quarta-feira, 31 de julho de 2019

CONTO 6.


             O CANTO DA CIGARRA.

    "O que vejo, se não o canto da cigarra, esquecida em um galho de árvore, a cigarra canta desvairada em minha janela. Feliz é a cigarra que canta até morrer, seja de dor ou de tristeza; ela apenas canta, e como ela vou cantar também".

 - Fique a vontade para começar a falar senhor Fernandes, estarei gravando tudo.
 - Tudo bem... Eu digo… Assoma-se sobre a minha cabeça um universo de incontáveis espectros fantasmagóricos imaginários. Oriundos de mundos irreais, na penumbra da noite, buscando afugentar o meu precioso pensamento. Mas o que eu sou se não relés aventureiro de águas rasas. Certo é, que de nada adiantará fazer alguma coisa a respeito, sou, aos olhos de todos um fantasma do além. Minha passagem é, no entanto, indiferente, não serei percebido por ninguém, não serei querido de ninguém, devem portanto, considerar-me um caso perdido. Mas... O que é um poeta sem as suas palavras? O que é a poesia sem a sua musa? Há muito venho tentando descrevê-la, revelando de modo oculto a sua terna face entre os versos de meus poemas errantes, não houve ainda quem os percebesse. Talvez ela seja como o luar em noite de tempestade, embora brilhante e suntuoso, o luar fica temporariamente escondido, até  surgir em momento oportuno de sua repentina aparição. Eu, neste meio confuso e enigmático, sou apenas uma sombra esguia, parada de frente a um velho riacho, sentado embaixo de uma frondosa árvore, observando o curso tranquilo das águas. Não que eu realmente esteja diante desse riacho, assim o imagino, como o disse anteriormente, tenho senão à minha frente rude e cruel grades de aço, de uma prisão suja e solitária, esquecida no meio do nada, que me separa do resto da sociedade. A minha história é triste, confusa, amor e ódio, desejos ocultos, paixão desmedida. Todos estes sentimentos perambulam ainda em meu coração, não sei o que eu sou de verdade, o que sei, a única coisa que sei, é que devoto um grandioso amor dentro do peito. As grades me impedem da liberdade física, me impede de caminhar livremente, não podem impedir, entretanto, os meus pensamentos, a minha inspiração. Quero portanto, dizer-lhes alguns pormenores do que ocorreu-me. Imagino que o senhor esteja sedento em saber o motivo que me trouxe a essa carceragem. E vou lhe contar, prometo, pela primeira vez em anos, eu vou lhe contar. A verdade desses fatos nunca foram ditas por mim em nenhum momento desde que fui julgado e preso, mantive-me em completo silêncio até o dia de hoje, até o momento de me reencontrar com as palavras novamente. Meu objetivo é simples, apenas o alívio da minha consciência, quero aliviar o peso que oprime os meus pensamentos, que esmagam o meu coração. Vou tentar na medida do possível, não me alongar muito em descrições desnecessárias, como disse, vou tentar, se vou conseguir eu não sei, minha alma de poeta é inclinada a tal, prometo conter-me e ater-me aos fatos relevantes que me ocorreram naqueles dias, e, que me trouxeram a este lugar, obrigando-me a um trágico fim sem volta.
 Corria o ano de noventa e nove, se não falha a memória, estávamos no mês de novembro, e desde o primeiro dia daquele mês ao penúltimo dia, eu estava por demais atarefado em um compromisso grandioso, aproximava-se a data de lançamento do meu último livro, cujo título era: "Dias de intenso amor" Eu estava aflito, não via a hora de chegar a data do lançamento, que seria no dia vinte e nove daquele mês. Como poeta, sempre cultivei uma profunda admiração pela beleza, não importa a forma como ela se apresentava a mim, sobre isso não resta dúvidas - devotado à beleza, a ela tenho por religião da minha alma, sendo assim, podes imaginar que meus versos e minha prosa falam exclusivamente do amor e da beleza, em principal a beleza única que somente as mulheres possuem. Entretanto, diferente do que muitos imaginam, eu não sou do tipo mulherengo, nada disso, embora profundo admirador da beleza das mulheres, a que deteve o meu coração antes mesmos dessas grades de aço, é uma única, um anjo ledo, que me aprisionou em seu olhar desde minha mocidade. Adianto-lhe, eu não sou o responsável pelo crime