sábado, 10 de agosto de 2019

Conto 9 ( policial )

AMOR E ÓDIO.





 - William Roco é o seu verdadeiro nome, lembro-me bem dele. Um aluno comum na escola, ele não tinha muitos amigos e gostava estar sempre sozinho na maioria das vezes, mas isso não o fazia muito diferente dos demais alunos do Anacleto de Sá. Suas notas pelo que me lembro eram razoáveis, nenhum outro professor reclamou dele. Eu sempre lecionei educação artística, o William tem um talento nato para o desenho, é sem igual. De baixa estatura, porém, de ótimo físico.
 - Como tudo aconteceu exatamente.
 Perguntou o delegado Claus a professora Ana.
 - Para que o senhor entenda toda história, terei que cortá-la desde o início, ou seja, 'a semana de artes'. Uma exposição de desenhos e esculturas que todo ano realizamos no Anacleto em parceria com as outras escolas da cidade.
 - Certo professora Ana, prossiga com o seu relato, conte-me desde o início.
 - A diretora do Anacleto, Claudete, teve a ideia de fazermos uma exposição mais longa esse ano, com temas diferentes, desenhos e esculturas em argila. A princípio com os alunos de todas as oitavas séries, apenas o aluno William havia ficado de fora, bem que tentamos convencê-lo, foi inútil, até que, apareceu a aluna Azira, tudo então mudou.
 - Quem é essa aluna Azira?
 - Uma aluna nova doutor Claus, fazia poucas semanas que ela tinha chegado no Anacleto, veio transferida de outra escola, do paraná, uma jovem extremamente bonita e muito inteligente.
 - Ela também participaria da semana de artes?
 - Sim delegado Claus, ela veio a mim pedir para participar da semana de artes. Foi nesse dia que o William a viu, e de repente, se interessou pela semana de artes. Ele não desgrudava os olhos da aluna nova, acho que começou a gostar dela, coisas de adolescente doutor.
 - Sim claro, compreendo.
 - Então doutor… Foi fácil de notar, o pobrezinho não tirava os olhos dela, fez desenhos do rosto da moça aos montes, e belíssimos por sinal. Até aí tudo bem, normal, o problema foi quando o antigo namorado da Azira apareceu. Thor, o filho de um vereador lá do Paraná, onde ela morava antes, acho que foi por esse motivo que mudaram para nossa cidade. Ele começou a segui-la desde então. Azira queixou-se com as amigas e elas me contaram tudo.
 - Muito bem… Esse moço, o Thor, ele seguia a aluna Azira com frequência? Você saberia dizer-me se o moço a agrediu alguma vez, ou qualquer coisa dessa natureza?
 -  Agredir eu acredito que não… Se fosse as meninas teriam me contado, mas ameaças sim… Ele fez várias. Disse que se ela não retomasse o namoro se vingaria dela.
 - Como então deu-se a aproximação da aluna Azira e o aluno William?
 - Da seguinte maneira: Durante a aula de educação artística, deixei os alunos um pouco à vontade, alguns conversavam outros faziam desenhos. O aluno William ficou separado do grupo na última cadeira da sala, a aluna Azira aproximou-se dele sem que ele notasse, ele levou um tremendo susto e ela também, foi até engraçado, quando ela percebeu o desenho que ele havia feito, ficou admirada. "Nossa William você desenhou meu rosto direitinho que lindo parece coisa de artista" disse ela encantada. O aluno William ficou muito envergonhado quase não falou naquele dia.
 - E depois disso o que aconteceu?
 - A amizade do dois foi florescendo aos poucos, como uma flor ao desabrochar, pouco a pouco, desenho a desenho, palavra a palavra,  William foi perdendo a timidez até se tornar o grande amigo da Azira. Ela o convenceu de participar da semana de artes que se aproximava, não me restava dúvidas, algo a mais do que amizade começava a nascer entre os dois.
 - Houve uma resposta por meio da garota?
 - Não verbalmente, mas nos olhares sim, afinal, os olhos muitas das vezes dizem mais que as palavras.
 - E quanto ao antigo namorado, houve alguma reclamação dela ou das amigas?
 - Teve uma ocasião apenas, em que presenciei uma discussão dela com outro rapaz na praça próxima da escola, nem passou pela minha cabeça que era o tal rapaz, Thor.
 - Muito obrigado pelo seu depoimento e a sua disposição em cooperar com a polícia professora Ana.
 A professora Ana retirou-se visivelmente emocionada, o delegado Claus pediu para chamar a próxima testemunha, uma das amigas de Azira, uma jovem por nome Katniss. Um pouco assustada com o ambiente da delegacia, ela sentou-se de frente ao delegado Claus.
 - Katniss esse é o seu nome, correto?
 - Sim senhor.
 - Como era o seu relacionamento com a jovem Azira e o jovem William?
 - Eu fui a primeira amiga de Azira desde que ela chegou à escola, já o William nos conhecíamos a muito tempo, mas nunca trocamos mais do que cinco palavra. Azira é inteligente e muito comunicativa, se dá bem com todo mundo, deve ser por isso que o William se apaixonou.
 - O que ela te disse do antigo namorado.
 - Pouca coisa, apenas que ele era muito pegajoso.
 - A jovem Azira demonstrou algum interesse no jovem
    - Mais ou menos, para que o senhor entenda tenho que lhe contar algo. Dias antes da semana de artes, estávamos conversando durante o intervalo, de repente a Azira é surpreendida com uma rosa dada pelo William, uma rosa vermelha linda. Azira não sabia o que fazer, ficou super feliz. Ele entregou a rosa e lhe deu um beijo no rosto, ela ficou toda vermelha, foi bem engraçado delegado, eu jamais imaginava que o William fosse ter coragem de fazer aquilo, sério, foi muito legal.
 -  Ela não disse mais nada para ele
 - Não.
 -  E quanto ao ex-namorado? Pelos meus registros ele a perseguia, você confirma isso?
 -  Sim doutor, aquele antipático a seguiu diversas vezes, alguns dias depois da Azira ter recebido a rosa eu há vi um pouco triste e cabisbaixa, ela me disse que o seu ex-namorado estava na cidade e a viu saindo da escola com a rosa, isso o deixou enfurecido. Teve também outra ocasião em que estávamos na praça conversando, eu e a Azira, foi quando aquele estúpido apareceu, começou ali um desentendimento, uma conversa mais exaltada de ambos, tentei apaziguar, mas aquele estúpido me empurrou jogando-me no chão. Naquele momento o William passava pela praça, quando ele viu a cena correu em nossa direção para ajudar.
 -  O que exatamente ele fez?
 -  Brigaram ali mesmo doutor, mas como o William é mais forte e faz aulas de luta, teve vantagem, e deu uma surra naquele antipático do Thor.
 - O que fez o outro jovem, o Thor, é esse o seu nome correto?
 -  Sim senhor, aquele crápula fugiu. Só uma pergunta doutor… Ele será preso?
 - Baseado no que temos no boletim de ocorrências que você e sua amiga fizeram, mais as ameaças que sua amiga conseguiu gravar, tudo está caminhando para isso, resta apenas mais um depoimento.

