segunda-feira, 24 de junho de 2019

CONTO.

A FLOR DO PECADO.
Era o fim de tarde de uma primavera qualquer, o ano… Não… Eu não vou falar em datas - esses detalhes pouco interessam no momento. A única coisa de valor e necessária agora é a história que será revelada. Afinal, eis a minha dúvida; como contá-la? Deveria de ser algo fácil, porém, não é; eis o meu principal problema.
O meu nome também não é importante, não sou quem valha a pena ser lembrado, me resumo a alguém com uma necessidade extremada de colocar as palavras no papel, uma ao lado da outra, sempre buscando um ponto final sem nunca encontrá-lo - dom que acho ter herdado do meu pai.
E nas minhas histórias contadas, algumas lidas, outras não, me invento e reinvento todos os dias. Acho que nunca me importei de fato com os meus sentimentos e quem sou de verdade, uma vez que, os sentimentos dos outros riscados no papel sempre foi o meu objeto de estudo. Particularmente gosto de analisar a alma humana, analisar o que o outro está pensando, fazendo, querendo, planejando, enfim, o que o outro tem dentro de si.
A história que vou lhes contar desrespeito a um personagem 'sem nome'; não que ele seja indigente, pelo contrário... Reservo-me ao direito de não querer revela-lo, entretanto, vou dar a esse 'personagem' um nome fictício. Sendo assim, devo chamá-lo a partir desse momento de Arnaldo. Acertada essa etapa, passemos adiante.