que resultou na morte desta que é, nada menos que a Afrodite personificada, confesso sim, o meu amor demasiadamente desmedido por ela, mas tenho portanto, que sou inocente. Eu apenas estava no local errado, na hora errada, e no afã de tentar salvar a vida da minha amada, terminei por transformar-me no principal acusado do seu crime. Um dia antes do lançamento do meu livro, eu fui a casa da bela Afrodite, por coincidência era mesmo esse o nome dela, maravilhosa coincidência. Na ocasião, uma tarde quente de sexta-feira. A casa da bela moça ficava a dez minutos da minha, em um bairro afastado, quase na saída da nossa cidade. Ao chegar, eu notei que o pequeno portão de madeira da sua casa estava aberto, não somente aberto, mas ligeiramente caído para um dos lados, como se alguém o tivesse forçado; embora estranho, entrei mesmo assim; notei também que a porta da sala da sua casa estava semi-aberta, chamei por Afrodite, uma, duas, três, quatro vezes, ela não atendeu. Resolvi entrar para ver o que havia acontecido, na sala de visitas não havia nada de anormal, tudo estava em seu devido lugar, passei por um estreito corredor que dava acesso a cozinha da casa, quando me aproximei, ouvi um gemido agudo, quase inaudível, vindo do outro lado da mureta que separava a cozinha de uma sala de jantar, foi quando deparei-me com a terrível cena a minha frente. A minha amada Afrodite estava caída, com uma faca cravada no peito, o seu sangue espalhado para todos os lados, a faca que havia sido cravada sobre o peito, pulsava a medida das fracas batidas do coração da minha amada. Meu erro, o meu terrível e imperdoável erro, que levou-me a carregar uma culpa que não é minha, foi tentar ajudá-la, uma sucessão de erros cometidos por mim, na falha tentativa de salvar sua frágil vida, acabou por deixar-me todo sujo de sangue, e quando os policiais chegaram na residência, minutos depois da minha chegada, viu-me debruçado sobre o corpo dela, a faca em uma das minhas mãos, eu havia acabado de retirá-la do peito da jovem, do resto não preciso dizer nada, é como fala o adágio popular, "a primeira impressão é a que fica", é a primeira impressão dos policiais a meu respeito foi óbvia; eles haviam pego o assassino no ato do crime. Tentei argumentar, foi em vão cada palavra que disse, o verdadeiro assassino não havia deixado digitais, já as minhas, estavam em vários lugares. A dedução final dos policiais foi de que eu era o responsável pela morte da bela jovem. Noiva de um político importante da cidade, candidato a prefeito. Afrodite estava com um dos meus textos no momento da sua morte, "O canto da cigarra" eu havia presenteado Afrodite uma semana antes com esse texto, ela enamorou-se com o que eu havia escrito, e por ironia do destino, a moça morreu com o meu texto em uma das mãos. A dedução da polícia, induzida pela pressão do noivo na ânsia de achar um culpado, pairavam sobre este poeta desgraçado e descuidado. Essa é a minha versão, a verdadeira versão dos fatos ocorridos naquele dia. Eu não sou o que dizem de mim, eu não a matei por ciúmes, não… Eu sou inocente… por muito evitei do ocorrido, como também evitei a publicação do texto que minha amada lia na hora da sua morte, por insistência deste coração apaixonado que ainda dói, eu tenho por obrigação que terminar essa narrativa inacabada, "o canto da cigarra", que neste momento, é o meu canto, o canto de um amor que transformou-se em dor. Por ironia do destino, vez ou outra, uma cigarra vem pousar na pequena janela da minha cela, e começa a cantar, ela canta sem parar, até morrer, tantas foram que já morreram nesta janela, de tanto ouvi-lás, de vê-las morrer, tomei a coragem de quebrar o silêncio e lhes contar tudo, depois de tanto tempo, de uma fortíssima crise de depressão, os verdadeiros fatos daquele dia… Foram esses doutor Eugénio.
 - Muito bem senhor Fernandes, obrigado, eu consegui algumas provas do verdadeiro assassino, e diante das novas evidências, um novo julgamento foi marcado, será daqui a uma semana. Tenho convicção que conseguiremos… Dessa vez… O canto da cigarra não será de morte, mas de liberdade.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

NOVELA 3° CAPÍTULO.