 Carlos era o zelador da nossa escola, um senhor simpático sempre disposto a ajudar, e todos lhe devotam um tremendo Respeito. No dia do acontecido, ele teve que sair para resolver algo, os alunos já haviam saído, Carlos teria que ir até a loja de materiais de construção para comprar uma boia nova para a caixa d'água da escola, escolheu um atalho para ganhar tempo, quando ouviu um som estrondoso, e de longe alguém sendo espancado, imediatamente ele chamou a polícia.

 - Por favor, sente-se senhor Carlos.
 - Em que posso ajudá-lo delegado Claus.
 - Conte-me o que o senhor viu naquela quarta-feira a tarde, quando então o senhor foi até a loja de materiais de construção para comprar a boia.
 - Eu tinha que comprar essa boia para caixa d'água da escola, eu estava com pressa, resolvi pegar um atalho, pela rua Amaral Alfredo, ao entrar no início da rua ouvi um barulho alto, como tiro, bem mais a frente há uns cem metros vi dois jovens batendo em outra pessoa, quando eles me viram saíram correndo. Deu pra ver que um deles deixou cair alguma coisa que escorregou para o bueiro.
 -  O que o senhor fez em seguida?
 - Chamei a polícia e o resgate.

 Naquele momento, entrou na sala onde estávamos um policial com uma pasta nas mãos.

 - Delegado Claus… Chegaram os resultados da perícia e da balística… O revólver era mesmo do jovem Thor, coincide com o projétil retirado do jovem William.
 - Obrigado Igael, vou anexar ao caso e emitir o mandado de prisão imediatamente para o jovem Thor, já temos tudo o que precisamos, vou dispensar as demais testemunhas, obrigado Igael.
 - Tudo bem doutor.
 Minha alegria foi imensa ao ouvir aquelas palavras, finalmente, aquele monstro vai para a cadeia. Eu saí rapidamente para o hospital ver o William, ele vai ter alta nesta tarde, e quero ser a primeira a lhe dar as boas novas. A semana de artes acontecerá no final do mês, a diferença é que o William será o homenageado. Seus desenhos serão o tema da exposição, ele vai ficar muito contente quando souber.





Dias depois.




