domingo, 15 de setembro de 2019

Conto. ( amor )

A ÚLTIMA CURVA NA ESTRADA.

    

 Era uma tarde qualquer de um novembro sem memória. Ele ainda não era seminarista e nem pensava em ser. Foi naquele dia em que tudo começou, sem que ele soubesse é claro, apenas o seu coração conhecia, ou, pelo menos escondeu dele mesmo o que sentia. 
 O coração está sempre à enganar.
 Apenas o chamem de Arthur, esse não é o seu verdadeiro nome, entretanto, dadas à certa circunstância, será melhor o conhecerem por este nome. 
 Verão de oitenta e cinco, Lagoa Santa, Minas Gerais.
Segue à história.

( Eduardo Molina )






( Relato do pai ).

 Meu filho sempre fui um garoto bagunceiro, desde menino sempre gostou de aprontar às suas peraltices, embora, mesmo na companhia da mãe quase todos os dias, ainda sim continuava a aprontar das suas. 
 O meu nome é Jucelino Costa Silva. Advogado aposentado. Essa é uma história que eu não queria contar…
 Os amigos do meu filho eram muitos naquela época, havia o Lucas, o Rogério, o Aguinaldo, o Fernandinho e o Joca. Foram bons tempos aqueles, tenho tanta saudades daqueles dias de inocência.  Chega a doer no meu peito. As professoras ficavam malucas com o comportamento do Arthur, ele não estava nem aí, gostava era de ver a farra acontecer, a bagunça generalizada. Infelizmente o tempo passou - tudo passa aliás - e cada um seguiu o seu destino, foi exatamente neste período que Arthur a conheceu, o nome dela… Cecília, sua prima, a filha do meu irmão Marcos, no começo brigavam bastante. Também não era para menos, Cecília era chata tagarela e muito magrela, parecia mais a Olívia palito do desenho animado. Engraçado que o apelido acabou ficando, Arthur quem o colocou, ela queria morrer quando ele a chamava assim. 
 A cidade de Lagoa Santa é de uma beleza deslumbrante, arborizada, com lindas praças, árvores frondosas e pássaros belíssimos das mais diversas espécies. Na cidade conserva-se até aos tempos de hoje um festival de teatro que as escolas fazem nas praças. Naquele ano em questão, o teatro aconteceria na praça perto da matriz, e para o  desgosto e desespero do Arthur, ele teria que participar para recuperar as notas baixas em português. Vejam só que lástima do destino. Vocês compreenderão o motivo que digo isso; a peça que seria encenada era de Shakespeare ( Romeu e Julieta ).
 Tudo bem até aí… O problema é que o papel de Romeu caberia ao Arthur, enquanto Cecília, ou, Olivia palito como queiram, faria o papel de Julieta. Ele fez de um tudo para escapar da tal peça, não teve jeito;  teve que encarar o desafio, e o pior de tudo, ( beijar), a Cecília em praça pública. 
 Depois daquele dia Arthur ficou uma semana sem sair de casa tamanha a sua vergonha. O tempo voou nas asas do falcão, Cecília foi embora para o estado de São Paulo, enquanto Arthur ficou em lagoa santa, terminou o colegial sem saber o que seria ou qual profissão seguiria. Em certo domingo, quando foi a missa conosco - e olha que fazia tempo que eu não íamos -, fomos à principal igreja de Lagoa Santa, que por sinal é muito bonita. Lá estavam um grupo de seminaristas Agostinianos, cantaram lindamente os seus cantos, ele se apaixonou instantaneamente pela música, pela forma como eles se vestiam, enfim, não sei explicar o motivo do encantamento. Arthur decidiu naquele instante que seria um monge agostiniano, quase infartei quando ele disse, logo o Arthur, tão bagunceiro, imaginar que de repente iria se tornar um padre. Era o que ele queria naquele momento. Toda a família foi comunicada da sua 'decisão', quase todos não o levou a sério. Riram, fizeram piadas, achavam que era mais uma brincadeira, porém, era sério. Ele estava decidido a fazer a coisa certa e foi em frente. Dois meses depois entre procuras e contatos estava finalmente fazendo as malas para ir para o monastério que ficava relativamente perto de Lagoa Santa.
 Domingo foi o dia em que Arthur foi para o seminário, fizemos aquele almoço de despedida, ele estava tenso, falava pouco, meio que tentando incorporar o ar de um seminarista. Um dos monges veio buscá-lo, almoçou conosco, Eduardo Molina era o seu nome, muito centrado, com respostas precisas a todas as perguntas que foram feitas, terminado o almoço nos despedimos e o meu Arthur foi embora.