            3.



 Aqueles malditos jornais fizeram com que o moradores de Mor ficassem aterrorizados pelas recentes mortes. Já os vereadores da cidade de Mor ficaram em desespero total; marcaram com urgência outra sessão extraordinária para poderem empossar o presidente da câmara como o novo prefeito. O medo generalizou, não havia quem não comentasse as recentes mortes. Teorias das mais absurdas surgiam entre os moradores, dando ao misterioso assassino inúmeras identidades e motivos dos mais absurdos e bizarros.
 Lembra-se do quarto do mistério? Eu e sua equipe tivemos que alugar uma sala provisória no centro da cidade, era uma sala bem espaçosa de forma que cuidaríamos melhor do complicado caso que tínhamos em mãos - Você deu a ela esse nome. Fizemos um painel enorme, na ponta superior deste painel fixamos a fotografia do prefeito, um pouco mais abaixo a de seu vice, em ambas uma descrição com detalhes sobre a morte como data e outras descrições referente às vítimas. Naquele dia você ligou para a capital solicitando reforços para a equipe de investigações, e também policiais especializados, de pronto eles o atenderam dentro do possível. Eu estava com as fotos das cenas dos crimes em mãos, e tentava descobrir algo de novo que talvez tivesse passado despercebido. Fiquei tenso, fumei outro cigarro, Hollywood, xícara de café na mesa, era o velho costume de fumar quando se está muito nervoso - até os dias atuais é assim. "Abderis, veja só o que eu encontrei nessas fotos". Eu disse. "Esses desenhos junto às vítimas parecem..."."Desenhos de signos - você respondeu - iguais aos que vemos nos jornais, dê só uma olhada se não são idênticos a de seção de horóscopos do jornal". "Ò se é! Você tem razão, são mesmo desenhos de signos do zodíaco, como não percebemos isso, o da primeira vítima é o símbolo de Áries, já o da segunda vítima é o de Touro, muito estranho… Não me recordo de tê-los visto lá, mas é uma pista interessante e de relevante importância". "Será essa a ordem usada pelo assassino?" Perguntei.
"Possivelmente Apolo, quais eram as datas de nascimento das vítimas?"
"Se não me falha a memória detetive… A data de aniversário do prefeito é doze de Abril, eu acho, não tenho certeza, a do seu vice em vinte e dois de março, essa eu tenho certeza, meu falecido pai fazia aniversário nesta data". "Faz sentido Apolo… Faz sentido, o signo do prefeito é de Áries, conforme a foto, a do seu vice de Touro, o assassino usou um padrão aqui bem específico, sem dizer que ambos eram políticos corruptos, se ele segue essa ordem, os políticos desta cidade correm risco, como você mesmo disse, são todos corruptos, agora o que não entendo, é que teremos que descobrir, é a real motivação dele para fazer isso, não acredito que seja somente pela roubalheira".
"Olha meu amigo, o povo anda dizendo por aí que o assassino é um justiceiro, então, temos um possível justiceiro à solta por aí. Nos últimos anos a nossa cidade se envolveu em diversos escândalos políticos, propinas, compra de votos para aprovação de leis e emendas, e, tantas outras coisas que se eu fosse falar ficaríamos o dia todo. A coisa estava a tal ponto que ficamos a mercê dessa corja. Ao que me parece, alguém está muito determinado aqui".
"É só o que me faltava Apolo, temos que colocar todas essas informações em nosso painel e tentar desvendar esse mistério, se o assassino for mesmo um serial Killer justiceiro, ele seguirá o mesmo padrão para todas as suas vítimas, seria bom se tivéssemos reforço policial, e o mais rápido possível".
"Vou ver o que posso fazer quanto a isso, vou conversar com o Ariel, mas não vá se animando, as coisas por aqui são difíceis, como eu te disse, esses políticos manipulam até os juízes, e tudo quanto você puder imaginar, se eles perceberem que estão ameaçados, fariam de tudo para impedir, mas... Se eles se sentirem ameaçados pelo assassino, certamente que nos procuraram". "Se a nossa teoria estiver correta, a próxima vítima terá o signo de Gêmeos, a data de aniversário de sua próxima vítima deverá ser entre vinte e dois do cinco e vinte e um do seis, correto Apolo". "Corretíssimo, não entendo muito de signos, mas se você está dizendo, então é isso mesmo. Vou providenciar as datas de aniversário de todos os políticos e de algumas pessoas influentes na cidade, quem sabe antecipamos os passos dele".
Aqueles foram nossos primeiros passos significativos no caso.