 No hospital da cidade o jovem William recuperava-se bem, depois de quase perder a vida numa traiçoeira emboscada, os médicos removeram o projétil que havia se alojado em seu ombro, milagrosamente os pulmões não foram atingidos, possibilitando ao jovem uma rápida recuperação.
 O jovem dizia estar ansioso em rever Azira, o seu coração  batia em descompasso, Azira havia se transformado no grande amor da sua vida, aquela por quem ele não se importaria em perder a própria vida para protegê-la. Naquele dia, o doutor Marcos, responsável por fazer a cirurgia que retirou o projétil do jovem William foi até o quarto para ver como o seu paciente estava.
 - Olá William! Como se sente hoje? Teve dores ou febre durante a noite?
 - Não doutor Marcos, me sinto muitíssimo bem,  não vejo a hora de sair daqui doutor.
 - Calma rapaz, vamos fazer mais alguns exames e se estiver tudo bem te libero lá pela tarde. 
 - Obrigado Doutor, essa é a melhor notícia do dia.
 O hospital era um lugar angustiante, lugar de dores, lágrimas, morte e vida, de pessoas gemendo moribundas em tantos leitos, algumas acabam por perderem a vida antes de serem atendidas; o hospital é um catalisador de coisas ruins, pelo menos no SUS é assim, já nos particulares não é dessa forma. Mas o William estava muitíssimo bem, havia sido bem atendido, e, a recuperação seria rápida, um verdadeiro milagre. Na verdade o jovem William mentiu para o médico, ele havia sentido muitas dores naquela noite - isso ele mesmo me contou depois - a sua vontade era de sair daquele hospital o mais rápido possível, uma enfermeira avisou-lhe que era dia de visitas, ansioso, ele aguardava Azira. 
 Um toque na porta, ele pensou que fosse o médico que vinha lhe dar alta, para sua surpresa…
 - Pode entrar doutor - Gritou William um pouco ansioso.
 Quando a porta se abriu ele levou um tremendo susto, um quadro com um dos seus desenhos; moldura bonita, bem trabalhada, quem o trazia ocultou o rosto fazendo mistério, mas o perfume era inconfundível, denunciava a beleza de quem trazia o quadro. Azira veio lhe visitar. Como dizia certo personagem de um dos livros de José de Alencar. "Palavra alguma expressa a ternura que reluzia de seus gestos e no seu rosto: por mais esforço que faço, seria sempre pesado e opaco. Tanta naturalidade aliada a um espírito justo, tanta bondade aliada à tamanha firmeza. Uma alma serena e cheia de graça."
 - Olá meu amor, tudo bem, desculpe por não vir antes eu estava na delegacia prestando depoimento, finalmente, aquele crápula vai ser preso. E você… Como está se sentindo?
 - Agora muito melhor, o seu perfume e a sua beleza trouxe vida a este lugar, eu já estava me angustiando aqui... Aquele cara é perigoso Azira, espero que o prendam o quanto antes, se não estaremos em sérios apuros.
 - Não se preocupe William, a polícia garantiu a prisão dele, eles farão isso o mais rápido possível. Onde posso pôr o quadro Will.
 - Coloque-o aqui ao lado, não sei bem se vou ter alta hoje, estou aguardado o resultado dos últimos exames.
 - E quem vem te buscar?
 - Eu terei que ir de táxi, eu acho, meus tios não deram certeza de vir me buscar.
 - Isso não Will, de maneira nenhuma você irá sozinho, eu te acompanho, você quase perde a vida por mim, o mínimo que posso fazer, vamos de uber, está decidido.
 - Obrigado Azira, mas não precisa se incomodar,  seus pais não vão se chatear... Afinal, você me conhece há pouco tempo, eu nem conheço sua família, seus pais não vão se chatear que você me levou para casa sem avisá-los.
 - Não se preocupe, meus pais são legais você vai gostar deles.
 Naquele momento entrou o médico, e por alguns instantes ele trocou algumas informações a respeito do William com a Azira, enquanto o médico e a moça conversavam, William perdia-se nos olhos brilhantes e belos de Azira. Toda a sua alma era atraída pelos seus lábios cheios de vida, o rosto animado absorvendo a sua admiração, a graciosidade em cada frases dita, ele estava perdidamente apaixonado.
 - Boas notícias meu jovem, você está liberado - disse o doutor Marcos - Muito obrigado doutor, eu não via a hora de sair.
 - Saudades da namorada né - Disse o doutor dando-lhe um cutucão.
 William ficou todo ruborizado, Azira esboçou um tímido sorriso.
 - Vamos William eu te levo, troque-se eu estarei te esperando do lado de fora.
 - Tudo bem Azira, eu não demoro.






ENQUANTO ISSO NA DELEGACIA.