             *****





 Arthur estava aflito, não via a hora de chegar ao monastério, durante o trajeto conversamos pouco. 
 Uma hora depois chegamos ao nosso monastério, que ficava próximo de uma bonita fazenda, o lugar é enorme, exuberante, todo o complexo do monastério é construído de tijolinhos frisados, belíssima arquitetura, Arthur ficou boquiaberto com tamanha beleza, bem como o tamanho também, entramos portão adentro, um dos monges veio nos receber.
 - Olá! Tudo bem? O meu nome é Frederico, seja bem vindo a nosso mosteiro, você é o novo vocacionado, grandes surpresas o aguardam meu jovem.
 - Olá - Respondeu Arthur ainda tímido - O meu nome é Arthur, fico feliz por conhecê-los.
 - Venha comigo Arthur, eu vou lhe mostrar o seu quarto e o restante do monastério, temos muitas coisas para fazer.
 - Tudo bem, vamos então.
 Arthur pegou suas malas e seguimos até onde eram os quartos. 
"O local parece um castelo medieval, de um silêncio admirável, a sensação de paz é maravilhosa, e ainda pode se ouvir bem ao fundo o som suave, quase inaudível dos cantos gregorianos". Dizia ele encantado. 
 A rotina do nosso mosteiro é bem rígida, começa cedo, às cinco horas da manhã. Após despertamos, uma das primeiras coisas a fazer é tirar a barba, temos que fazê-la todos os dias, depois vestíamos nossa indumentária que era uma túnica preta, capa curta e capuz. Nossa ordem deriva de Santo Agostinho, seguimos um código de regras elaborado por ele, não somos eremitas, ou frades como muitos chamam, estes, por sua vez, foram instituídos pelo papa Alexandre IV em 1256. Os votos não são obrigatórios, mas a posse de propriedades é proibida, por isso não podemos ter nenhum bem pessoal. Vivemos para o estudo, caridade, ajudar na educação da igreja e comunidades. 
 O nosso café matinal acontece após à missa, aqui mesmo dentro do seminário, saímos da oração diretamente para o refeitório, tudo isso feito em ordem e silêncio total, após o café é que trocamos as primeiras palavras.
 No começo Arthur estranhou todo rigor, demorou a se acostumar com a clausura. Ele teve dificuldades. Aos poucos, e com a ajuda do "irmão" Frederico, Arthur foi se habituando ao silêncio. Era assim que nós chamávamos no monastério, de "irmãos". As primeiras visitas aconteceram três meses depois de sua chegada, eram sempre no horário da nossa missa matutina, tínhamos missa todos os dias e a fazíamos em latim, só nos domingos que não, porque geralmente tínhamos visitantes. Nas visitas do Arthur vinham sempre o pai, a mãe, e uma prima. 
 Eu incluí na nossa rotina semanal de estudos, um dia de folga, onde geralmente saiamos em passeios com os outros monges. Sempre havia um superior acompanhando nos passeios para evitar contratempos e coisas desagradáveis. Não que os monges sejam tendenciosos a desvios, mas, precauções eram necessárias, sem dizer que era uma exigência do reitor do monastério inscrito nas cláusulas internas. 
Uma das manias do Arthur era anotar tudo o que fazia em um diário. O texto que segue eu extrai de seus diários. O que encontrei nesses escritos me fez compreender parte de tudo o que aconteceu.





( Diário de Arthur ).

1. 
Conheci muitos lugares bonitos, cidades belíssimas, comunidades religiosas diferentes, tais como os franciscanos, Beneditinos, diocesanos e tantas outras ordens. Tudo está indo muitíssimo bem, me habituei às tarefas e rotinas. Meus pais sempre vêm me visitar, somente eles me visitavam. De alguns dias para cá tudo começou a mudar, coisas que eu nunca pensei que um monge pudesse sentir me ocorreram.

2.
Tarde agradável de novembro, domingo de calor, eu fui um dos escolhidos para cantar um dos salmos da Bíblia em latim, o salmo escolhido era o vinte e três, aquela missa havia muitos convidados, todos parentes dos monges, alguns vieram de bem longe, a missa havia começado, tudo foi planejado, chegou a minha vez de cantar o salmo, eu ainda não havia visto nenhum parente meu, nem o papai, nem a mamãe, ou qualquer outro. Certamente não tinham chegado, abaixei a cabeça e comecei a salmodiar.
( Quod Dominus pascit me et nihil mihi deerit, Effunde me in montem, ad eum, et super flumina praeparavit, Ascendant in montem domini, deduxit me super semitas iustitiae propter nomen suum, Et si ambulavero in medio umbrae mortis, nom timebo mala, virga tua et baculus tuus ipsa consolabuntur me, Hic accipiet benedictionem a domino et coram inimicis inpinguasti in óleo caput meum et cálix meus redundat, Sed et benignitas et misericórdia subsequetur me omnibus diebus vitae meae et habitabo in domo domini in longitudinemdinem dierum ). 
Levantei a cabeça lentamente… Lá estavam eles, os meus pais, bem na minha frente, mas dessa vez tinha uma terceira pessoa que eu não reconheci ser parente ou não. A acompanhante era uma moça linda como eu nunca tinha visto antes, mesmo no seminário eu já havia visto muitas mulheres bonitas que visitavam seus parentes, mas, belíssima como aquela, jamais. 
'Algo de errado está acontecendo comigo', fiquei pasmo e boquiaberto. O Frederico que estava atrás de mim teve que me cutucar para que eu me concentrar novamente - fiquei perturbado - me sentindo um monstro, ou, qualquer coisa assim, pois em meu coração deixei que o pecado carnal o tomasse, seria essas as flechas inflamadas do maligno: Logo eu, um monge, dedicado à vida eclesiástica, não era possível que satanás zombasse assim tão facilmente de mim.
Terminada a missa cada monge se dirigiu a sua família, eu fui para a minha, as pernas estavam trêmulas, realmente eu não entendia como um ser feminino podia em questão de segundos desestruturar tanto assim outra pessoa com apenas um olhar. Só podia ser coisa do demônio, não tem outra explicação. Foi mesmo assim, jovem, inexperiente, que nunca havia experimentado as doçuras da carne, era de se imaginar tal reação, eu não estava preparado para aquilo.
- Olá meu filho! Que saudades de você - disse minha mãe depois de um abraço apertado - eu e o seu pai nos emocionamos ao vê-lo cantar em latim; que coisa mais linda meu filho, chorei feito criança, estamos orgulhosos de você.
 - Olá mamãe… Olá papai… Estou feliz em revê-los.
 - Meu Deus… Perdoe-me filho, por minha falta de educação, lembra-se da Cecília? A sua prima, filha do tio Marcos, ela está morando conosco agora, esqueci-me de apresentá-la a você. Ela está linda não é mesmo.

3.    
Aquele lindo ser feminino que horas antes enfeitiçou-me, era então a Cecília, meu Deus… Meus olhos custaram em crer no que via, mantive a postura, respondendo sem esboçar qualquer coisa.
- Olá Cecília, mil perdões por não reconhecê-la, já faz tanto tempo que não nos vemos. Tudo bem com você?
 Minhas mãos estavam trêmulas, suadas, e o coração parecia que ia sair pela boca, as pernas continuavam moles, minha sorte é a túnica que não deixava transparecer o tremor nas pernas.
 - Olá Arthur! Tudo bem sim, embora você tenha se esquecido de mim, eu nunca me esqueci de você viu. E aliás, você está um gato, se admirar um padre for pecado, me perdoe por antecipação.