               ****





    Passaram-se alguns dias desde a última vítima, e, nada de novo havia acontecido. A cidade começava a se acalmar, já não se comentava tanto sobre as mortes - é incrível como as pessoas esquecem das coisas - a equipe de criminalística solicitada por você havia chegado fazia dois dias e já trabalhávamos nos casos. Eu fiz  uma reunião com todos os que haviam chegado da capital colocando-os a par dos fatos ocorridos. A equipe de criminalística era composta de quatro pessoas, e ficariam na cidade de Mor até solucionarem todo o caso. O suposto assassino em nenhuma das duas cenas do crime deixa evidências que revelassem sua verdadeira identidade, como digitais ou outras pistas, os enigmas eram as únicas coisas em evidência que tínhamos, como se o assassino quisesse brincar com o departamento de política. ( Se naquele tempo vocês tivessem as tecnologias disponíveis hoje, sua conclusão e progresso seria óbvia )
 A câmara dos vereadores e a prefeitura foram reforçadas com um novo efetivo policial, como eu havia previsto, o novo prefeito da cidade solicitou guarda pessoal para ele e toda a sua família, tudo parecia bem, os cidadãos de Mor sentiam-se mais seguros com os novos policiais nas ruas. Na sala dos mistérios a equipe trabalhava no intuito de descobrir quem era o misterioso assassino, eu havia feito um pedido junto ao juiz, na verdade, uma autorização para entrarmos novamente na casa da primeira vítima. Enquanto isso, os detetives tentavam descobrir algo de novo. "Já temos em mãos as datas de aniversários de todos os políticos e de algumas pessoas influentes de toda a cidade, isso nos possibilita focar melhor o caso, alguns já estão sobre proteção policial, duvido que esse maluco tente alguma coisa". Disse um dos seus investigadores. "Só não entendo o motivo do assassino se denominar pelo nome de Hércules, Apolo disse que não conhece ninguém aqui com esse nome". Argumentava outro rapaz da equipe. "Não sei te responder, mas é o que descobriremos, eu pedi a autorização para que pudéssemos entrar na casa do antigo prefeito, nossa primeira vítima, a casa fica na sua fazenda, vamos ver se descobrimos alguma coisa por lá". Você disse a equipe de criminalística. 
 Naquele momento em que conversávamos um dos meus policiais entrou na sala quase sem fôlego, a voz rouca quase não saiu, o seu semblante assustado deixou todos apreensivos e logo veio a pergunta.
"O que foi que aconteceu policial? Que cara é essa, pelo amor de Deus, diga logo o que aconteceu?" Você perguntou. "Fui à casa do advogado do prefeito, Dr. Busiris, conforme vocês pediram pegar a autorização para adentrar na fazenda, teríamos que negociar isso com ele. Quando lá cheguei, a porta estava aberta, não havia ninguém, os vizinhos disseram que há dois dias não o se vê ninguém entrar ou sair da casa. Entrei para dar uma olhada, e realmente não tem ninguém, está tudo arrumado, sem nenhum sinal de arrombamento ou roubo, não há ninguém lá, ele sumiu". "Não é possível… Onde esse cara foi se meter? Será que viajou? Sendo ele o advogado do prefeito, conhecia todas as falcatruas do seu cliente, acho melhor procurarmos o cara". "Ele tanto pode ser vítima, mas também o suspeito". Você disse.