 - Bom dia doutor Claus.
 - Bom dia Yigael, como você está hoje?
 - Estou bem doutor. E o caso do jovem Thor… Que reviravolta hein Doutor.
 - Nem me fale, malditos advogados, aquele bandido estava em minhas mãos.
 - Culpa desse sistema cheio de falhas e brechas que permitem aos mais poderosos obterem vantagens. É uma triste realidade de nossa nação.
 - Esse rapaz vai fazer alguma besteira, escuta o que digo, esse canalha vai fazer besteira, aqueles dois correm perigo.
 - E o que faremos então doutor? A juíza o liberou, estamos de mãos atadas agora.
 - Não dessa vez meu jovem, não na minha delegacia, não nesse caso...
 - No que o senhor está pensando?
 - Vá com o Andres até a casa desse rapaz, monte campana sem serem notados, siga-o sem que ele perceba.
 - Eu acho que já entendi o seu plano… Vou chamar o Andress.






ENQUANTO ISSO, NO CARRO DE THOR.

 - Romeu você teve notícias da Azira, seu informante ainda está seguindo-a como lhe pedi?
 - Sim, eu tenho novidades, e o senhor não vai gostar nada do que está acontecendo.
 - Diga-me logo seu idiota.
 - Minha fonte disse que ela acabou de sair do hospital... Junto com ele... E no caro dela.
 - Maldição… Eu vou matar os dois, mantenha-me informado, você está armado?
 - Claro que sim patrão, eu sempre estou.
 - Muito bem, passe sua arma para mim vamos passear um pouco, o dia vai ser longo Romeu.
    
                                          ****




 Azira estava junto com William em seu carro, no meio do caminho ela resolveu passar no shopping da cidade para almoçar, á princípio William foi contra o almoço, porém, foi facilmente convencido por Azira. Os dois nem perceberam que estavam sendo seguidos e que um maléfico plano estava em andamento para lhes tirar a vida no momento em que estivessem no estacionamento do shopping. O ciúmes doentio de Thor o cegou totalmente, seu ódio ultrapassou todos os limites. No momento em que os dois jovens pararam no estacionamento, logo em seguida um caro preto parou ao lado, o vidro do carro abaixou lentamente, quando Azira percebeu quem era, quase desmaiou tamanho o susto, bem diante de seus olhos, com uma arma apontada em sua direção, estava Thor, o rosto do jovem estava desfigurado pelo ódio.
 - Olá meu amor!! Sentiu saudades, por favor desça devagar, e o seu amiguinho também.
 - Thor… Por favor… Não faça nada conosco, por favor eu te imploro.
 - Dessa logo sua vadia - Vociferava ele apontando a arma. 
 A morte parecia certa, o medo tomou conta dos brilhantes olhos da assustada Azira, William desceu logo em seguida sem esboçar uma reação, apenas olhava fixamente nos olhos de Thor.
 - Da primeira vez você escapou, mas agora... Ninguém vai me impedir de te matar seu maldito, olhe bem Azira, veja seu namoradinho morrer, você será a próxima.
 A arma estava apontada para o peito do jovem William, no momento em que o dedo de Thor deslizou para o gatilho, uma voz rouca ecoou por detrás do jovem Thor, assustado ele virou-se, no intuito de efetuar o disparo, mas o treinado e experiente policial foi mais rápido. O barulho ensurdecedor do trinta e oito ecoou por todo o estacionamento. Thor caiu ali mesmo diante dos olhos aterrorizados da jovem Azira. Em questão de minutos inúmeras viaturas estavam no local, o comparsa de Thor foi preso confessando todo o esquema que haviam planejado para matar os dois, o tiro disparado por Thor não acertou o policial. O jovem Thor não resistiu aos ferimentos e morreu ali mesmo.
 O amor que salvou o jovem William foi o mesmo amor de perdição para o jovem Thor, aliás, Azira e William estão namorando agora, os pais dela adoraram o jovem William, na escola não se falava em outra coisa, o tímido rapaz quase sem amigos, transformou-se no mais popular de toda a escola e também o mais cobiçado pelas meninas, é claro que a Azira não gostou nada dessa popularidade de seu novo namorado, ela finalmente estava feliz e vivia seu grande amor.





NOTA. 
( Os fatos narrados aqui são verdadeiros, tomei o cuidado de consultar a todos os envolvidos, e tomar todos os depoimentos, incluindo o do comparsa de Thor. Essa história foi apresentada junto com a exposição do Willian. )

( Autora. Professora de artes. Ana Miranda de Almeida Sampaio. )



sexta-feira, 9 de agosto de 2019

CONTO 8 ( policial ).


A MORTE DO PREFEITO.