4.
Aquilo só poderia ser coisa do demônio para me desviar do meu caminho. 
Mas confesso que ela não é aquela Olívia palito de outrora, Cecília se transformou na tentação em forma humana. 
Para disfarçar o meu nervosismo chamei-os para um passeio pelo monastério, assim o tempo passaria mais rápido e meu suplício terminaria logo. 
Caminhamos por quase vinte minutos, enquanto meus pais falavam de seus planos e tantos outros assuntos supérfluos, Cecilia apenas me olhava, os seus olhos são verdes, sua face irradia luz e os lábios carnudos de um vermelho natural intenso, todo esse conjunto de perfeição me deixa louco. As vezes tenho vontade de sair correndo, e a horas não passavam quando estou com eles. 
Finalmente chegou a hora da despedida, beijinhos de mamãe e papai, um adeus, mas ela, sim… Ela tinha que me beijar no rosto, colocou as suas delicadas mãos incandescentes sobre os meus ombros e me beijou no rosto, parecia que minhas roupas estavam queimando, fiquei mais vermelho que os lábios dela, mamãe bem que percebeu minha aflição, mas não disse nada, sorriu e deu de ombros.

5.
Tarde do domingo. 
Após a missa nos reunimos em um salão enorme, e ali ficávamos conversando até a noite chegar, é como uma tarde de folga, mas nesse domingo eu fui correndo para o meu quarto, inventei uma desculpa qualquer para o meu amigo Frederico não desconfiar, me tranquei no quarto, tudo o que eu desejo é esquecer a imagem da Cecília. 
Me apavorava a ideia dela voltando novamente com os meus pais, eu estou em sérios apuros e não sei como resolver a situação.

6.
É a primeira noite após a missa do domingo, não consigo dormir, minha cabeça está confusa e muito bagunçada. 
Os quartos no monastério são individuais, mas o quarto do meu amigo Frederico era ao lado do meu, pensei em ir até o quarto dele para conversar, tive medo, afinal, o que ele poderia pensar a meu respeito, 'imaginem', um monge com desejos carnais por uma mulher, isso é inconcebível por aqui. 
Por três vezes me levantei da cama ensaiei ir ao quarto do Frederico, voltei e deitei novamente, repeti isso por várias vezes. Demorou até que eu o sono veio, e quando finalmente consegui… 

7.
Tive um sonho com a Cecília, é para enlouquecer qualquer um.
Eu tenho que manter a calma e o controle para que ninguém perceba minha aflição.

8.
Mantenho a postura de santidade, embora eu ainda não tenha feito nada, me sento como se houvesse cometido o pior dos pecados. 
Não sei o motivo de tanta inquietação, meu Deus… É só uma moça, 'uma moça', a Cecília magrela de outros tempos, mas o coração não consegue enxergar assim. 
Nossa rotina de estudos é puxada, estudamos a história dos santos, da igreja ao longo do século, introdução à filosofia, fora o grego e o latim, humanidades, Mariologia, a história dos papas, entre outras disciplinas. 

9.
Eu sempre tive facilidade com os estudos, nunca fiquei, como posso dizer… Empacado em alguma matéria, no seminário não é diferente, meu desempenho é bom, porém, agora tudo começou a desandar, literalmente desabar. 
Eu não consigo me concentrar em nada, estou totalmente perdido nos estudos e nos meus afazeres, alguns monges perceberam minha inquietação, pensam até que eu estou doente. 
O Frederico pensou isso também, e de certa forma alimentei a ideia, é favorável, eu nunca que vou dizer a ninguém o que a Cecília está causando em mim, mesmo porque ocultei de todos o que estou sentindo. 

10.    
Semana longa…
Essa semana parece que nunca vai passar, o tempo se arrasta, e dentro de mim, inconscientemente eu não vejo a hora de chegar o
domingo para vê-la novamente, mas outra parte de mim recusava tal sentimento, flagelava no tronco das aflições da alma. Eu não sei mais o que fazer.

11.
Finalmente sábado…
É sábado de manhã, meu superior, 'Monge Roberto' me chamou para uma conversa em particular, fiquei aterrorizado, conjecturando mil pensamentos: "Será que ele percebeu, será que alguém notou e lhe contou". Eram tantas os questionamentos que se passava na minha cabeça. O Irmão Roberto aproximou-se de mim e convidou-me a passear pelo jardim enquanto conversávamos.
- Irmão Arthur… Preciso lhe comunicar algo muito importante, temos notado o seu progresso desde o  primeiro dia, você parece gostar do monastério, se dedica, é aplicado.
- Eu tento fazer o melhor irmão, me habituei bem às rotinas, estou muito satisfeito -Respondi com certo receio.
- No último domingo, na missa, foi sua primeira vez cantando o salmo em latim, e para falar a verdade há muito tempo não ouvíamos uma canção assim tão… Harmoniosa, nosso reitor pediu que você cantasse em todas as missas de domingo, pediu para te perguntar se haveria algum problema nisso, sempre revezamos, mas ele gostou de ouvi-lo.
- Nenhum problema irmão, imagine, agradeça o reitor por mim, eu ficarei imensamente feliz em servir a igreja do senhor com minha humilde voz.
- Que bom irmão… Que bom… E aliás, você melhorou do seu mal estar? Disseram que você não estava bem essa semana.
- Já estou melhor, não tem com os senhores se preocuparem.
O irmão Roberto retirou-se pelo lado oposto, a passos lentos, sempre calmo. Que susto passei, imaginei que ele soubesse de alguma coisa, agora a situação começou a piorar, vou ficar bem de frente de todos no domingo, 'em todos os domingos', se ela for à missa não sei o que será da minha alma atormentada, que Deus me ajude, meus olhos estão contemplando a pior das tentações, ' a beleza feminina.
    