 Embora a sua experiência com investigações e casos assim fosse grande, esse em questão o desafiava, logo percebi todo seu empenho. Eu você e mais dois policiais fomos tentar achar o advogado, o restante da equipe ficou na sala dos mistérios. Tentamos encontrá-lo em diversos lugares, fomos à câmara dos vereadores, à prefeitura, e até em algumas casas, a movimentação dos policiais deixou toda a população apreensiva, passamos o dia todo procurando pelo advogado sem obter resultados, quando estávamos para desistir, um senhor que foi um dos funcionários do prefeito na sua fazenda, aproximou-se de mim com uma estranha informação. "Delegado... Delegado - Dizia o senhor um pouco assustado - Um minuto, por favor, delegado". "O que foi homem? Em que posso ajudá-lo". Respondi um pouco ríspido, eu estava cansado e estressado. "Lembra-se de mim, eu trabalhava na fazenda do prefeito Diomedes". Dizia ele apontando o dedo para si mesmo. "Sim claro, eu me lembro de você agora, desenterramos partes dos cavalos".
"Isso mesmo, hoje era o meu último dia de trabalho na fazenda, o advogado do prefeito tinha acertado tudo com agente, isso já faz uns dias, hoje, antes de sair fui dar uma conferida para ver se eu não tinha esquecido nada, ferramentas jogadas, essas coisas sabe, quando me aproximei da casa do prefeito percebi que a porta estava aberta, se bem me lembro, os senhores tinham fechado tudo e lacrado, percebi um cheiro horrível vindo de lá de dentro, cheiro igual a de bicho morto, pensei em entrar, mas achei melhor chamar os senhores". "Fez muito, muito bem, iremos lá agora mesmo" Chamei alguns de vocês e fomos. "Vamos no meu carro - Você disse - eu você, o restante vai na viatura policial". Fomos à mesma hora para a fazenda do prefeito que ficava a alguns quilômetros, o sol já começava a declinar no horizonte, quando chegamos à fazenda já era noite, o ambiente escuro da fazenda tinha um ar sinistro, tudo estava escuro, nenhuma lâmpada havia ficado acesa, ao aproximarmos da casa e o mau cheiro que o empregado tinha relatado estava ainda mais forte, parecia cenário de filmes de terror. Com lanternas nas mãos entramos, passo a passo, a sala de estar estava aparentemente normal, não tinha sinal de bagunça e nem de arrombamentos, parte da equipe ficou do lado de fora ao redor da casa. Conforme eu me dirigia para a cozinha da casa o mau cheiro aumentava, minha velha lanterna falhava o tempo todo, quando de repente, eu fui tomado por um grande susto e quase derrubei a lanterna. Bem a minha frente, estavam duas enormes serpentes, chamei pelos outros, eu fiquei apavorado, pois tenho fobia de serpentes, desde criança. "O que foi Apolo? Achou alguma coisa. Você disse.
 Eu estava estático, sem dizer uma palavra, iluminei a terrível imagem a minha frente, a lanterna do detetive direcionou-se para o mesmo local da minha, o susto foi grande, bem à nossa frente, cercado por duas cascavéis enormes, estava o corpo do advogado, Busiris, todo amordaçado e com duas maçãs na sua boca, as maçãs estavam pintadas na cor de ouro. Imediatamente chamei o restante da equipe, fotos foram tiradas. Na testa da vítima o mesmo nome, Hércules e o número três, e o símbolo do signo de Gêmeos em um pedaço de papel, recorte de jornal, enquanto a equipe retirava o corpo para levá-lo ao necrotério, você sentou-se em uma cadeira com as mãos sobre o rosto, não acreditando no que via. Quem menos eles esperavam, o único que não tinha recebido proteção policial, foi justamente a vítima escolhida pelo assassino misterioso.
 O clima de terror voltou a assolar não só a cidade de Mor, mas todas as cidades circunvizinhas. Essa era a terceira vítima em um mês e nenhuma evidência foi deixada pelo assassino, nenhuma digital, nada, tudo estava perfeitamente em seu devido lugar, como se o corpo tivesse sido colocado ali cuidadosamente. Aquela altura, você começava a ter dúvidas, e medo, logo percebi. Mas era apenas o começo.