 - Quem o mataria? 
 Perguntou o detetive Andres ao examinar o corpo do prefeito estendido no meio da sala de visitas de sua mansão, já em estado de decomposição.
 - O prefeito Ângelo tinha muitos inimigos políticos, isso não é novidade para ninguém na cidade, eu quero acreditar que não seja este o motivo do crime, mas… Pensando melhor, talvez possa ter sim ligação ─ Disse o delegado Claus que estava abaixado próximo ao corpo.
 - Pelo visto teremos muito trabalho pela frente, não é mesmo delegado.
 - Aquelas férias que eu estava programando pelo visto já era né ─ Disse o delegado em um tom de desânimo.
 - Veja pelo lado bom Claus, esse é seu último caso, depois você se aposenta, vai comprar aquele sítio no interior de Minas, com um pequeno lago e virar fazendeiro, imagine, só não se esqueça de me convidar para o churrasquinho e para a pescaria.
 - Alguém já te disse que você fala demais Andres.
 - Sim claro, o senhor, cinco vezes só nesta manhã.
 - Eu mereço…
 Disse o delegado Claus colocando as mãos sobre o rosto.
 Naquele momento chegou a polícia científica, depois de uma breve conversa do delegado com um dos policiais forenses, o delegado e o seu assistente se retiraram do local enquanto a equipe da polícia científica trabalhava. 
 A mansão do prefeito ficava no centro da cidade, lugar de grande movimento. O prefeito era muito popular e muito atencioso com todos, a sua casa era frequentada por muitos conhecidos, amigos, vereadores, e todos os tipos de pessoas. 
 O caso intrigava o experiente delegado, que questionava quem poderia ter cometido o crime com o prefeito. Embora apresentasse um crime por questões políticas, para o delegado havia mais do que isto, não era tão simples assim, o prefeito Ângelo tinha um bom relacionamento com a população, até com os seus adversários políticos, de sorte que seria difícil apontar um suspeito logo de início.
 O prefeito estava há dois anos em seu mandato, a cidade de Rio Claro era pacata, a típica cidade interiorana, sem muitos acontecimentos, mas aquele crime deixou todos atônitos, e essa era a pergunta que todos faziam na cidade, quem matou o prefeito?
  A delegacia da cidade era pequena, havia unicamente duas pequenas celas na delegacia, geralmente para presos que cometeram delitos pequenos, baderneiros e bêbados. A sala do delegado Claus era muito bem arrumada, com cada coisa no seu lugar, ele tinha mania por arrumação, nem uma caneta poderia ficar fora do lugar, já a do seu assistente, era o inverso total, Andres não tinha o menor senso de organização, sua mesa era um pandemônio, tamanha era a desordem, porém, ele era um jovem muitíssimo inteligente e havia ajudado o delegado a solucionar inúmeros casos.   
 O Prefeito Ângelo foi encontrado morto na segunda feira de manhã, ninguém ouviu nenhum barulho, os dois cães que ele tinha não latiram segundo relato dos vizinhos, como a esposa e a filha estava viajando o prefeito encontrava-se sozinho na casa, e foi a empregada que o encontrou no momento em que ela chegou para trabalhar na segunda feira de manhã. Nenhuma pista foi encontrada pela perícia, nem mesmo uma digital diferente, quem o matou com certeza era um profissional, o prefeito morreu com um tiro na nuca, disparado por uma arma de baixo calibre, e possivelmente com silenciador, tudo ainda era um grande mistério que teria que ser solucionado.
 Duas semanas havia se passado e nada tinha sido resolvido, atrás da mesa do delegado Claus havia uma grande lousa branca, onde ele marcava todos os fatos relevantes ao assassinato do prefeito. O detetive Andres tinha ido diversas vezes à casa do prefeito a fim de investigar, na tentativa de achar pistas que levassem ao assassino, porém nada que fosse relevante foi encontrado, a única coisa que foi encontrada foi uma pequena agulha próximo onde estava o corpo, esse era a única pista encontrada pela perícia.

