quarta-feira, 17 de julho de 2019

CONTO 4.



ANJO LEDO.




    "Os sonhos são pontes suspensas entre o mundo dos nossos desejos e as nossas memórias, então, sonhar seria ligar esses dois mundos e transitar por eles desfrutando de seus mistérios".




 O meu nome é Olafec Orcam, sou um poeta apaixonado, basta isso e nada mais. 
 O relato que vou lhes contar é de grande relevância; irei dizer a despeito de certo anjo ledo, que surgiu em minha vida há alguns anos. esse nome que lhe dei de - anjo ledo,  deve-se ao fato dela ser uma mulher belíssima, muitíssimo especial. Ainda não encontrei beleza que eu possa fazer comparação. Nada é mais vívido, nada é mais dócil, nem todas as flores do mundo tem o perfume semelhante ao dela, nada, exatamente nada neste mundo se compara a beleza desse anjo ledo, ela é simplesmente divina. 
 Esses relatos desrespeitam a minha vida, a minha história, e confesso que, fiquei pensativo em como começar a contar-lhes, mesmo porque, o anjo ledo aos meus olhos tem qualidades divinas, que supera em muito o reles mortal que sou. Não é só pela beldade magnífica, vai muito além, esse anjo ledo tem algo simplesmente mágico, um poder conquistador irresistível. 
 Os seus negros olhos falam ao coração mais duro, a graciosidade de seu sorriso toca a alma mais distante. Eu nunca fui de crer em histórias sobre personagens mitológicos, pelo menos não era antes de conhecê-la, agora, eu posso afirmar categoricamente que ela é a própria Afrodite personificada. Eu não estou exagerando ao afirmar que ela é a deusa do amor e da beleza, por esse motivo a chamo de anjo ledo, anjo que arrebatou-me a alma com apenas um olhar, e que aprisionou-me o coração com apenas um sorriso.
 Eu sempre ouvi dizer que o amor é forte e arrebatador, e também sempre pensei que já o havia conhecido e o experimentado. Mas… Em um belo dia, esse anjo ledo surgiu no horizonte dos meus olhos, tudo então mudou, percebi que eu ainda não tinha conhecido o verdadeiro amor. Aos poucos o meu coração foi se rendendo a sua beleza, ao brilho intenso do seu olhar, ao seu sorriso cativante, de forma despretensiosa ela foi me conquistando, dia após dia, no início tentei resistir, tentei fugir desse amor, mas confesso que não tive forças, algo dentro de mim dizia que esse era o grande amor da minha vida, e, por mais que eu tentasse impedi-lo, seria simplesmente inútil, nada é mais poderoso que esse amor, não há como fugir dele. Quando estou próximo dela, fico observando-a; na verdade admirando o que ela faz, o jeito dela se sentar e cruzar as pernas, o jeito como ela arruma os cabelos, aquele olhar de canto de olho, os sorrisos em momentos de descontração, o jeito charmoso e sexy de andar, a sonoridade da sua voz, enfim, tudo nela é maravilhoso. Quando me atenho a estas cenas do nosso cotidiano, confesso que choro por dentro, isso mesmo, derramou rios de lágrimas na minha alma, até quase me afogar em um descontrolado desejo de abraçá-la e beijá-la, de tocar aquele corpo, de possuí-lo em meus braços, de sugar a seiva virgem daqueles seios, de sentir a maciez de seu sexo. 
 Como é difícil controlar os meus desejos, como é difícil te amar desmesuradamente, como é difícil mirar os teus lábios imaginar os teus beijos sabendo que não está no alcance desse pobre mortal, não posso desfrutar das delícias que se esconde nestes pequenos lábios, neste corpo nu, esse é, e sempre será o meu eterno desejo, impossível desejo. Amar o anjo ledo não fazia parte dos meus planos, mas o destino quis que acontecesse, e quer saber de uma verdade; foi a melhor coisa que já me aconteceu, este divino sentimento me renova a mocidade todos os dias, a magnífica e glorificada beleza do anjo ledo me revigora.

 Os dias foram se arrastando no palco da vida, e sem tê-la ao meu lado, os dias não têm sentido, se arrastão lenta e dolorosamente. Enquanto no mais profundo da minha alma a saudade flagelava o peito em chagas incuráveis, dói muito saber que nunca a terei, dói ter tanto amor dentro do peito e não poder 
dividi-lo com ela.
 Dias depois vieram os sonhos, como se fosse uma forma de castigo imposta a mim, quero lhes falar sobre esses meus sonhos, pelo menos um deles, se eu fosse contextualizar a todos, certamente daria um livro enorme. Vou lhes narrar o que mais mexeu comigo, digo isso pela 
forma como ele pareceu-me real, tanto que chorei ao despertar, eu queria que aquele sonho fosse eterno. 
 O sonho deu-se da seguinte maneira:
 “Era noite, e estávamos em um quarto muito bonito por sinal, mas não era quarto de hotel, nele havia uma cama enorme e redonda, havia também um espelho no teto, enorme, eu estava deitado totalmente nu, quando ela entrou de repente. O seu perfume tomou todo o ambiente, quase enlouqueci, aquele corpo nu, os seios redondos, pele morena, mamilos endurecidos, a pele brilhante, sua intimidade como a flor de açucena, úmida, pedindo que eu a possuísse. Uma música tocava baixinho,  então ela se aproximou, eu senti o calor daquele corpo juvenil, e aqueles lábios de mel tocaram os meus em ardentes e descontrolados beijos, e desceu até meu sexo, degustando toda minha rigidez. As minhas peregrinas mãos tocaram cada centímetro daquele corpo, sentindo aqueles mamilos vermelhos, endurecidos, esfregando-se em mim, a umidade latejando em meu sexo, o espelho no teto refletindo a sua nudez, nossos corpos suados, ela por cima de mim, nossos corações acelerados. Foi um sonho delicioso, ela gemia, pedia mais, com força, até chegarmos ao ápice, ela enlouquecia, eu também, foi incrível, parecia real."