    



domingo, 28 de julho de 2019

CONTO 5.



O DANÇARINO DAS SOMBRAS.


 A pequena cidade de Rio Casca é muito bonita, com belas praças e jardins esplendorosos com flores coloridas espalhadas em cada canto. Uma disponível variedade de espécies de plantas, pássaros das mais belas cores. 
 No geral, em todas as praças das cidades do interior Mineiro há uma grande e bonita igreja. Rio Casca não foge à regra, em todas as praças  há uma suntuosa igreja, no estilo barroco, com sinos que são tocados de hora em hora. Em toda a cidade a bela e deslumbrante arquitetura do século passado prende a atenção de seus muitos visitantes. A economia de Rio de Rio Casca gira em torno do turismo e da agropecuária e comércio e empresas de laticínios, durante todo o ano a cidade tem visitantes.
 Figurava as primeiras horas de um calmo domingo do mês de maio, os raios do sol nasciam preguiçosos por trás das árvores do morro dos milagres - o mais famoso da cidade - aos poucos as campinas verdejantes molhadas pelo sereno da noite foram secando à medida que o astro do dia escalava o azul celeste. À medida que ganhava o céu os raios iam ficando mais intensos. Os pássaros davam um espetáculo à parte cantando harmoniosamente, todos empoleirados nos fios de energia ou nos telhados das casas. Qual poeta não se encantaria com tal cena de imensurável beleza e perfeição proporcionada pelas mãe natureza.

 No terceiro andar do prédio do seminário legionários de Cristo, a segunda janela da esquerda para a direita, era do quarto do recém-ordenado padre, Giovanni Delariça, Filho de camponeses locais, o jovem Delariça decidiu pelo sacerdócio quando tinha completado vinte anos de idade. A sua vocação veio a florescer de uma forma incomum. 
 A princípio, o Jovem Giovani tencionava pela carreira artística, sonhava em ter uma família e filhos, ele tinha uma namorada e estavam noivos, tudo corria bem, até o dia em que o coração do jovem apaixonado foi despedaçado pela traição da noiva com o melhor amigo. O amor que o jovem Delariça devotava pela noiva era puro e sincero, ele depositou todas as emoções naquele amor, todos os seus sonhos com aquela pessoa, e, de repente, tudo estava acabado. O jovem entrou em uma profunda depressão, foi justamente um dos padres do seminário legionários de Cristo que o ajudou, com muitas visitas e conversas. O jovem foi vencendo a depressão, e com ânimo renovado, viu no sacerdócio o caminho de sua redenção, daquele dia em diante entrou para o seminário para tornar-se padre, ele nunca mais viu a sua antiga noiva, que segundo o que se dizia na cidade, tinha ficado grávida e havia mudado para o norte do país.