 - O que faremos com uma agulha? Perguntou o delegado Claus segurando o pequeno objeto.
 - Não sei, mas, que há algo de estranho nisso tudo há, como é possível nenhum dos vizinhos não ouvir nada, com certeza o assassino era aquém bem conhecido, para que o prefeito o deixasse entrar em sua casa. No caso da nossa pista, ela pode muito bem ser da empregada, de repente, ela deixou cair, sei lá.
 - É isso mesmo que vou fazer ─ disse o delegado com uma das mãos no queixo.
 - Isso o que? Perguntou o detetive.
 - Vamos chamar todos para depor, primeiro a empregada, Valdirene, é esse mesmo nome dela? Depois os seus seguranças, são quatro no total, e por fim o motorista, depois falaremos com os vizinhos; emita um mandato para que eles se apresentem, faça isso o mais rápido possível, quero terminar esse caso o quanto antes.
 - É doutor; pelo visto a delegacia vai ficar bem movimentada essa semana, antes que eu me esqueça, o vice-prefeito pediu urgência nas investigações, e também um policial de escolta.
 - Quando o vice-prefeito te procurou? Perguntou o delegado.
 - Na tarde de ontem, o senhor havia saído.
 - Sim, claro ─ Respondeu o delegado ─ tudo bem então, vamos cuidar das investigações, quando tudo estiver pronto me avise.
 - Sim senhor, como quiser.
 Os mandatos para os depoimentos foram emitidos, os depoimentos aconteceriam na quinta feira de manhã, todos teriam de estarem presentes, às nove horas em ponto. A esposa do prefeito depois do enterro do marido viajou para casa de um dos parentes, temendo que lhe acontecesse algo. O resultado da perícia ficaria pronto na manhã seguinte, o delegado Claus era o tipo de pessoa que não gostava de ficar esperando, a sua impaciência o fazia fumar compulsivamente, era a forma que ele encontrava para aliviar o estresse.




RESULTADO DA PERÍCIA.




 Eram nove horas da manhã quando o resultado da perícia chegou à mesa do delegado Claus, ele examinou atentamente todas as folhas, depois de alguns minutos, com uma das mãos no queixo e o olhar vago rumo a janela da delegacia que dava para a rua, assim ficou por alguns minutos, como se estivesse desligado, de repente, levantou-se de súbito, e chamou seu assistente que estava na outra sala:   
 - Andres… Você está ocupado, por favor, venha até aqui, preciso falar com você urgentemente.
 - Já estou indo senhor, só um minuto, já estou indo… Pronto, aqui estou.
 - Daqui a pouco as testemunhas vão chegar para depor, por favor, dispense o motorista e os seguranças, deixe apenas a empregada, tudo bem.
 - Tá bom, posso saber o motivo para podermos dispensá-los? ─ Perguntou o detetive curioso.
 - É só um palpite, uma suspeita na verdade, eu nunca erro em minhas suspeitas Andres.
 - O senhor está achando que foi a empregada delegado, pelo que sei ela trabalha para eles a anos, não acredito que seja ela.
 - Em momento nenhum eu disse que era ela, você me ouviu dizer isso.
 - Não senhor.
 - Então pronto, deixe de ser especulador, um bom detetive não pode ser afobado, você é afobado demais.
 - Eu… Afobado… Sei…
 Naquele momento chegava a delegacia as testemunhas, como o delegado havia pedido ele liberou as demais e ficou apenas a empregada Valdirene, após as demais testemunhas deixarem o lugar a empregada adentrou a sala do delegado, Andres ficou do lado de fora esperando, impaciente, andando de um lado para o outro, ora sentava-se, ora levantava-se, já fazia meia hora e nada do delegado sair da sala, Andres estava aponto de abrir a porta da sala do delegado, quando de repente, a porta se abre, a empregada com os olhos vermelhos, as mãos algemadas, na face do delegado um sorriso de satisfação. Andres não entendeu nada, caiu sentado em sua cadeira, o delegado então falou:
 - Coloque-a sobre custódia, caso encerrado, ela vai ficar presa até o julgamento no tribunal, réu confesso.
 O detetive arregalou os olhos, em silêncio levou a empregada para a cela que ficava nos fundos da delegacia, mais do que depressa, retornou para especular o delegado sobre como ele chegou a conclusão tão rápido.
 - Já sei o que você quer Andres ─ Disse o delegado ─ senta aí que eu te conto tudo.
 - Por favor doutor, agora fiquei mesmo curioso.
 - Em primeiro lugar; a esposa do prefeito estava fora, e a morte dele foi confirmada pelos peritos, que ocorreu no sábado, à noite provavelmente, a bala foi disparada pela arma do próprio prefeito, por alguém que era canhoto, a perícia encontrou a arma enterrada no jardim, não havia digitais, a empregada lavou a arma. Em segundo lugar, ela no dia em que chegamos assinou os papéis que lhe dei com a mão esquerda, ela estava nervosa e trêmula, olhava para o jardim o tempo todo. Em terceiro lugar, o corpo do prefeito foi removido do lugar, havia um sinal de costura nas calças dele, provavelmente sua roupa rasgou no momento em que foi arrastado, um fragmento de barbante encontrado naquela agulha é compatível com a que está na calça, de tão nervosa que ela ficou que deixou cair à agulha.
 - E porque motivo dela tê-lo matado?
 - Os dois eram amantes, ela ameaçou contar tudo para a esposa dele, ele ameaçou a família dela, foi quando ela decidiu matá-lo antes que ele fizesse algo. Ela confessou tudo.
 - Muito bem doutor, mais um caso resolvido.
 - Sim meu caro, e agora, a minha tão merecidas férias, a partir da próxima semana, você, senhor Andres, assume a delegacia como o novo delegado.
 Andres sorriu sem entender, alegrou-se com a notícia, embora em seu coração, ele não sabia se realmente estava pronto para aquela nova etapa na sua vida.
 O telefone toca.
 O delegado Claus atende.
 - Alô, delegacia de polícia, delegado Claus, em que posso ajudar? Sim, como? Tá, calma, tudo bem, já estamos a caminho.
 - O quê foi agora?
 Pergunta Andres.
 - Maldição - resmunga Claus - lá se foi a aposentadoria, acharam um corpo na praça, em frente a matriz, é do pároco. Vamos Andres, pegue suas coisas, mais um caso… mais um dia…