 Ainda agora consigo sentir o sabor de seus lábios, o meu corpo inflama só em lembrar-se do sonho; depois de despertar chorei de tristeza por ser apenas um sonho, um desvario da minha imaginação enlouquecendo. 
 Eu te amo anjo ledo, com todas as forças do meu coração, mesmo sabendo que você nunca será minha, ainda sim te desejo, sou um reles mortal, indigno de possuí-la, divino ser dos meus sonhos noturnos. Permita-me falar um pouco mais de você, o quanto admiro sua beleza. O que eu mais gosto em você é esse seu jeito inocente e despreocupado, é o seu jeito de seduzir sem saber que está seduzindo, a sua inocência angelical me faz esquecer que vivemos em um mundo caótico e preconceituoso, amo você. Os teus ideais tão bem definidos, a tua candura, o teu jeito de encantar até mesmo as flores, te amo anjo ledo. Seu corpo, se me permite dizer, é perfeito; esplendoroso. Os negros olhos conseguem penetrar no mais profundo da minha alma, os teus pequenos lábios tão bem desenhados arrancam da lira do amor os suspiros e as notas mais ardentes, os seus belos seios, me faz perder em mil imaginações e desejos de 
amor. As tuas pernas formosas tão bem desenhadas, tem no diâmetro a perfeição do pecado, não estou exagerando quando digo que na face desta terra, não há beleza maior, me tornei poeta somente para ser seu escravo, um servo fiel desse platônico amor.
 Um pedido ousado tem a lhe fazer anjo ledo de meus sonhos de amor, embora eu saiba que tal pedido é impossível; mesmo assim eu te suplico.
“Desnuda-te da sua divindade, renegue o seu alto trono, desfaça de suas asas, e torna-te mortal tal como sou, despe de sua glória e faça parte desse mundo mortal e pecador, meu coração já é teu, permita que o seu coração, nem que seja por um minuto apenas, seja meu também. Permita que os meus lábios tenham os teus beijos, e os meus braços os teus abraços, nem que seja por um minuto apenas, basta esse minuto para que tudo se torne eterno.
               
                                *****
        

“É difícil explicar as coisas do coração, quando a razão está dizendo que é loucura; da mesma forma, é impossível de explicar a razão, quando o coração diz que é loucura, uma se opõe a outra.”





 Eu sou apenas um poeta solitário, sem destino certo, tendo como tesouro apenas as palavras e a disposição em lhes contar mais esses pormenores.  Talvez eu seja um louco, talvez cada leitor me julgue como louco, seja como for, de certa forma talvez eu seja mesmo insano, e aceito tal sentença. Eu já lhes contei sobre certo anjo ledo que surgiu em minha vida, assim de repente, sem avisar ela surgiu e sem piedade ela enlouqueceu-me. Desde então, do momento em que meus olhos viram aqueles belos olhos brilhantes, minha vida virou do avesso.
 O amor foi crescendo dentro do meu peito, crescendo como uma erva, envenenou o meu coração, tomou a minha alma, escureceu a minha razão. O que vou lhes contar me sobreveio pouco depois daqueles primeiros dias, o anjo ledo que se mostrava oculta e inacessível, respondeu aos meus anseios e aos meus pedidos.
 Era uma bela tarde de domingo, primavera, as flores desfilavam toda a sua beleza no jardim próximo a minha residência. Na tarde daquele domingo eu resolvi caminhar, buscar novos ares, sentir o perfume de outras flores em um jardim mais próximo, levantei-me de onde estava, e lentamente fui à outra praça. Perdoe-me, mas não me sinto à vontade para lhes revelar os nomes dos locais e onde os fatos se passaram. Lá estava este poeta, no ofício de sua labuta, buscando no âmago do coração a inspiração de cada verso. Desde que comecei a escrever, sempre risquei meus textos e poemas em um modesto moleskine, somente depois que os passo para a máquina de escrever, isso antes do advento da modernidade, agora existem os computadores, essas maravilhas da modernidade, que na verdade são máquinas de escrever glorificadas, mas o meu processo criativo segue sempre a mesma sequência. Naquela manhã, uma inspiração inesperada tomou meu coração, a minha cabeça estava cheia de palavras de amor, o motivo, - foi certo sonho com o anjo ledo -, seguido de uma mensagem, ardente mensagem de amor. Ela havia correspondido, e respondia positivamente, meu coração parecia explodir dentro do peito.
 Cheguei a tal praça, silêncio, poucos transeuntes passavam ali, no pensamento, o sabor do sonho, o sabor daqueles lábios de mel na memória, o sexo ardente, queimando a pele como fogo, a lembrança daquela mensagem, o sabor do pecado estava ao alcance dos meus lábios, a minha razão conflitava com o meu coração, a razão dizia que não, o coração dizia que sim. Eu não sabia a quem ouvir, eu desejava e muito o anjo ledo, mas era um amor proibido, impossível, mas que se configurava possível. Minha idade, minha posição social, meus compromissos políticos, tudo se opunha a esse amor, mas o meu coração, que por tanto tempo a desejava, me dominava naquele momento. Sentado no banco da praça, eu comecei a rabiscar algumas palavras, era a forma que eu encontrava para descarregar o excesso do sentimento em mim.

Eis aí, o poema que fiz naquele dia.
Ele reflete bem o meu desespero, a minha angústia, o poema fala por si só.

ODE AO AMOR ENLOUQUECIDO.