Seguia o ano qualquer, de um dia qualquer, os dias em si não importa, os fatos sim. Naquele ano em questão, o nosso personagem, senhor Arnaldo, resolveu passar as férias em uma fazenda afastada a cidade, livre de qualquer traço de civilização, livre de telefones, livre de internet, livre de buzinas, carros, pessoas apressadas, crianças barulhentas, compromissos, reuniões, escola, igreja, enfim, livre de tudo. Era apenas ele e a sua velha máquina de escrever, folhas em branco, e um desejo incontrolável de ficar sozinho por um tempo. Recluso em seu pequeno universo, buscando dentro de si o seu próprio universo perdido. Arnaldo queria se reencontrar, se reinventar (assim como eu às vezes) fugir por um período, para assim encontrar-se consigo mesmo.
A escolha daquela fazendo no interiorana foi aleatória, ele apenas achou que aquele era o lugar ideal para pôr em ordem os seus muitos pensamentos. Aquele havia sido um ano de grandes desafios, de muitas dificuldades financeiras, a carreira de escritor era amarga, inglória, solitária e não reconhecida, pelo menos no Brasil, Arnaldo experimentava o calvário dos escritores. Ele buscava inspiração para o seu novo livro de poemas, e achou que o isolamento seria bom.
Os dias se passaram rapidamente, na primeira semana não houve muitas novidades, mas na segunda semana, na casa ao lado, outrora abandonada, recebia a visita de algumas pessoas, três na verdade, um casal de meia idade, e uma jovem. A princípio, Arnaldo não se importou, não procurou saber quem era e não procurou fazer amizades, quase não saiu de casa, se não raras vezes durante o dia. Ele continuou recluso, incomunicável. Da fresta na janela da sua cozinha era possível ver o quintal do vizinho recém-chegado.  O casal em questão daquela estranha casa, também eram reclusos, tanto quanto ele próprio. Havia ali a presença de uma jovem, diferente de todos, essa quase não ficava dentro da casa.
A jovem era uma moça baixa, corpo magro, cabelos negros e longos, olhos castanhos escuros, pele morena clara. Os olhos quando expostos ao sol tomavam tons de castanho claro, quase na cor do mel, assim como seus lábios, fartos, vermelhos e intensos, os dentes perfeitos. O olhar penetrante da bela moça buscava curiosa a casa vizinha, buscava visualizar alguém. A moça estava sempre com vestes curtas, delineando as pernas bem torneadas, camisetas apertadas comprimindo os seus seios tão bem desenhados, de uma simetria perfeitamente arredondada. Arnaldo ficou a observá-la de dentro da casa, a moça curiosa olhava a casa vizinha tentando descobrir algo. Vez ou outra, para refrescar-se do calor a moça molhava-se com uma mangueira no quintal. A água percorria o seu corpo escultural, grudando as roupas ainda mais ao corpo juvenil, os seios com os mamilos endurecidos delineiam na camiseta, os pelos das pernas reluziam à luz do sol, a forma delicada da sua intimidade desenhada no tecido molhado.
A moça estava intencionada a provocar a figura estranha e desconhecida da casa ao lado, Arnaldo, essa figura estranha em questão, pareceu gostar da provocação. Assim a coisa procedeu-se por uma semana inteira; na segunda semana, Arnaldo abriu levemente a janela, permitindo que a moça visualiza-se parte de seu rosto. Ela continuava provocando-o, às vezes molhando-se, às vezes dançando, uma coisa despretensiosa e intencional. Em certo momento, Arnaldo ouvia uma voz rouca de dentro da casa a chamá-la pelo nome, foi então que ele descobriu que o nome da moça era Anita.
Na terceira semana, tomando coragem, Arnaldo saiu de dentro da casa pela primeira vez, revelando-se para a moça, foi ao quintal, Anita também estava no quintal naquele momento, ela molhava as flores de um jardim quase morto. Arnaldo fingiu estar ocupado com qualquer coisa, mas era perceptível que ele a observava com muito desejo, ela que também o observava com igual sentimento. Naquele primeiro momento não houve troca de palavras, apenas a troca de olhares, um discreto sorriso aqui, outro acolá, vendo-a mais de perto, Arnaldo percebeu o quanto a moça era bonita. Por um estranho motivo que Arnaldo desconhecia, o casal que também estava na casa nunca saia, em nenhum momento do dia, era apenas Anita, ou quando estava se divertindo, ou quando estava fazendo tarefas domésticas.
Embora fosse isolado, o sítio não era tão distante da cidade, acontecia que às vezes, mesmo contra sua vontade, Arnaldo via-se na necessidade sair com seu carro até a cidade para comprar algumas coisas, naqueles dias ele ausentou-se por pouco tempo. Porém, naquela semana em que os novos vizinhos chegaram, ele não quis sair. Arnaldo encantou-se tanto com a beleza de Anita que até esqueceu o motivo que o fez isolar-se naquele sítio. Contudo, motivado pelos sentimentos fervilhando dentro de si, Arnaldo escrevia longos poemas falando dos seus novos sentimentos, e de seu encanto com a jovem chamada Anita.
Certa manhã, quando Arnaldo estava no quintal, trabalhando em um canteiro de hortaliças, distraído no que fazia, não percebeu quando a moça aproximou-se dele. De repente, o silêncio foi rompido ao som suave de uma doce voz.
─  Bom dia senhor.
Arnaldo assustou-se, virou rapidamente para ver quem falava. Quando percebeu que se tratava de Anita, por alguns minutos ele emudeceu.
─  Tudo bem com o senhor?
Arnaldo finalmente saiu do estado de mudez e respondeu.
─  Bom dia senhorita, perdoa minha distração.
A cerca que dividia os dois quintais eram apenas três arames esticados em velhos troncos, de forma que, era possível a Arnaldo visualizar todo o corpo da jovem. Que naquele momento, ainda estava com o pijama, de um rosa bem claro, tão curto que parecia querer rasgar-se no corpo. Arnaldo sentiu uma chama ardendo por dentro, algo que ele ainda não havia sentido. Anita rompeu o silêncio novamente.
─  Posso fazer uma pergunta senhor?
─   Sim claro, sinta-se a vontade. Respondeu Arnaldo em tom quase inaudível.
─  O senhor comprou essa casa? É que sempre passamos uma temporada aqui, eu e meus tios, há muito tempo que não vemos moradores aí.
─  Na verdade - respondeu sem se levantar - essa casa pertence a um amigo, ele me cedeu a casa por o tempo que eu precisasse.
─  Muito prazer em conhecê-lo senhor, o meu nome é Anita.
─  O prazer é todo meu, me chamo Arnaldo.
─  Senhor Arnaldo… Responda-me uma coisa; outro dia eu ouvi barulhos como se fosse de máquina de escrever, é do senhor?
─  Sim, eu sou escritor, poeta, eu estou trabalhando em um novo livro, motivo que me fez escolher a clausura deste lugar, e, por favor, senhorita, não me chame de senhor, eu me sinto muito velho quando me chamam assim, pode me chamar de Arnaldo.
─ Tudo bem, como você quiser Arnaldo, mas saiba que você não é velho, eu não o acho velho, te chamei de senhor por educação, mas você não é velho.
─  Muito obrigado, se me permite a ousadia de um elogio, você é muito linda, gentil, parece um anjo, ledo anjo.
─ Você já viu um anjo antes?
─  Na verdade não, mas acredite, eles existem.
A conversa prosseguiu por mais alguns minutos, Arnaldo teceu vários elogios, recitou poemas, Anita ficou encantada, os seios da face avermelhados de vergonha, em determinados momentos, ela agachou-se bem de frente dele, ora virava-se, ora cruzando as pernas exibindo toda a beleza de suas coxas, foi então que Arnaldo notou que Anita não usava roupas íntimas por baixo, ela parecia não se importar com aquilo, parecia obstinada a provocá-lo cada vez mais, mostrando os contornos da sua intimidade, lisa, levemente rosada. Mas era aquele um jogo arriscado, ele, um quarentão, deixando-se envolver com uma moça talvez menor de idade, era um risco, Arnaldo estava agora disposto a ceder às provocações tentadoras de Anita, que, naquela altura, havia ficado clara quais eram as suas intenções. Arnaldo quase ao final da conversa a convidou para vir a sua casa qualquer dia, para que ele mostrasse os poemas que havia escrito recentemente. A moça aceitou o convite, disse-lhe que a qualquer momento bateria em sua porta, ela teria apenas que encontrar o momento certo, para não despertar nos tios desconfiança.