12.                                       Chegou o domingo… 
Estou tenso, dormi mal, a missa começa às sete horas da manhã… 
Não demorou e o Frederico veio me chamar, eu já havia preparado o salmo, estava tudo pronto. 
Após nos reunimos no corredor dos quartos, nos dirigimos para a igreja, ainda não havia chegado ninguém...
Aos poucos cada monge foi se ajeitando no seu posto, os músicos, o coral com o canto gregoriano, eu com os salmos, os participantes da missa começavam a chegar um a um, eu estava tenso, suava frio, e a todo o instante olhando para a porta. De repente vi o papai entrar primeiro seguido da mamãe e por último a Cecília. Confesso que quase caí de costas quando a vi, ela estava ainda mais bonita do que no domingo anterior... 
A missa foi iniciada, meu tormento aumentado gradativamente, foi difícil entoar o salmo, os meus superiores todos estavam presentes. Ao terminar a missa, como de costume, os familiares foram conversar com os seus filhos, e lá vinha à mamãe com a Cecília, "meu Deus vai  começar tudo novamente", era esse meu pensamento.
- Meu filho querido, você cantou lindamente hoje, parabéns, de um abraço aqui na sua mãe, te amo meu querido, que saudades de você meu amor.
Tive que abraçar a Cecília também, dessa vez ela não disse nada apenas sorriu, me deu um abraço tão apertado que senti o bico de seus seios roçarem no meu corpo, aquilo era para enlouquecer, naquela altura eu já comecei a questionar minha vocação sacerdotal.
- E os estudos meu filho, como estão indo? Perguntou o papai.
- Está indo bem meu pai, não tenho dificuldade com eles.
Adiantamo-nos um pouco da mamãe e da Cecília, meu pai aproveitou para cochichar em meus ouvidos, 
- Eu sei qual é sua verdadeira dificuldade.
- Como assim papai? - Perguntei - Não compreendo o senhor.
- Não se faça de desentendido rapaz, eu vi como você reagiu na presença da Cecília, seu pai é velho mas não é bobo, além do que, não é a toa que ela está vindo conosco, ela gosta de você meu filho, sempre gostou, e isso já faz um tempo. Ninguém me disse, acabei descobrindo por acaso, pense bem meu filho, se é isso mesmo que você quer… Eu sei que no próximo mês inicia seus estudos de Filosofia e eles serão na Espanha, pense bem, ainda dá tempo de desistir, você sabe que eu nunca fui a favor de você vir para este lugar, pense bem.
A mamãe aproximou-se naquele momento, a Cecilia apenas me olhava, se antes eu já estava confuso, agora ainda mais, depois de saber que a Cecília me amava. 
Se o que o meu pai disse é verdade, eu tenho menos de um mês para me decidir se continuo ou não. Caminhamos um pouco mais, chegou a hora de irem embora, despedi da mamãe do papai e por último da Cecília, parecia coisa combinada, ela me abraçou do mesmo jeito que no início, e pronunciou as seguintes palavras no meu ouvido.
- Nunca esqueci aquele beijo, vou estar te esperando, pense bem.
Deu-me um beijo no rosto e saiu. Agora sim, eu estou em apuros, minha fé e vocação são colocados a prova, e eu tenho poucas semanas para decidir... 
Fui direto para o meu quarto sem falar com ninguém, aquelas palavras mexeram comigo, era hora de tomar uma decisão.

13.
Os dias estão passando rapidamente, minha aflição aumentou ao passo que está chegando à data da nossa partida para Espanha, iremos primeiramente para o Belém do Pará, em outra filial do nosso monastério, logo após, Salamanca, Espanha. 
Eu não tenho coragem de dizer nada a meu principal amigo, o Frederico, que foi que mais me ajudou, existe um plano, eu tenho que executá-lo logo, não tenho outra chance.

14.
Os monges estão eufóricos com a viagem, com a expectativa de iniciarem os estudos teológicos. Frederico parece o mais animado, eu tento disfarçar minha aflição, é sexta-feira, viajaremos no domingo pela manhã, um ônibus vêm nos buscar para levar-nos a rodoviária. Estou em meu quarto, sentado na cama. 
Eu não sei o que fazer, passo as mãos pelo meu rosto, os pensamentos tumultuosos, para falar a verdade, estavam em Cecília, aquele rosto que irradia luz, aqueles lábios carnudos, os cabelos encaracolados, os olhos verdes. 
Eu não paro de pensar nela, meu coração é dela… Meus Deus… O que será de mim…
Tomei minha decisão, será isso… Ou estará tudo perdido.







 O Frederico como de costume foi chamar o Arthur.
 - Olá Arthur… Abra a porta dorminhoco, temos que nos preparar para a viagem, o ônibus chega às oito em ponto… Arthur… Acorda… Meu Deus, já são sete horas, estamos atrasados.
 - Que barulheira é essa Frederico?Meu Deus o que está acontecendo meu rapaz.
 - Irmão Eduardo! Ainda bem que você apareceu, estou tentando chamar o Arthur já faz um tempo e ele sequer responde, estou com pressentimentos ruins de ter-lhe acontecido algo, essa semana ele disse que não estava muito bem.
 - Sendo assim, é melhor arrombamos a porta, possa ser que ele esteja desmaiado ou coisa pior.
 - Verdade, mas arromba você, que é mais forte e maior do que eu.
 - Tudo bem, Arthur… Caso você esteja de brincadeira irei arrombar essa porta… Em um, dois e três...
 A porta desabou no chão do quarto, fazendo um barulho estrondoso chamando a atenção de todos os demais monges, ao entrarmos vimos somente um bilhete em cima da cama.
 - Mais o que é isso - Disse Frederico ao pegar o bilhete que dizia o seguinte.





    De Arthur.

    Caríssimos irmãos em Cristo, perdoe-me por não me despedir, e pela forma que vos deixei, sei que é errado o que fiz, talvez Deus nunca me perdoe pelo meu ato insano.
    Amei estar com vocês, o tempo em que convivi com os senhores e foi de grande aprendizado, os levarei para o resto da vida, mas… Peçam desculpas ao reitor do monastério por mim, e a todos os outros monges, e ao meu grande amigo… Frederico.   
    Perdoe-me, e desculpe por não avisá-los. Estou a caminho do meu destino neste momento, apaixonei-me pela moça que vinha junto com os meus pais, sei que é errado a minha atitude, entregar-se desse modo as paixões da carne sem antes lutar,  neste momento o meu coração desconhece o certo do errado, assim como Adão ao provar o fruto proibido. Agora o meu coração enxerga apenas o amor, grandioso como nunca senti antes, não sei o que será de mim, mas tive que fugir para me reencontrar, para encontrar esse grande amor, Adeus meus amigos.




 - Santo Deus … Eu não acredito que o Artur fugiu, porque ele não nos falou nada, nem a mim que era seu melhor amigo, deve ser aquela moça, como é mesmo nome dela?
 - Cecília - Eu disse - se não me falha a memória, eu me lembro dele dizer o nome dela quando conversavam em um desses domingos.
 - Isso mesmo irmão Eduardo, 'Cecília', que Deus o ajude, é a única coisa que posso dizer agora, que Deus o proteja.