O amor ainda existe lá dentro do peito,
O amor ainda é muito forte lá dentro do peito,
Este sentimento imensurável dentro de mim,
Eu, que pensei, que este sentimento estava adormecido,
Eu que o julguei deveras esquecido,
E de repente, bastaram as tuas palavras,
De repente a sonoridade da sua voz surgiu,
Penetrou no mais profundo de mim,
E este amor prisioneiro e traiçoeiro,
Se revelou novamente me causando medo.




Este amor que no passado trouxe devastação,
Este amor que no passado fez-me desfalecer,
Este amor que arrancou de meus olhos todas as lágrimas,
Que fez de mim este poeta solitário e esquecido,
Que fez de mim escárnio de meus próprios versos,
Que fez em pedaços o meu universo,
Amor com a qual sonhei noites inteiras,
Amor que machucou a minha alma inteira,
Amor que fez em pedaços o meu coração,
Amor que eu mesmo criei.




Com muitas dificuldades e infindas lutas,
Eu o havia aprisionado no calabouço da solidão,
Eu o tranquei e joguei as chaves fora,
Era um amor perigoso, devastador,
Um amor tão forte quanto o aço,
Um amor tão forte quanto a morte,
Um amor que fez de mim um escravo,
Eu finalmente o aprisionei, joguei as chaves fora,
Então fechei os meus olhos e dei as costas para a prisão,
Eu fui embora sem querer ir, assim foi,
Eu que pensei que tudo estava resolvido.




Mas na última noite ,entretanto,
Quando sem que eu percebesse,
Eu me aproximei demais daquele calabouço,
Entre as grades de ferro, eu vi o amor sem vestes,
Aquele mesmo amor que devastou-me por inteiro,
Aquele amor que sempre fez de mim prisioneiro,
Aquele amor… Desfilava sua nudez,
Pronunciou do profundo das sombras as suas palavras despidas e devassas,
Então o que eu não imaginava aconteceu,
As lembranças retornam como fogo na memória.




Nesta última noite ,entretanto,
Foi que eu percebi o meu erro do passado,
Eu tranquei aquele amor em grades de ferro,
Eu havia jogado todas as chaves fora
Para certificar que ele nunca sairia dali,
Mas cometi o pior de todos os erros,
Junto à esse amor prisioneiro,
Eu também tranquei o meu coração,
Eu não havia percebido que o amor o tomou para si,
E o levou ocultamente meu coração calabouço adentro,
A verdade é que eu me tranquei naquela prisão.




Hoje… Eu já não sei o que fazer,
Talvez eu enlouqueça com esse amor,
Talvez eu enlouqueça de tanto te amar,
O que será daqui para frente já não sei,
Mas aquelas íntimas palavras,
Pronunciadas no fogo da paixão,
Revelou o que eu sempre fui para este amor,
Eu sempre serei…
Um eterno escravo de teu corpo nu.




 Meu coração estava enlouquecido, morrendo de amor pelo anjo lendo, um abismo que eu mesmo criei para mim. E de repente, lá estava ela, ao longe, passou tranqüilamente, eu a vi, ela não me viu. É sempre assim, ela me seduz, me enfeitiça, me enlouquece, e depois… Depois fingi não me conhecer.
 Essa situação está me enlouquecendo, meu coração está envenenado, eu quero aquele amor proibido, àquele corpo nu proibido, àqueles seios selvagens proibidos, mas não devo, mas não posso... Certa vez, quando ela estava na minha mansão, em uma raríssima ocasião em que ficamos sozinhos, algo de diferente aconteceu. A princípio ela estava quieta, não queria conversa, eu a respeitei, eu não sei explicar como, mas iniciamos um curto diálogo e a certa altura, o diálogo foi se prolongando, ela contava-me de seus sonhos, de suas aventuras como atriz, eu, apenas escutava, bebia do brilho de seus olhos, da famosidade daquela face. Mas o diálogo partiu para um terreno perigoso, assuntos e fatos ardentes, eu senti nos olhos dela um descontrolado desejo por mim, e não suportando mais, cedi a pressão do coração. Nos beijamos, fizemos amor naquele dia, beijei sua intimidade pulsante, minha embriaguez foi da sua beleza, perdoe-me por não lhes dar tantos detalhes, lembrar daquele dia é difícil, escrever os detalhes da nossa noite de amor é demais para mim.
 Tempos depois ela enviou-me uma mensagem, que ao ler petrificou minha alma. A mensagem era curta e dizia o seguinte. "Estou grávida, e agora, o que faremos? Papai está desconfiado". Aquelas palavras foram como facas no meu coração, eu, político renomado, homem conhecido de todos, havia engravidado a filha menor de idade da minha empregada. Eu não sabia o que fazer, e estava completamente desesperado. Para não ruir diante da sociedade, fiz o que não deveria fazer, o que eu reprovo em mim mesmo, eu fugi, abandonei Brasília, identidades falsas, grana alta no bolso, fim de mandato, início de uma vida de riquezas. Eu vivo solitário, em uma mansão, talvez agora os senhores compreendam o motivo que não lhes dei tantos detalhes em meus relatos. Escrever foi a forma que encontrei de aliviar o peso da alma, eu recorro a isso diariamente. Ainda há coisas a contar-lhes, pormenores de toda essa, 'história', detalhes que talvez os senhores desejam saber, e quem sabe neste momento estão se perguntando, "Quem é o meu filho". Eu não prometo nada… Mas quem sabe em breve, eu lhes conte mais algumas coisas referentes a minha desastrosa vida.

Ainda te amo anjo ledo, mesmo distante e covarde.

Seu… Sempre seu, Conde Olafec Orcam.




segunda-feira, 15 de julho de 2019

NOVELA. 2° CAPÍTULO.


                 OS CRIMES DE HÉRCULES.