                                          * * * *


Na noite seguinte, quando Arnaldo preparava-se para dormir, ouviu alguém bater levemente na porta, quem poderia ser àquela hora, pensou ele, mas o seu coração logo percebeu de quem poderia se tratar. Arnaldo foi até a porta, e para sua surpresa era ela.
─  Posso entrar? Ou a hora é inapropriada.
─  Anita! Que surpresa boa; hora nenhuma é inapropriada. Por favor, entre, não reparem em mim, nem na bagunça, eu estava preparando-me para dormir.
─  Se você quiser posso voltar outro dia.
─  Não… Não… De jeito nenhum; por favor, entre.
Eram onze horas da noite, os tios de Anita tomavam remédios para dormir, de modo que seria praticamente impossível para eles acordarem. Arnaldo estava sem camisa, e apesar de quarentão, Arnaldo exibia um corpo saudável, forte, sua rotina diária de exercícios proporciona-lhe um corpo perfeito, de dar inveja a muitos atletas. Anita, também se vestiu de modo provocativo, roupas curtas, coladas ao corpo. Ela sentou-se no sofá da sala, enquanto Arnaldo foi buscar alguns de seus poemas para que ela os lê-se. Minutos depois ele retornou com os papéis, sentou-se ao lado da moça, que não parecia muito interessada nos poemas, o olhar sedutor mostravam outras intenções, Arnaldo sentiu uma chama queimar-lhe a alma, era o fogo do pecado que o consumia.
─  Você não parece muito interessada nos poemas.
─  Não seu bobo, claro que não, você sabe que o meu interesse é outro.
Anita jogou os papéis de lado, aproximou-se ainda mais de Arnaldo, quase ao ponto de seus lábios se tocarem. O poeta sentiu como se um vulcão estivesse em erupção dentro de si, o brilho daqueles olhos, o vermelho intenso daqueles lábios, o perfume daquele corpo juvenil, era um convite ardente e irrecusável.
─  O quê você deseja de mim afinal? - Perguntou ele - já a ponto de beijá-la.
─  Esta noite eu sou o teu poema, meu corpo são teus versos, eu quero que você os leia, não só com os olhos, mas com os teus lábios também, me leia por inteira, pois meu desejo é ardente por ti.
Arnaldo sucumbiu aos seus desejos, não suportando, concedeu a Anita o que ela mais desejava, que era uma intensa noite de amor, uma noite como Arnaldo nunca teve em toda sua vida. Noite como aquela, de amor intenso e proibido. Arnaldo sentiu o calor daqueles lábios juvenis, sentiu os mamilos endurecidos roçar em seu corpo. Lentamente os lábios de Arnaldo encontrou o pescoço da jovem, em um movimentos sutis, Anita despiu-se da parte de cima da sua roupa, os fartos seios ficaram à mostra. Arnaldo deles embebedou-se, passando a língua em movimentos circulares nas auréolas dos mamilos endurecidos. A jovem gemia de prazer, logo sentiu o volume do pecado e da danação em Arnaldo, o que só fez sua excitação aumentar, a sua intimidade estava úmida, latejando, querendo ser possuída. Por fim ela despiu-se completamente, Arnaldo abaixou-se, abrindo suas pernas, tirando-lhe a calcinha, e começou sorver-se de seu libido, começando pelas coxas, até atingir sua intimidade, úmida, vermelha. Anita então fez o mesmo processo em Arnaldo, que sentiu aquele enorme vulcão em si, ela gemia, e o devorava com ferocidade, prazer e loucura. Arnaldo colocou-a deitada no sofá, tomando-a, ela, apertada, com movimentos leves, Anita estava enlouquecida, dançava em cima dele, pedia mais, Arnaldo aumentava o ritmo, até que em determinado momento, não aguentando, Anita chegou ao ápice, Arnaldo também. Anita sentiu o liquido quente dentro de si, e tudo repetiu-se por várias vezes, naquela noite e nas que se seguiram, até ao dia em que o poeta teve que ir embora, Anita jurou segredo, prometeu que não revelaria a ninguém sobre o que aconteceu.