           *****




 Um número é discado no telefone …
Uma…
Duas…
Três…
Quatro vezes…
Ninguém atende. 
 Senhor Juscelino, pai de Arthur, Advogado aposentado disca mais uma vez.
Nada. 
Duas…
Três…
 Ligou para mim no seminário, começou-me a contar tudo.
 O Celular que ele havia dado a Cecília para eventual fuga era novo, havia crédito. "Não é possível". Dizia ele preocupado. "Ou eles estão dirigindo, ou o local não da área". Eu nem bem conclui a resposta e de repente, a televisão que estava ligada no noticiário em volume alto em sua casa anunciou:
   
 ( Notícia "URGENTE" próximo a saída de Lagoa Santa uma terrível colisão entre uma carreta e um carro de passeio aconteceu ainda pouco, ao que parece houve duas vítimas, do carro, um Civic prata, nada sobrou, não se sabe ainda quem são as duas vítimas no carro. A única informação que a polícia tem é que é uma moça e um jovem. Morreram instantaneamente, o jovem rapaz, ao que parece, estava vestido com uma batina de seminarista. Mais informações a qualquer momento).
 Era o fim…
 Do telefone eu pude ouvi tudo. O pai de Arthur simplesmente ficou mudo no telefone…
 Juscelino sabia que era o fim… O fim de uma história que nem bem começou, agora era enfrentar a dura realidade e as suas consequências. 
 O carro, bem como o celular, tudo estava em nome de Juscelino, na tentativa de ajudar a fuga do filho, trouxe-lhe a morte na última curva da estrada.
   

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CONTO 11.

BATOM VERMELHO.
( luxúria )




 Luiza acordou cedo, embora o sono ainda pesasse nas pálpebras, não cedeu aos encantos de mais um cochilo, levantou de um salto e tratou de arrumar a cama no mesmo instante. Era mais uma segunda-feira odiosa, o trabalho de casa acumulado, balde de roupa transbordando. O esposo saiu cedo para o trabalho, a empresa em que trabalhava ficava na cidade vizinha,  obrigando-o a levantar de madrugada para não perder o fretado. 
 O casamento passava por momentos complicados, as brigas com Arnaldo ficava mais frequentes a cada dia, desentendimentos, indiferença da parte dele. Luiza afundava em uma tristeza que a consumia dia a dia, pensava na separação.
 Na pia da cozinha ficou a louça suja do jantar de domingo, Luiza pediu para Arnaldo lavar enquanto ela terminava de passar as roupas de trabalho, ele fez que não a escutou, continuou assistindo o jogo na televisão, passou o dia de Folga assistindo. 
 Era sempre assim, todas as vezes em que Luíza lhe pedia algo, Arnaldo não fazia questão de ajudá-la, e nas raras vezes em que se propunha, fazia apressadamente, de mau gosto. As brigas já se arrastavam por um bom tempo. Mesmo com as ameaças de Luíza, Arnaldo era indiferente, repetidas vezes ela dizia: “Já que você não me dá valor Arnaldo, outro dará, abre o olho, qualquer dia desses eu te troco por outro”. Arnaldo tentava justificar seus erros, atitude que deixava Luiza ainda mais furiosa.
 Era pouco mais de dez horas da manhã quando ela terminou de lavar a roupa. A louça estava seca no escorredor, guardou-a, tomou o café apressadamente, foi para o quarto, trocou-se colocando a sua melhor roupa, perfumou-se, passou o batom, vermelho forte que comprou escondido do marido, a última vez que ela usou batom era na adolescência. Luiza estava decidida passar à tarde inteira fora, ir ao shopping, pegar um cinema, comer em algum restaurante diferente. Há muito desejava fazer algo assim com o esposo, mas quando o chamava era sempre as mesmas desculpas, cansaço, indisposição. Agora quem estava cansada era ela, deixou isso bem claro no bilhete na mesa da cozinha.
 O ponto de ônibus estava lotado, estudantes, trabalhadores, idosos. Alguns conversavam, outros estavam de olhos grudados no celular, Luíza apenas observava, presa em seus muitos pensamentos, conflitos internos, desejos, raiva, vontade de fugir para bem longe. Pensava nas consequências, no que havia dito para o esposo, de trocá-lo por outro, eram tantos os seus pensamentos que a cabeça doía. O ônibus finalmente havia chegado, Laranjeiras 42, estava vazio, ela teria que ir ao terminal rodoviário Santo Antônio e embarcar em outro ônibus, bairro campolim, que parava em frente ao Iguatemi Esplanada. Com sorte, se o trânsito não estivesse ruim, daria tempo de almoçar antes da sessão de cinema das duas da tarde. Luiza sentou-se no último banco do ônibus, o olhar perdido no horizonte, casas, comércios, a cidade passava diante de seus olhos, o coração afundado em angústia.