                  2° CAPÍTULO.


 A cidade de Mor ficou aterrorizada pelo o que havia acontecido ao prefeito Diomedes, os vereadores junto ao vice, Dr. Minos Garrett, decretou três dias de luto oficial. Mas ninguém parecia importar-se com a morte do prefeito. Poucas pessoas foram ao enterro no dia seguinte, somente alguns familiares e a esposa. 
 Os moradores de Mor, de certa forma, sentiam-se aliviados pela morte do tirano, mas os políticos, ah meu amigo, esses temiam que o assassino fosse algum inimigo do prefeito, eles bem sabiam que o vice-prefeito conhecia e participava dos roubos, propinas, sujeiras da pesada, bem como também muitos dos vereadores - diga-se de passagem, uma Corja de corruptos que odeio mais que tudo - Na minha delegacia - me reservava ao direito de assim nomeá-los
 Eu receberia você e sua equipe na  manhã seguinte, solicitei a ajuda dos senhores para me auxiliaram nas investigações.
 A princípio eu dependia de uma autorização para poder entrar na casa da vítima - a casa localizava-se fazenda da vítima - era necessário adentrar na fazenda e prosseguir com as investigações, a esposa não quis ficar na fazenda, mudou-se sei lá para onde, de forma que, eu não poderia fazer muitas coisas sem essa autorização, uma vez que o advogado da família, a pedido da viúva, impediu-me de entrar na fazenda, mulher miserável. 
 Uma análise preliminar na cena do crime era de suma importância para o caso, entretanto, era preciso a bendita autorização - Até depois de morto Diomedes atrapalhava. Procurei fazer o interrogatório de alguns funcionários da prefeitura. Fiquei muito preocupado na época, eu tinha mania de coçar a cabeça e fumar vários cigarros quando estava nervoso - vejo agora a consequência do meu vício, 'câncer'. A tensão pelo que haveria de acontecer era grande. Confesso que não compreendo em como os cavalos agiram daquela forma, algo que nunca vi na vida, aquilo me deixou de certa forma assustado, procurei, na medida do possível não demonstrar que estava ansioso. Diante do histórico do prefeito, achei o ocorrido merecido.