             * * *


Muito bem amigos, passaram-se alguns meses, Arnaldo voltou a sua rotina diária, voltou para sua família, esposa, filhos, sim, ele era comprometido, o nosso personagem era conhecido em sua cidade, tudo parecia bem, no recôndito dos seus pensamentos ficou a lembrança de Anita, de seus beijos, seus toques, o sexo, prazer. Arnaldo ainda sentia o seu corpo queimar por dentro ao lembrar-se dela, ele manteve-se no mais completo silêncio, e não deixava transparecer nada.
Em determinado dia, a sua esposa ao chegar em casa depois do trabalho, notou que havia alguns envelopes na caixa de correios, não dizia de quem eram. As únicas palavras que tinham eram o destinatário, e o nome de Arnaldo. A princípio ela nem deu importância, imaginou ser de alguma editora ou qualquer coisa do tipo. Arnaldo estava em casa, continuou com seus afazeres, não deu importância para os envelopes, por volta das cinco horas da tarde, em seu quarto, quando estava em sua escrivaninha, resolveu abri-los. Aos poucos, lendo o que havia no interior daqueles bilhetes, cartas, o semblante de calmaria e tranquilidade do poeta mudou para o mais completo desespero, suor corria pela sua face. Os bilhetes eram de Anita, e haviam fotos também, e nas fotos, ela estava com a barriga de fora, que já estava relativamente arredondada, evidenciando à gravidez. Em um dos bilhetes a jovem dizia que o filho que ela esperava era dele, ela também enviou uma cópia do exame de sangue que constatou a gravidez e de quantas semanas estava, pela data no bilhete, pela foto, Arnaldo concluiu sem dúvidas que o filho poderia ser realmente dele, mas o que mais lhe preocupou, foi o restante da mensagem em outro dos bilhetes. Anita era a filha do delegado mais truculento da cidade, conhecido por torturar e bater em quem ele prendia, o delegado, segundo a jovem nas cartas, estava determinado a conhecer quem era o pai da criança, Anita havia conseguido o endereço do poeta, mas não sabia nada a respeito da vida pessoal dele, ela disse no bilhete que estaria indo na casa do poeta na noite seguinte, e que o pai estaria junto.





        O desespero de Arnaldo o fez tomar uma atitude drástica…

  
Quando foi no dia seguinte e no devido horário, quando Anita e o delegado chegaram à casa do poeta, quando a esposa do poeta abriu a porta, sem entender o motivo daquela visita, todos ouviram o som de um estampido vindo da parte de cima da casa, imediatamente, tanto a esposa do poeta como Anita e seu pai subiram apressadamente as escadas para ver o que havia acontecido, ao adentrarem no quarto a terrível cena. O corpo estendido no chão, à poça de sangue espalhava-se pelo piso frio, em uma das mãos um trinta e oito enferrujado. Arnaldo atentou contra a própria vida, disparou contra si mesmo.
Mas… As coisas não aconteceram como Arnaldo planejou em seu desespero, hoje, pouco mais de vinte anos depois desses acontecimentos, estou eu aqui, ao lado dessa cama de hospital rodeada de aparelhos, esperando pacientemente o momento em que o meu pai vai abrir os olhos e sair do coma, e finalmente conhecer o seu filho, que hoje, exatamente hoje, completa vinte anos.






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