 Quarenta minutos depois Luiza desceu em frente ao Shopping, no estacionamento figuravam poucos carros, movimento típico de uma segunda-feira. A passos lentos ela seguiu rumo a entrada principal, passou ao lado da loja das casas Bahia, parou por uns instantes, não quis entrar, seguiu a esquerda ao lado de uma joalheria, foi reto, lojas de roupas e calçados de ambos os lados, ao final do corredor estava a praça de alimentação, escolheu comer no Lacoste, sempre desejou comer naquele restaurante, comida Italiana, Arnaldo nunca a levou em um restaurante, tinha sempre uma desculpa pronta. 
 Luíza, decidida, comeria ali mesmo antes da próxima sessão de cinema, que começaria às duas da tarde. No restaurante, sentou-se em uma mesa mais afastada, os conflitos em sua cabeça ainda continuavam. A garçonete veio atendê-la, cardápio nas mãos.
 - Boa tarde senhorita, quer dar uma olhada em nosso cardápio? Temos ótimas opções para hoje.
 - Boa tarde, quero sim. 
 - Fique a vontade para escolher o seu prato, depois é só me chamar, não tenha pressa.
 - Obrigada.
 Luíza estava indecisa no que iria comer, eram tantas as opções, enquanto escolhia, lembranças vieram à mente, a escola, os amigos, antigos namorados. Do lugar que estava era possível ver o lado de fora, movimento intenso, hora do almoço. Um moço com um buquê de rosas chamou-lhe a atenção, a fez lembrar da única vez em que ganhou rosas como aquelas. Foi no ginásio, quando nem conhecia Arnaldo ainda, um amigo dele que havia lhe presenteado com um buquê de rosas vermelhas, o nome do rapaz era Carlos. Na ocasião foram ao cinema juntos, ele era apaixonado por ela, tentou beijá-la, mas Luiza queria apenas a amizade. 
 Escolhido o prato, chamou a garçonete e fez o seu pedido. Luiza já estava acostumada a comer sozinha. Enquanto esperava, perdida em tantos pensamentos, alguém se aproximou, ela nem percebeu, uma voz rouca então lhe falou:
 - Boa tarde moça, posso me sentar aqui?
 Luiza levou um tremendo susto, virou-se para ver quem era.
 - Perdoe-me, não era minha intenção te assustar.
 - Carlos… Meu Deus! É você… Mas…
 - Quanto tempo em amiga… Eu sei que estou… Assim… Diferente, a aparência não ajuda muito. Mas você… Nossa… Você está… Ainda mais linda.
 - Obrigada Carlos, sente-se rapaz, vai ficar aí de pé. Mais que coincidência, meu Deus! Sério… Nos encontrarmos aqui, e logo hoje.
 - Coincidência… Como assim?
 - Não é nada, deixa pra lá, é só jeito de falar.
 - O quê você faz aqui rapaz?
 - Eu vim espairecer, descansar a cabeça dos problemas, pegar um cinema, sempre faço isso.
 - Sério… Mais olha que coincidência, novamente… Pois eu vim fazer o mesmo.
 - Ah que bom, então a gente poderia aproveitar e assistir um filme juntos, sei lá, fazer companhia um para o outro, se não for incomodar é claro, de repente, você pode estar acompanhada.
 - Pode sim, não estou acompanhada, para mim está ótimo, aproveita e almoça comigo.
 Carlos aceitou, fez o seu pedido, enquanto almoçavam, conversaram sobre diversos assuntos. Luiza contava-lhe do casamento frustrado, das brigas com Arnaldo, do quanto ele era rude. Carlos estava se separando, as brigas, o ciúmes doentio da ex-esposa culminou no divórcio. Enquanto conversavam e trocavam confidências, Luíza discretamente olhava para o lado de fora, imaginando que a qualquer momento Arnaldo fosse aparecer, embora ela soubesse que seria impossível vê-lo ali.
 As horas voaram, estava quase no horário do filme, saíram às pressas para o cinema, que era no final do corredor a direita. Conseguiram chegar a tempo, comédia romântica, havia poucas pessoas. Luiza estava confusa, os seus sentimentos era uma mistura de medo, culpa, euforia, desejos.
 Após o filme, Luiza e Carlos passearam pelo Shopping, olharam algumas lojas. A tarde avançava apressada, temerosa pela reação de Arnaldo, ela resolveu que tinha que ir embora. Um discreto beijo no rosto, a marca de batom, cada um foi para o seu lado. Ele, prometeu enviar mensagens, ela, à respondê-lo. Era o recomeço de uma antiga amizade, que agora tomava um discreto formato de algo a mais. 


Dias depois…

Mensagens trocadas entre Carlos e Luiza.

Carlos.
" Olá boa noite, tudo bem? Estou com saudades, você não respondeu minhas mensagens".

Luiza.
" Oi… Boa noite. Mil perdões Carlos, dias difíceis… "

Carlos.
" O que houve?"

Luiza.
" Eu tive uma briga muito feia com o Arnaldo, feia mesmo. Estamos dormindo em camas separadas".

Carlos.
" Se quiser falar sobre isso, de repente, desabafar. Sou todo ouvidos".

Luiza. 
" Obrigado Carlos, você é um amor".

Carlos.
" Imagina, você que é maravilhosa".

Luiza.
" Exagero seu… Sou não... Estou me sentindo um trapo".

Carlos.
" A Ana tentou voltar comigo, mais não dei chances, cortei logo de cara, ela não me deu valor,  perdeu".

Luiza.
" Ah… Eu penso nisso todos os dias sabe, queria ter essa coragem, jogar tudo para ar e vê no que dá".

Carlos.
" E vai ficar sofrendo mulher, sendo humilhada por quem não te dá valor. Separe logo".

Luiza.
" Sei não… Depois tem a igreja, nossas famílias, e todo o falatório que isso vai dar. Sem dizer que eu é que vou sair por ruim".

Carlos.
" Você é tão linda Luiza, tão especial, 'se me permite a ousadia' a mulher dos meus sonhos.

Luiza.
" Nossa! Não é pra tanto vai, exagero seu, nem sou tudo isso".

Carlos.
" É isso e muito mais".

Luiza.
" Lembra aquele dia… O almoço no shopping, cinema. Pois então, quando cheguei em casa quebramos o pau, brigamos feio, ele me falou horrores por causa do batom que usei. Ele me disse que eu deveria ter avisado antes de sair, dizer que lugar estava. Agora… Logo eu, aquele antipático, insensível, grosso. Ele disse que eu era sua mulher e lhe devia conta do que fazia. Fiquei uma fera, subir nas tamancas, falei que não tinha que dar satisfação a ninguém. Ai Carlos…Não sei o que faço".

Carlos.
" Você merece algo melhor amiga, uma vida melhor, alguém que te ame de verdade"...