 No dia seguinte levantei às cinco horas da manhã, acordei mais cedo do que de costume. Despertei com uma tremenda dor de cabeça. Fui até a cozinha, tomei uma xícara de café com leite, comi algumas bolachas, depois fui direto para a pequena rodoviária de Mor para esperar você e sua equipe, que chegariam naquela manhã. A rodoviária de Mor era o ponto de encontro que eu havia marcado por telefone com você. Às sete horas em ponto um carro preto estacionou bem de frente da minha viatura, eu estava do lado de fora, cigarro na boca, olhando para o nada. Os vidros escuros do seu carro abaixou-se lentamente, um rapaz moreno e careca colocou a cabeça do lado de fora, de pronto você nem soube que eu era o delegado, pensou que eu fosse um policial fazendo sua ronda. 
"Olá tudo bem" Você disse ele em tom muito cordial - "bom dia policial, estamos procurando o delegado Apolo, marcamos com ele aqui".
"Bom dia senhores", eu sou o delegado Apolo". 
Confesso que te imaginei de outra maneira, para minha surpresa, você era alto, moreno, muito magro, usando um horrível óculos escuros.
"Óoo Delegado!Perdoe-me… Meu nome é Abderis, o senhor solicitou a nossa ajuda para solucionar um caso, é isso mesmo? Desculpe-nos por confundi-lo, imaginamos que fosse um policial fazendo sua ronda, na capital os delegados não costumam sair uniformizados, geralmente eles saem de terno e gravata". "Tudo bem detetive, eu disse, cidade pequena é assim mesmo, sem dizer que não suporto gravata e nem nada dessas frescuras, tenho a sensação de estar me enforcando. Me diga uma coisa, veio só vocês três? Pensei que fossem mandar mais pessoas". "Por enquanto é só nós três, você respondeu, dependendo de como for o andamento do caso pedirei ajuda, imagino que não será necessário, resolvemos rápido nossos casos". Gostei da sua confiança. 
"Tudo bem, sejam bem vindos à cidade de Mor detetive Abderis, vamos então, nós iremos direto para delegacia, tudo bem para os senhores? É só me seguirem, aluguei uma pequena casa próxima à delegacia para vocês ficarem, depois lhes mostro". 
Seguimos para a delegacia, que ficava a poucos quarteirões da rodoviária onde estávamos, embora bem pequena, a minha delegacia era muito organizada e bem cuidada. Eu sempre tive mania de perfeccionismo, gosto, até ao dia de hoje, de tudo no seu devido lugar. Ao chegarmos a delegacia ficamos na sala de espera, os detetives sentaram-se no pequeno sofá que havia ali, cumprimentei aos outros que te acompanhava, trocamos algumas palavras, tomamos café, então lhes contei todo o ocorrido. Mostrei como o prefeito havia sido morto, contei-lhes também da sua má índole e da elite política da cidade e da antipatia do povo para com eles, de forma que, a lista de suspeitos, a meu ver, poderia ser gigantesca. 
"Vamos aos fatos - Comecei o assunto - o prefeito era o fazendeiro mais rico de toda a região, ele criava e comercializava cavalos selvagens, a maioria importados, na verdade, os cavalos eram uma fachada para lavar dinheiro. Inúmeras pessoas trabalhavam com ele, imagino que poderíamos restringir à lista de suspeitos as pessoas que trabalhavam diretamente na fazenda, pessoas ligadas às compras dos cavalos e etc". "Concordo com o senhor, você disse, mas primeiro teremos que ir a cena do crime e colher possíveis provas, digitais, evidências… Trouxemos alguns equipamentos, coisas simples, eu também gostaria de uma amostra de sangue desses cavalos, para uma melhor análise, é muito estranho à maneira como eles agiram, é estranho essa agitação toda". "Só temos um probleminha, respondi já desanimado, temos que esperar a ordem judicial para podermos adentrar na fazenda, imagino que daqui a algumas horas ela já esteja em minhas mãos". "Como assim? Ordem judicial, eu não entendi". "Não ligue detetive, vá se acostumando, coisas do advogado dele com o juiz, aos poucos você vai entender o motivo das coisas não fluir por aqui, essa corja de corruptos chega dar nojo". 
Vocês riram e fizeram piadas. 
"Muito bem delegado, fazer o que, vou precisar da lista de funcionários que trabalhavam na fazenda, especificamente os que trabalhavam naquele estábulo alimentando os cavalos". "Tudo bem, sem problemas, vou providenciar o quanto antes". 
Eu que pensei que demoraria… Não demorou nem meia hora e um dos policiais chegou com a ordem liberando a entrada na fazenda e na casa do prefeito. Eu você e seus meninos saímos na mesma hora, fomos direto para a fazenda do maldito, que ficava a poucos quilômetros da delegacia, eu fui em seu bonito carro preto. Quando chegamos à fazenda não encontramos ninguém na entrada - era de se esperar - a porteira estava aberta, você logo estranhou aquilo,entramos mesmo assim. 
 Na casa do prefeito não havia ninguém, apenas alguns funcionários que moravam e trabalhavam ali, eu conduzi o senhor até o estábulo, o local onde o prefeito foi encontrado, que por sinal ainda estava sujo de sangue, enquanto você tentava colher possíveis digitais na cena do crime, pedi a um dos empregados que me levasse ao local onde os cavalos foram enterrados. O empregado, um senhor já de idade, conduziu-me um pouco mais abaixo do estábulo, os cavalos foram enterrados no começo de uma mata fechada, com uma pá e uma enxada, começamos a cavar, a cova estava rasa, horrível na verdade, uma merda, rapidamente parte do corpo dos animais estavam expostos. Naquele momento os seus colegas se aproximaram, conversavam entre eles.
"Conseguiu alguma coisa dentro do estábulo? Perguntou um deles para o outro. "Nada, nem uma digital, o nosso assassino sabe o que faz, não é nenhum amador". Você prontificou a responder. 
"Novidades aí delegado"? "Caramba, a coisa está se complicando, bom… Aqui está os tais cavalos que lhes falei é só colher uma amostra do sangue". Mostrei-lhe o defunto. No momento em que um dos investigadores se abaixou e começou a retirar amostras do animal morto, de longe, no meio da mata, você percebeu algo diferente, que olhar de águia o seu. Você apontou para mata chamando a atenção de todos nós, ficamos parados por uns minutos, silêncio e apreensão, olhar  fixo na mata tentando enxergar algo". "Delegado, você disse quase a me puxar pela camisa, acho que tem alguém na mata, melhor irmos lá vermos, vejam como os galhos naquela parte ali estão quebrados. E bem lá adiante parece ter uma clareira, e se estou enxergando bem, parece haver alguma coisa lá". "Na mata? Como? Você só pode está de gozação". Eu disse. "Não estou, olhe só, veja você mesmo". "É sério isso, eu não vejo nada, deve ser impressão sua Abderis". 
Eu não tinha visto nada mesmo. 
"É… Pode até ser, mas parece-me que tem alguém deitado lá, ou qualquer coisa assim. Melhor conferirmos".
 Caminhamos lentamente mata adentro, um local extremamente sujo, entretanto, havia muitos galhos amassados e quebrados, como se houvesse arrastado alguém por ali, caminhamos um pouco até que chegamos a parte da mata que estava limpa, seguimos o caminho amassado no mato. Qual não foi à surpresa, bem diante dos nossos olhos, estava riscado no chão - muito limpo por sinal - um tipo de labirinto feito aparentemente por alguma coisa pontuda, considerando o chão de terra duro, deve ser algo de metal. Bem no centro do mesmo havia um corpo deitado com uma caveira do crânio de um boi com o chifre cravado no peito de uma possível vítima. O labirinto era quadrado, mais ou menos de uns vinte por vinte. Adiantei-me, e quis passar por cima do desenho do labirinto, você me impediu, lembra-se? "Não.. Espere um pouco Apolo, você disse colocando as mãos no meu peito, o assassino desenhou um labirinto, não o fez de propósito, melhor seguirmos pelo labirinto até chegar ao corpo, percebe-se que não estamos lidando com qualquer um, aqui pode ter provas valiosas aqui, quero preservá-las ao máximo se possível.
"Sou péssimo com labirintos, cruzadinhas, sudoko e essas coisas, e a propósito, só para registro, quem é que perde tempo fazendo uma merda dessas? Vai você na frente que eu te sigo Abderis".
"Tudo bem Apolo, tudo bem, venham, e não pise nas linhas".
 Lentamente você eu e outro investigador seguimos, lentos, decifrando o caminho do desenho até conseguirmos chegar no corpo, que ficou posicionado no meio do círculo no labirinto. Confesso que demoramos um pouco, era um desenho enorme, mas conseguimos, ao ver a vítima, ainda de terno, levei um tremendo susto que me fez bambear as pernas. 
"Você o conhece delegado? "Meu Deus do céu… Não pode ser, filho da… É o vice-prefeito da cidade, Dr. Minos".
"O que é isso no crânio do animal? E quem teria o trabalho de desenhar algo assim tão grande, complexo e exato"?
"Não tenho a mínima idéia, mas para fazer isso, teve tempo disponível, não se faz uma coisas dessas do dia para noite", respondi, mas eis um grande mistério a frente". " Parece um diamante cravado no crânio, ou qualquer coisa assim, espere um pouco… Vou tirar algumas fotos de todo o local primeiro". "Qual o motivo de alguém cravar o crânio de um boi no peito da sua vítima com um diamante nele, isso é muito estranho, sem dizer no labirinto… Caramba, agora que não estou entendendo mais nada, tenho vinte e cinco anos de profissão e nunca vi nada parecido". "Tão pouco eu delegado… Tão pouco eu, você respondeu, isso não faz nenhum sentido, de uma coisa eu sei, temos um assassino em série a solto, muito inteligente por sinal, e, que parece conhecer muito bem o que faz". "Vou ligar para a funerária vir buscar o corpo para o necrotério". "Espera um pouco delegado, espere… Tem mais coisas aqui, veja só, na testa dele, riscado bem de leve, é o mesmo nome que tínhamos na primeira vítima, do mesmo jeito que você nos falou… Lembra-se". "Claro que lembro. Agora é, Hércules e o número dois em algarismo romano". "O filho da mãe além de pôr o seu nome na vítima está enumerando-as em algarismos romanos". "Você havia dito que pareceu ver alguém aqui, será o assassino? Será que ele ainda está por perto"? Eu duvido, mas é melhor pedir aos teus policiais que dêem uma varredura no local". "Vou fazer isso".
 Pedi aos policiais que estavam no local para fazerem isso, o policial Ariel liderou tudo, ficaram horas na mata, e nada encontraram. Por fim, pedi para que deixassem de lado a procura, dei ordem a Ariel que reforçasse as rondas na cidade. 
 A nova morte repercutiu ainda mais forte na cidade, os moradores estavam muito assustados, quase já não saia de suas casas, o medo se instalou na câmara de vereadores da cidade, visto que as duas vítimas eram políticos corruptos. E de certa forma, todos tinham uma ligação com o prefeito e o seu vice. Agora eram duas mortes, e nada ainda havia sido descoberto daquele misterioso assassino que se intitulava 'Hércules'. Aquele caso começava a ficar interessante.

