais um circo do que uma igreja.
"Quietos todos - Gritava ferozmente o padre Jonas pela segunda vez - isso é assunto para o delegado, silêncio… Por favor, respeitem os umbrais da casa de Deus".
Na mesma hora levantei-me do lugar onde estava, pedi licença ao padre, sai da igreja, peguei o meu carro e fui direto para a fazenda do prefeito, nem passei na delegacia. Minutos depois, quando cheguei no local do crime, um dos empregados da fazenda conduziu-me ao lugar onde estava o corpo de Diomedes. O corpo do prefeito estava estendido no estábulo dos cavalos, há uns duzentos metros da casa principal, os animais estavam por demais agitados, quando eu vi o corpo do prefeito, ou, o que havia sobrado dele, quase desmaiei de tão terrível que foi a cena diante dos meus olhos, os dois cavalos ainda pisoteavam o corpo de Diomedes, os cavalos só pararam de pisa-lo depois de serem mortos por um dos policiais que estavam comigo, coisa estranha, e nunca antes vista.
"Meu Deus, o que aconteceu aqui? Liguem para o legista, rápido. Depois vamos tirá-lo daqui, e, por favor, mandem chamar um veterinário urgente, tem algo de errado com esses animais". Foi o que disse.
"Isso é coisa do satanás delegado".
"Deixa de ser besta rapaz, que conversa é essa, credo, vira essa boca pra lá".
Tanto o policial como eu e o empregado da fazenda ficamos em silêncio, apenas gesticulamos negativamente com a cabeça, semblantes assustados. Um detalhe estranho nos chamou a atenção na cena do crime, na testa do prefeito, ou, melhor, no que havia sobrado dela, estava escrito, 'Hércules', e o número 1 em algarismo romano. Cocei a cabeça sem saber o que dizer sobre aquela inscrição, acendi um cigarro, comecei a caminhar de um lado para o outro, eu estava tenso, muito nervoso por sinal, pois há muitos anos que a cidade de Mor não presenciava um crime tão bárbaro como aquele.
A notícia havia se espalhado por toda a cidade, e apesar dos moradores estarem assustados com a morte do tirano prefeito, outros não esboçaram nenhum tipo de sentimento ou compaixão. Embora soubessem que havia um perigoso assassino a solta, a população não fazia muito caso. Hércules era o nome do assassino, e era só isso que eu sabia dele, solicitei detetives da capital para ajudar-me no mistério assassinato. No caso, um deles você.

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