 O relógio marcava onze e meia da noite, Arnaldo acabava de chegar do trabalho, naquela semana estava no turno da tarde. Tentou cumprimentar Luiza com um beijo no rosto, que virou a face no mesmo instante, nem ao menos respondeu. Arnaldo tentou dialogar, pedir perdão como sempre fazia, Luiza deu de ombros. Escondeu o celular para que ele não percebesse o que ela estava fazendo. Arnaldo desistiu de tentar, pegou o pijama no guarda roupas, toalha, foi tomar o seu banho, dormiria no sofá da sala. 
 Luiza continuou no celular, as mensagens ficavam cada vez mais íntimas, adentrando em assuntos delicados, perigosos. Chegou ao ponto de ambos falarem de sexo, do que gostavam e não gostavam, Luíza estava carente, era notável o desejo de um pelo outro. Ela sentia o seu corpo arder de desejo pelo amigo, como nunca sentiu em todos os anos com Arnaldo. Até que chegou ao ponto de marcarem um encontro, seria um jantar romântico, e talvez algo a mais depois. A mensagem de boa noite de Luíza foi um nudes, ousado, seios a mostra, tirou a foto no banheiro, Arnaldo roncava na sala. Carlos também enviou fotos íntimas, do corpo, do membro, das pernas, físico perfeito.
 Luiza experimentava uma mistura de sentimentos, de um lado o desejo incontrolável de sair e ter relações com Carlos, vingar todas as grosserias do marido. Do outro lado, a culpa, o sentimento de que, por pior que o esposo fosse, aquilo era traição, errado, 'um pecado gravíssimo', lembrava-se das mensagens do pastor nos cultos de domingo. Todavia, mesmo com o conflito crescendo cada vez mais, estava disposta a tudo, o desejo de ter Carlos em seu corpo era muito maior que o sentimento de culpa, ela iria até o fim com o combinado custasse o que custar.
 Luíza se entregou aos seus desejos,  deixou-se dominar, era sua carne subjugando o espírito. Ignorando todas as advertências, seguiu em frente. 
 Veio o segundo encontro.
 Fim de semana, o mesmo batom vermelho provocante. 
 Almoço, passeio, cinema. No carro de Carlos ela se entregou definitivamente, beijada vorazmente, pescoço, seios, tocada, Chupada. Carlos lhe deu brincos de presente, ela que nunca havia usado antes, aceitou, passaria a usar. Luíza mudou o estilo das roupas, saiu da igreja. Usava peças sensuais, curtas, pernas à mostra.
 Veio o segundo encontro.
 Fim de semana, o mesmo batom vermelho provocante. 
 Colares, brincos, jóias, Luíza já não era a mesma mulher, ela que era modesta e humilde, agora, mulher transformada, experimentava os prazeres que a Luxúria lhe dava, presentes de Carlos.
 Os fins de semana eram sempre de convites para festas, bebidas, noitadas, motel, sexo, a marca do batom vermelho no corpo de Carlos. O ex-esposo afundava-se em uma depressão profunda, aguentou o quanto pode, separado recente de Luiza, passou a morar sozinho, em um condomínio de um bairro afastado, vez e outra encontrava Luíza no centro da cidade. Ele passou a tomar remédios fortíssimos, antidepressivos, ameaçava se matar, mas nunca fazia nada. Nas vezes em que Luíza o encontrava, provocava-o dizendo que ele era covarde demais até para tirar a própria vida, que nem a morte desejava um traste de homem como aquele. Arnaldo isolou-se, parou de tomar os remédios, não se alimentava direito, simplesmente trancou-se em seu quarto e não abriu a porta para mais para ninguém. Até que semanas depois, a polícia foi acionada, veio em sua casa, chamou uma, duas, três vezes, ele não respondia, foi preciso arrombar a porta da sala. O cheiro que vinha do quarto era insuportável. Quando os policiais arrombaram a porta do quarto, qual não foi a surpresa, lá estava o corpo de Arnaldo pendurado, a corda no pescoço, fortemente amarrada a viga de madeira do telhado da casa, os pés a poucos centímetros da cama. O corpo estava em avançado estado de decomposição.
 Luíza foi comunicada da morte de Arnaldo, ela nem sequer compareceu ao enterro. 
 Estava ocupada demais em seus planos de ir para praia. 
 A tão prometida viagem com Carlos aconteceu dias depois do suicídio de Arnaldo.
 Bebidas, sexo, praia, rolou de tudo. 
 Depois de um fim semana intenso, retornou para casa. Estrada sinuosa, madrugada de segunda-feira, Carlos dormiu ao volante, em uma das curvas bateu de frente com outro veículo. Não sobrou nada dos dois carros. Foi morte instantânea, ficaram presos nas ferragens, ele, ela, no outro veículo havia apenas o motorista e o mesmo fim trágico. Quem chegava ao local do acidente não conseguia olhar a terrível cena, corpos dilacerados em meio às ferragens. 
 A única coisa inteira que encontraram no cenário de horror, foi o batom vermelho que Luíza sempre usava quando saia com Carlos.
 Era o fim de tudo o que ela sonhou, e de todos que a amou.
 Sobrou apenas o batom vermelho. 
  



sábado, 17 de agosto de 2019

CONTO 10.


O DESCONHECIDO.