        

terça-feira, 2 de julho de 2019

NOVELA. 1° CAPÍTULO.



NOTA INICIAL.




    
 Dias antes de me mudar de Rio das Pedras, alguém desconhecido deixou um embrulho na porta da minha casa, não sei dizer em que horário foi, pela manhã que o notei. Estava ao lado do jardim, a princípio, desconfiei do embrulho, eu não havia comprado nada que fosse entregue pelos correios, peguei o misterioso pacote, relutei em não abri-lo, embora ele estivesse devidamente arrumado, não havia o endereço de origem, era apenas o meu endereço. Relutante ao abri-lo deparei-me com um calhamaço de papéis datilografados, neles, uma fotografia de um senhor, de idade já bem avançada, e uma história, o que estava escrito naquelas inúmeras folhas desrespeita ao meu passado, o meu último trabalho como investigador na então cidade interiorana de Mor - Lugar onde trabalhei há muitos anos atrás. 
 O autor desse calhamaço - Apolo Lombardi Lucano - era o então delegado da cidade naquela ocasião, trabalhamos juntos naquele ano.
 O caso aconteceu há quase vinte anos, se não falha a memória. Depois de ler e reler os papéis escritos por Apolo, eles revelaram ao final, fatos importantíssimos de certo caso, que, na época nunca foram desvendados. Por isso resolvi publicá-los.
          ( Abderis Franzoni. )












Apontamentos…
( Apolo Lombardi Lucano )