quarta-feira, 31 de julho de 2019

CONTO 6.


             O CANTO DA CIGARRA.

    "O que vejo, se não o canto da cigarra, esquecida em um galho de árvore, a cigarra canta desvairada em minha janela. Feliz é a cigarra que canta até morrer, seja de dor ou de tristeza; ela apenas canta, e como ela vou cantar também".

 - Fique a vontade para começar a falar senhor Fernandes, estarei gravando tudo.
 - Tudo bem... Eu digo… Assoma-se sobre a minha cabeça um universo de incontáveis espectros fantasmagóricos imaginários. Oriundos de mundos irreais, na penumbra da noite, buscando afugentar o meu precioso pensamento. Mas o que eu sou se não relés aventureiro de águas rasas. Certo é, que de nada adiantará fazer alguma coisa a respeito, sou, aos olhos de todos um fantasma do além. Minha passagem é, no entanto, indiferente, não serei percebido por ninguém, não serei querido de ninguém, devem portanto, considerar-me um caso perdido. Mas... O que é um poeta sem as suas palavras? O que é a poesia sem a sua musa? Há muito venho tentando descrevê-la, revelando de modo oculto a sua terna face entre os versos de meus poemas errantes, não houve ainda quem os percebesse. Talvez ela seja como o luar em noite de tempestade, embora brilhante e suntuoso, o luar fica temporariamente escondido, até  surgir em momento oportuno de sua repentina aparição. Eu, neste meio confuso e enigmático, sou apenas uma sombra esguia, parada de frente a um velho riacho, sentado embaixo de uma frondosa árvore, observando o curso tranquilo das águas. Não que eu realmente esteja diante desse riacho, assim o imagino, como o disse anteriormente, tenho senão à minha frente rude e cruel grades de aço, de uma prisão suja e solitária, esquecida no meio do nada, que me separa do resto da sociedade. A minha história é triste, confusa, amor e ódio, desejos ocultos, paixão desmedida. Todos estes sentimentos perambulam ainda em meu coração, não sei o que eu sou de verdade, o que sei, a única coisa que sei, é que devoto um grandioso amor dentro do peito. As grades me impedem da liberdade física, me impede de caminhar livremente, não podem impedir, entretanto, os meus pensamentos, a minha inspiração. Quero portanto, dizer-lhes alguns pormenores do que ocorreu-me. Imagino que o senhor esteja sedento em saber o motivo que me trouxe a essa carceragem. E vou lhe contar, prometo, pela primeira vez em anos, eu vou lhe contar. A verdade desses fatos nunca foram ditas por mim em nenhum momento desde que fui julgado e preso, mantive-me em completo silêncio até o dia de hoje, até o momento de me reencontrar com as palavras novamente. Meu objetivo é simples, apenas o alívio da minha consciência, quero aliviar o peso que oprime os meus pensamentos, que esmagam o meu coração. Vou tentar na medida do possível, não me alongar muito em descrições desnecessárias, como disse, vou tentar, se vou conseguir eu não sei, minha alma de poeta é inclinada a tal, prometo conter-me e ater-me aos fatos relevantes que me ocorreram naqueles dias, e, que me trouxeram a este lugar, obrigando-me a um trágico fim sem volta.
 Corria o ano de noventa e nove, se não falha a memória, estávamos no mês de novembro, e desde o primeiro dia daquele mês ao penúltimo dia, eu estava por demais atarefado em um compromisso grandioso, aproximava-se a data de lançamento do meu último livro, cujo título era: "Dias de intenso amor" Eu estava aflito, não via a hora de chegar a data do lançamento, que seria no dia vinte e nove daquele mês. Como poeta, sempre cultivei uma profunda admiração pela beleza, não importa a forma como ela se apresentava a mim, sobre isso não resta dúvidas - devotado à beleza, a ela tenho por religião da minha alma, sendo assim, podes imaginar que meus versos e minha prosa falam exclusivamente do amor e da beleza, em principal a beleza única que somente as mulheres possuem. Entretanto, diferente do que muitos imaginam, eu não sou do tipo mulherengo, nada disso, embora profundo admirador da beleza das mulheres, a que deteve o meu coração antes mesmos dessas grades de aço, é uma única, um anjo ledo, que me aprisionou em seu olhar desde minha mocidade. Adianto-lhe, eu não sou o responsável pelo crime que resultou na morte desta que