 Seu nascimento deu-se da maneira mais comum de todas, como todos os outros, sem nenhuma exceção. O choro completamente desconhecido não fez nenhum alarde, seus pais não eram conhecidos, e nem a sua família tinha influência na sociedade da época, muito pelo contrário. 
 A sua família era um vulto no escuro, sem tradição, sem membros importantes entre os mais importantes da cidade. Seu nascimento foi completamente às cegas, não houve outros olhares para admirar-lhe no primeiro momento neste mundo. Apenas o olhar cansado da parteira, um senhora já de idade avançada que havia feito a maioria dos partos daquele local. O corpo sujo da criança veio à esta realidade em uma manhã de muito calor, ainda figurava as primeiras horas do dia. O choro fraco não fora capaz de acordar ninguém, a parteira o limpou, fez todo o procedimento e o colocou ao lado da mãe, olhos miúdos, quase fechados, o minúsculo Arthur estreou no mundo em uma manhã calma de domingo. Ao sentir o cheiro da mãe a criança parou de chorar no mesmo instante. A mãe tocou-lhe na face macia, ainda enrugada, lágrimas no olhos. Mãe e filho por um breve momento pareceram se desconectarem da realidade cruel que os cercavam, pareciam em um universo particular somente deles.
 A ligação entre mãe e filho duraria pouco, a recém chegada criança não teve tempo de conhecer a sua mãe, foi apenas o afago inicial, logo após o parto a jovem senhora faleceu devido a forte hemorragia, não havia o que fazer para salvar-lhe a vida, era mais uma cela vazia na detenção feminina.
 O pai da criança era desconhecido de todos, embora alguns acreditassem que seria um importante membro político da cidade de Rio das Pedras. A mãe da criança nunca revelou a ninguém sobre o pai, havia apenas uma pessoa que possivelmente poderia ter a verdadeira resposta a essa incógnita da paternidade do jovem Arthur, o padre Amaro, único pároco da cidade, um simpático senhor que era o responsável por inúmeras obras sociais, sempre caridoso e de bom coração. 
 Padre Amaro foi um dos últimos a conversar com a mãe do Arthur antes dela morrer. Exatamente dois dias antes dela falecer, na ocasião ele a atendeu em seu confessionário, instalado na prisão, ela ficou cerca de quase uma hora no confessionário, certamente que, o padre Amaro seja o único conhecedor dos segredos de Ana Luci, embora, segredo este que continuará a todos um grande mistério, visto que, padres não podem revelar segredos de confissão, em nenhuma hipótese. Esse mistério perdurará, talvez a própria criança quando atingir a fase adulta venha a descobrir todos esses segredos. 
 Sou apenas um observador, uma águia a voar e a colher informações do mundo dos humanos. Eu sou essa ave misteriosa que acompanha com grande interesse e curiosidade a respeito dos homens e de seus sentimentos tão confusos. 
 Arthur, criança essa que cresceu forte, embora não parecesse ao nascer, mas a criança cresceu nas ruas de uma cidade fantasma, ajudado por um e por outro, classificados como desgarrados, as vezes expulso daqui e dali, sem a oportunidade de poder ter uma vida aos padrões humanos considerada digna. O jovem Arthur teve que aprender nas ruas a arte da sobrevivência, com muito sofrimento e esforço, ele tornou-se um adulto com inúmeras habilidades. Morador das matas, sobrevivente do mundo recém destruído, recém transformado. Jovem esse que contemplei o nascimento, nunca se importou saber quem era seu verdadeiro pai, nunca se interessou saber se havia familiares vivos, nem na história da sua própria mãe ele se interessou. Aos seus olhos a sua família eram as ruas onde foi criado, mas havia nele algo de diferente, que o destacava dos demais seres humanos. Arthur tinha um cérebro poderoso e uma capacidade de raciocínio espetacular. Ele aprendeu a ler sem a ajuda de ninguém, conhecia sobre os mais diversos assuntos. Matemática, ciências, biologia, astronomia, filosofia, literatura, e tantas outras cousas mais. Tudo graças aos milhares de livros deixados nas latas de lixo. 
 Arthur era uma águia terrestre, ele tinha a capacidade de conseguir o que bem intentasse. Mas havia uma pessoa na cidade que observava o desenvolvimento do jovem desde o seu nascimento, que sem deixá-lo perceber, indiretamente contribuiu para o crescimento e desenvolvimento de Arthur. O padre Amaro sempre cuidou indiretamente daquela alma desprovida, providenciando roupas, alimentos, pessoas que levassem as coisas que lhe era necessário, até mesmo os livros nas latas de lixo. 
 Padre Amaro temia trazer a criança para sua casa e ser acusado pela sua comunidade, mas de uma forma indireta providenciou que o jovem crescesse sob o seu olhar. Padre Amaro nunca trocou uma palavra com o rapaz, mas estava sempre presente, sempre por perto. Eu não sei por qual motivo o jovem também nunca se afastou do padre, parecia haver algo que os ligava. Foram poucas as vezes que Arthur assistiu as missas de domingo do padre Amaro. Ele sentava-se no último banco, não trocava uma palavra com ninguém, seu olhar curioso fitava o olhar atento do padre. Quando a missa terminava ele saia junto das demais pessoas, escondia-se por detrás do muro Catedral, padre Amaro sempre deixava um pouco de comida para ele naquele local.
 Houve um dia que o padre Amaro, tão querido de todos, adoeceu, fiéis da igreja foram designados pelo Bispo para ajudá-lo enquanto estivesse enfermo e acamado, mas o médico havia dito que era questão de dias para que o padre viesse a falecer, pois o câncer havia tomado todo o seu corpo e não havia mais o que fazer. Quando Arthur soube da doença do padre, algo dentro dele, que ele mesmo não sabia explicar, o incomodava a ir ter com o padre antes que ele falecesse. Arthur tentou resistir, escondeu-se, mas não suportando a angústia foi visitar o amigo, que sempre, 'indiretamente' cuidou dele. 
 As pessoas que ajudavam o padre avisou-lhe que o jovem de rua queria vê-lo. Padre Amaro abriu um tímido sorriso, pediu para que trouxesse o jovem, pediu também para que os deixassem a sós. O padre ficou cerca de meia hora com o jovem. Com os olhos cheios de lágrimas Arthur deixou o quarto onde o padre estava, ninguém compreendeu nada, também o padre não revelou nada a ninguém. Um dia depois desse episódio o padre veio a falecer, ele foi enterrado no cemitério da cidade, seu cortejo fúnebre foi seguido por uma multidão de pessoas, a cidade parou naquele dia. Arthur estava entre a multidão, olhos molhados pelas lágrimas.
 Tempos depois, ninguém mais viu o jovem Arthur pelas ruas da cidade, o que se dizia era que o jovem Arthur era o filho do padre Amaro com a jovem Ana luci, mas a verdade está enterrada com o padre Amaro, passou-se dez anos desses acontecimentos, dez anos que o jovem havia desaparecido. Certo dia, o bispo havia designado um novo padre para a catedral, avisou que o apresentaria no domingo na missa matutina. A igreja superlotou para conhecer o novo sacerdote. O bispo iniciou a missa, quando ele pediu para que o novo padre adentrar, qual não foi a grande surpresa de todos, o padre era exatamente o jovem Arthur, que a anos havia desaparecido. Sua verve, seu carisma, tão rapidamente conquistou a todos. O semblante tão parecido com o do padre Amaro causava tanta admiração quanto espanto, ninguém ousava falar, mas todos na cidade juravam que ele era o filho do padre Amaro. A verdade ninguém sabe, somente o próprio padre Arthur, talvez essa ave bisbilhoteira saiba a verdade, mas porque revelar tão grande segredo. É preferível deixar tudo como está, talvez o tempo responde essas questões.







MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

           As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino.      Nos recônditos ...