 Como tudo começou? Bem… Vamos por partes amigo, tenha calma, irei lhe contar tudo. Mas antes, permita-me algumas breves considerações desse que vos escreve.  
 Uma vida tranquila? 
 Talvez… 
 Uma vida pacata e sem problemas?
 Quem sabe. 
 Afinal, quem não deseja uma vida tranquila, à beira de um lago, vara de pescar, o silêncio da natureza. 
 Certo que todos desejam, eu também desejei, é isso que todos almejam, inclusive você. 
 Desde cedo, ainda na época da escola, menino, eu sempre evitei os conflitos e as brigas. Defino-me, portanto, como alguém reservado e de poucas palavras, porém, sempre fui muito atento e observador, dom esse que me seria extremamente útil no futuro, como de fato foi. Meus amigos sempre foram poucos, na verdade, era apenas um, o José. Eu o conheci quando tinha dez anos, em uma escola que ficava na pequena fazenda dos Alcântara, nas proximidades de Mor, assim como eu, José também era reservado e não gostava nem um pouco de conversar e de fazer amizades, quando estávamos juntos - era diferente - nos comunicávamos a nossa maneira, do nosso jeito, embora estranho, confesso, era uma comunicação quase unicamente gestual, assim   nos dávamos muito bem. 
 Bons tempos aqueles, se fosse possível voltar a um determinado momento no passado, certamente eu escolheria aquele momento da minha infância, aqueles foram os meus melhores dias - era feliz e não sabia. 
 A vida tem dessas coisas caro amigo, não sabemos aproveitar os bons momentos que ela nos oferece, somente depois que eles passam é que lamentamos e choramos o que foi desperdiçado. Assim como é a sombra em um dia de sol, assim é o tempo, foi o tempo, e sempre será o tempo, fugaz. Hoje, tantos anos depois, o que me resta são apenas as boas lembranças que ainda vagam solitárias pela minha falha memória.
 Quando jovem, eu queria ser artista plástico, logo percebi que não tinha o menor talento. Tentei de tudo um pouco, e também trabalhei em quase tudo. Quando eu completei vinte anos, consegui entrar para a polícia, rapaz forte, alto, boa aparência, inteligente, tudo parecia contribuir para que eu entrasse para a polícia, mesmo contrariando demais opiniões, segui em frente, havia um objetivo naquela carreira que se iniciava.  
 No último dia de novembro de… Não me lembro a data. Começava a minha carreira como delegado de polícia, a cidade que eu trabalharia, a primeira e única até ao dia em que saí, foi a cidade de Mor, ao extremo norte de Minas Gerais. Eu nunca imaginei que nesta cidade tão pequena, tão pacata, que construiria a minha carreira como delegado e alcançasse o meu principal objetivo, foi em Mor, que com esforço e muito suor, lágrimas e sangue, principalmente sangue, que construí a minha carreira policial.
 Hoje, já velho, faço apenas relembrar minhas memórias nesta última válvula de escape da minha vida, a literatura, vou terminando os meus dias lendo, e, entre uma leitura e outra, resolvi escrever minha própria história, aliás. Uma confissão final. Hoje, preso ao cárcere deste meu corpo moribundo e canceroso, passo o dia cheio de dores, as vezes grito de dor, quando passa a dor, escrevo minhas memórias. 
    Permita-me, caríssimo amigo, que eu lhe conte um pouco do que não lhe foi dito. Vou lhe confidenciar a verdade de como foi o nosso último caso em Mor, o pior e o maior de todos, foi com este caso que encerrei a minha carreira profissional, alcançando o meu objetivo, prendendo o criminoso mais perigoso de todos os tempos. Os crimes que ele cometeu - lembre-se - desafiou a todos nós, os seus métodos incomuns e a sua crueldade eram um desafio para as mentes mais inteligentes - Há de concordar. Tudo levou-nos ao extremo de nosso exercício profissional, em uma caçada angustiante contra alguém extremamente aplicado e perigoso, as baixas surgiram, mas, finalmente, conseguimos prender o assassino, ao olhar de muitos do povo, ele era um herói justiceiro, de outros, apenas um assassino, dos demais, um executor, para a lei, ele era apenas um criminoso e assassino. 
 Tentarei da melhor maneira possível contar-lhe toda a verdade não dita, e de tudo quanto aconteceu naquele fatídico ano, você, caríssimo amigo, talvez fique surpreso, você, estimado amigo, vai estar diante de um final que não consta nos autos policiais, a verdade por detrás dos fatos… Vai te deixar em grande desconforto.