é, nada menos que a Afrodite personificada, confesso sim, o meu amor demasiadamente desmedido por ela, mas tenho portanto, que sou inocente. Eu apenas estava no local errado, na hora errada, e no afã de tentar salvar a vida da minha amada, terminei por transformar-me no principal acusado do seu crime. Um dia antes do lançamento do meu livro, eu fui a casa da bela Afrodite, por coincidência era mesmo esse o nome dela, maravilhosa coincidência. Na ocasião, uma tarde quente de sexta-feira. A casa da bela moça ficava a dez minutos da minha, em um bairro afastado, quase na saída da nossa cidade. Ao chegar, eu notei que o pequeno portão de madeira da sua casa estava aberto, não somente aberto, mas ligeiramente caído para um dos lados, como se alguém o tivesse forçado; embora estranho, entrei mesmo assim; notei também que a porta da sala da sua casa estava semi-aberta, chamei por Afrodite, uma, duas, três, quatro vezes, ela não atendeu. Resolvi entrar para ver o que havia acontecido, na sala de visitas não havia nada de anormal, tudo estava em seu devido lugar, passei por um estreito corredor que dava acesso a cozinha da casa, quando me aproximei, ouvi um gemido agudo, quase inaudível, vindo do outro lado da mureta que separava a cozinha de uma sala de jantar, foi quando deparei-me com a terrível cena a minha frente. A minha amada Afrodite estava caída, com uma faca cravada no peito, o seu sangue espalhado para todos os lados, a faca que havia sido cravada sobre o peito, pulsava a medida das fracas batidas do coração da minha amada. Meu erro, o meu terrível e imperdoável erro, que levou-me a carregar uma culpa que não é minha, foi tentar ajudá-la, uma sucessão de erros cometidos por mim, na falha tentativa de salvar sua frágil vida, acabou por deixar-me todo sujo de sangue, e quando os policiais chegaram na residência, minutos depois da minha chegada, viu-me debruçado sobre o corpo dela, a faca em uma das minhas mãos, eu havia acabado de retirá-la do peito da jovem, do resto não preciso dizer nada, é como fala o adágio popular, "a primeira impressão é a que fica", é a primeira impressão dos policiais a meu respeito foi óbvia; eles haviam pego o assassino no ato do crime. Tentei argumentar, foi em vão cada palavra que disse, o verdadeiro assassino não havia deixado digitais, já as minhas, estavam em vários lugares. A dedução final dos policiais foi de que eu era o responsável pela morte da bela jovem. Noiva de um político importante da cidade, candidato a prefeito. Afrodite estava com um dos meus textos no momento da sua morte, "O canto da cigarra" eu havia presenteado Afrodite uma semana antes com esse texto, ela enamorou-se com o que eu havia escrito, e por ironia do destino, a moça morreu com o meu texto em uma das mãos. A dedução da polícia, induzida pela pressão do noivo na ânsia de achar um culpado, pairavam sobre este poeta desgraçado e descuidado. Essa é a minha versão, a verdadeira versão dos fatos ocorridos naquele dia. Eu não sou o que dizem de mim, eu não a matei por ciúmes, não… Eu sou inocente… por muito evitei do ocorrido, como também evitei a publicação do texto que minha amada lia na hora da sua morte, por insistência deste coração apaixonado que ainda dói, eu tenho por obrigação que terminar essa narrativa inacabada, "o canto da cigarra", que neste momento, é o meu canto, o canto de um amor que transformou-se em dor. Por ironia do destino, vez ou outra, uma cigarra vem pousar na pequena janela da minha cela, e começa a cantar, ela canta sem parar, até morrer, tantas foram que já morreram nesta janela, de tanto ouvi-lás, de vê-las morrer, tomei a coragem de quebrar o silêncio e lhes contar tudo, depois de tanto tempo, de uma fortíssima crise de depressão, os verdadeiros fatos daquele dia… Foram esses doutor Eugénio.
 - Muito bem senhor Fernandes, obrigado, eu consegui algumas provas do verdadeiro assassino, e diante das novas evidências, um novo julgamento foi marcado, será daqui a uma semana. Tenho convicção que conseguiremos… Dessa vez… O canto da cigarra não será de morte, mas de liberdade.

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

           As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino.      Nos recônditos ...