Então… Vamos adiante…





    Os fatos se passaram na pacata cidade de Mor, um lugar que parou no tempo, as casas eram simples e pequenas, boa parte delas foram construídas em madeira, de uma arquitetura de singular beleza. Uma cidade com muito verde e de belas praças, cidade hospitaleira, de um povo alegre e acolhedor, assemelhando-se às casas de certas cidades do interior dos Estados Unidos. 
 Mas o tempo passou, tudo passou.
 Mor contudo, nunca mudou.
 Lembro-me bem do prefeito de Mor, chamava-se Diomedes, era conhecido pela grande criação de cavalos que possuía em sua fazenda, a maioria deles cavalos selvagens, e necessitam de adestramento para depois serem comercializados. Essa prática tornou o prefeito um fazendeiro rico e ambicioso que fazia tudo ao seu alcance para ter o que desejava seus olhos. Todos na cidade de Mor o temia, e, faziam praticamente todos os seus desejos. Contam os mais antigos, que Diomedes matou várias pessoas por dinheiro, abusou de inúmeras empregadas que trabalhou em sua fazenda. Para os moradores ele era um verdadeiro tirano, um déspota, que não respeitava nem a própria mãe, colocando-se sempre acima da lei, porém, ninguém se opunha a ele. 
 A cidade sempre foi governada com mãos de ferro pelo carrasco e corrupto prefeito, e quem ousava desafiá-lo ou ir contra as suas vontades rapidamente desaparecia sem deixar rastros, acreditava-se que ele havia construído um cemitério escondido em sua fazenda, lugar onde, segundo diziam as más línguas, ele enterrava as vítimas assassinados por seus capangas, aqueles que ele considerava os seus inimigos. Contava-se também que ele alimentava os seus cavalos selvagens com partes das suas vítimas misturadas na ração - algo que foge à compreensão humana. 
 Por várias vezes eu tentei conduzir investigações contra ele, buscava conseguir provas que o levasse a cadeia, mas nunca obtive sucesso, o seu poder financeiro e a sua influência política eram obstáculos difíceis de serem vencidos. 
 A sua família era formada de políticos importantes, pai, avô, tios, primos, enfim, todos com cargos na esfera política nacional, alguns inclusive em Brasília. ("Até aos dias de hoje") 
Nunca houve quem o contrariasse, ninguém na cidade tinha coragem de se colocar contra o prefeito, àquele demônio chamado Diomedes teria que prestar contas a Deus, meu avô dizia que nesta terra ninguém que é ruim passa sem punição. 
 A significativa mudança dessa situação teve iniciou em um domingo, no início da primavera - não vou me recordar as datas, perdoe-me - como é costumeiro nas pequenas cidades interioranas - ainda nos tempos atuais - a maioria dos moradores se encontravam na igreja nas manhãs de Domingo, e, não era diferente na pacata cidade de Mor. A maioria das pessoas mais influentes da cidade gostavam de se encontrarem na Matriz e de ouvirem os sermões do padre Jonas, um senhor não muito simpático que não gosta de conversas paralelas durante a sua missa.
  Naquele domingo em questão, o prefeito Diomedes não compareceu à missa, o fato chamou a atenção daqueles que estavam presentes, a minha nem tanto - nunca dei importância a isso -, era do costume do prefeito comparecer às missas de domingo, e pelo fato dele nunca ter faltado desde que assumiu a prefeitura - não que ele fosse o exemplo de religiosidade, sabíamos que era puramente estratégica política para agradar o eleitorado ─ A ausência do prefeito gerou muitos comentários durante a missa do padre Jonas. Audíveis comentários eu diria, e adivinhe caríssimo amigo, de quem foi o primeiro comentário…
"Você viu quem faltou à missa hoje Apolo, é a primeira vez que isso acontece".
( Nós sempre íamos as missas de domingo, eu e minha esposa, assim como a maioria das famílias de Mor, não gostávamos de faltar às missas.)
"E você acha que eu não percebi Armênia, todos estão comentando, aquele crápula deve estar aprontando só pode, mas isso não é da nossa conta Armênia, preste atenção a missa antes que o padre Jonas chame sua atenção". Atrás de onde estávamos sentados, dois moradores comentavam sobre o mesmo assunto.
"Abner, ô Abner… Onde está o prefeito que até agora não apareceu homem? Será que aconteceu alguma coisa, olha, ele nunca falta nas missas do padre Jonas, deve ter acontecido alguma coisa homem".
"Sê besta Roberto. Até parece, vaso ruim não quebra, é mais fácil o capeta mudar para o polo norte do que acontecer algo de ruim com aquele peste de merda, onde já se viu, agora… Você bem que o conhece, já trabalhou na fazenda daquela víbora, não é mesmo... Lembra".
"Verdade né, ô rapaz, e como trabalhei! Dois anos naquela fazenda, e só por eu ter me esquecido de dar ração a um de seus cavalos prediletos ele me mandou embora, vê se pode o miserável nem o tempo de serviço ele me pagou, e ainda me ameaçou quando fui reclamar, pode isso".
"E você ainda se preocupa com uma peste daquelas, faça-me o favor né Roberto".
 Esses comentários que ainda me vagam na memória, surgiam dentro da igreja de todos os cantos, aqui, ali e acolá, a igreja virou em um falatório só, até que, de repente, entrou na igreja à passos largos o policial Josivaldo, 'lembra dele'; que eu tinha designado para ficar de plantão na delegacia... Então, a sua voz ressoou estridente em toda a igreja, àquilo deixou o padre Jonas ainda mais irritado.
"Delegado Apolo… Delegado Apolo… Por favor, delegado Apolo, uma desgraça nos aconteceu". 
 O infeliz fez isso em plena missa, enquanto me procurava na igreja, eu até baixei a cabeça, estava morto de vergonha com toda aquela cena.
"Meu filho o que significa isso - Vociferava o padre de cima do altar     ─ tenha mais respeito com a casa de Deus, onde já se viu, que falta de respeito".
 Admoestava-lhe o padre Jonas com certa irritação no tom da voz, a face avermelhada feito pimentão, olhos quase fechados de raiva. E não era para menos.
"Desculpe seu padre - Insistia Josivaldo - me perdoe mesmo sabe, mais o caso é… De extrema importância, acabaram de encontrar o prefeito Diomedes mortinho em sua fazenda".
 Quando Josivaldo mencionou essas palavras, 'Mortinho em sua fazenda', Eu dei um salto do banco onde estava sentado, coloquei as mãos  na cabeça, não conseguindo acreditar no que estavam ouvindo, a igreja toda virou em um grande alvoroço de vozes e conversas paralelas misturadas a xingamentos e risadas, parecia mais um circo do que uma igreja.
"Quietos todos - Gritava ferozmente o padre Jonas pela segunda vez - isso é assunto para o delegado, silêncio… Por favor, respeitem os umbrais da casa de Deus".
 Na mesma hora levantei-me do lugar onde estava, pedi licença ao padre, sai da igreja, peguei o meu carro e fui direto para a fazenda do prefeito, nem passei na delegacia. Minutos depois, quando cheguei no local do crime, um dos empregados da fazenda conduziu-me ao lugar onde estava o corpo de Diomedes. O corpo do prefeito estava estendido no estábulo dos cavalos, há uns duzentos metros da casa principal, os animais estavam por demais agitados, quando eu vi o corpo do prefeito, ou, o que havia sobrado dele, quase desmaiei de tão terrível que foi a cena diante dos meus olhos, os dois cavalos ainda pisoteavam o corpo de Diomedes, os cavalos só pararam de pisa-lo depois de serem mortos por um dos policiais que estavam comigo, coisa estranha, e nunca antes vista.
"Meu Deus, o que aconteceu aqui? Liguem para o legista, rápido. Depois vamos tirá-lo daqui, e, por favor, mandem chamar um veterinário urgente, tem algo de errado com esses animais". Foi o que disse.
"Isso é coisa do satanás delegado".
"Deixa de ser besta rapaz, que conversa é essa, credo, vira essa boca pra lá".
 Tanto o policial como eu e o empregado da fazenda ficamos em silêncio, apenas gesticulamos negativamente com a cabeça, semblantes assustados. Um detalhe estranho nos chamou a atenção na cena do crime, na testa do prefeito, ou, melhor, no que havia sobrado dela, estava escrito, 'Hércules', e o número 1 em algarismo romano. Cocei a cabeça sem saber o que dizer sobre aquela inscrição, acendi um cigarro, comecei a caminhar de um lado para o outro, eu estava tenso, muito nervoso por sinal, pois há muitos anos que a cidade de Mor não presenciava um crime tão bárbaro como aquele. 
    A notícia havia se espalhado por toda a cidade, e apesar dos moradores estarem assustados com a morte do tirano prefeito, outros não esboçaram nenhum tipo de sentimento ou compaixão. Embora soubessem que havia um perigoso assassino a solta, a população não fazia muito caso. Hércules era o nome do assassino, e era só isso que eu sabia dele, solicitei detetives da capital para ajudar-me no mistério assassinato. No caso, um deles você.







MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

           As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino.      Nos recônditos ...