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 Passaram-se os anos, agora aos trinta, sacerdote formado, Giovanni celebraria a primeira missa na principal igreja da cidade, além disso, ele seria o novo pároco de Rio Casca, motivo de muita alegria da família do jovem padre. Delariça era um moço de uma beleza singular, alto e forte, com olhos verdes e cabelos negros encaracolados, levemente caídos por sobre os olhos, o padre arrancava suspiros das mulheres da cidade. Em sua primeira missa faltou lugares na igreja, muitas pessoas ficaram de pé de tantas que compareceram a celebração, a grande maioria eram de mulheres.
 O coração do jovem padre era unicamente para o sacerdócio, mas como todo coração humano, ele também tinha as suas limitações, e as mulheres de Rio Casca o provocava de todas as formas que se possa imaginar. Com vestes minúsculas e decotes que avolumavam os seios, até cartas com pedidos inusitados de casamento e fotos indecentes ele recebeu. Tamanha era a ousadia das mulheres. O padre encarava tudo isso como um desafio a sua vocação, e reagia às provocações com bom humor e naturalidade, esse tipo de 'tentação' por assim dizer, não parecia surtir tanto efeito sobre ele, mas tudo estava prestes a mudar. O amor é misterioso e imprevisível, surge quando menos se espera, de onde menos se imagina, assim aconteceu com o jovem sacerdote Delariça.
 Uma nova família havia mudado para Cidade. Era a família do novo pastor da igreja batista, o seu nome era Jonas Alcântara, junto com a esposa e com as filhas, Anne de dezessete anos, e a pequena Anita de dez, essa nova família tinha sua residência na mesma praça onde ficava a principal catedral da cidade. 
 Era à  tarde de um chuvoso sábado quando pela primeira vez o padre Delariça encontrou com a jovem Anne, na fila do supermercado. A moça era de uma beleza invejável, o corpo de uma perfeição magnífica, os cabelos longos negros lisos chegando na altura da cintura chamava a atenção de qualquer um, os olhos azuis intensos hipnotizava à quem olhasse.
 Foi em uma fila de supermercado que nasceu aquela diferente amizade, o padre era simpático e atencioso com todos, isso chamou a atenção da jovem, e, por sua vez a jovem com sua beleza estonteante chamou a atenção do padre, de modo imperceptível o coração de Delariça trazia a sua memória antigos sentimentos que a muito estavam adormecidos. Todas as tardes o padre ia ao mesmo supermercado comprar pães - um costume seu - mas agora com a desculpa do seu trapaceiro coração para encontrar a nova amiga, às vezes à encontrava, outras não, mesmo que ele não precisasse de nada, sempre inventava algo só para ir ao supermercado, da mesma maneira aconteceu com a jovem Anne, ninguém imaginaria que aquela simples amizade tencionava para um amor avassalador.

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 Tempos depois, mesmo descobrindo que a moça era filha do novo pastor da cidade, o padre não exitou em continuar a amizade. Como o padre leciona filosofia no colégio da cidade, passou a encontrar com Anne mais vezes, que agora, tornou-se a sua aluna mais aplicada. A face angelical, o jeito inocente, foi aos poucos conquistando o coração do jovem padre, que, naquela altura já começava a questionar sua vocação,  os conflitos internos começaram a ficar cada vez mais intensos e fora do seu controle. Dia após dia, a cada novo encontro, a cada novo olhar da moça para com ele, e dele para com ela, algo de diferente começava a nascer no âmago do coração, assim como os raios do sol no decurso do dia, àquele sentimento ganhava força e intensidade. Como era de se esperar, a jovem Anne, agora completamente encantada por Delariça, decidiu mesmo contrariando todas os contrapontos sociais, dogmas, preconceitos e opiniões, decidiu conquistar o coração do padre de uma vez por todas. Giovane por sua vez, chorava todas as noites ao pé do altar da igreja em rezas intermináveis, tentando inutilmente lutar contra aquele sentimento tão forte e avassalador. O proibido o seduzia, mas o proibido tinha roubado o seu coração, que vivenciava os piores momentos de sua vida eclesiástica. Ele estava apaixonado, mas não admitia para si mesmo que estava apaixonado pela filha adolescente do pastor da cidade, era difícil ignorar aquele sentimento que o tomou por completo. Agora ele teria que decidir entre o amor carnal e a cruz, se lutaria ou se sucumbiria ao sentimentos do coração.
    
                                       *****

 Passados alguns dias, o sol despertou sobre as copas das árvores em mais uma adorável manhã de segunda-feira, ao redor da catedral transeuntes passavam apressados para o trabalho. Os raios primeiros do sol penetram pelo buraco da janela do quarto do padre Delariça, a frouxa luz sobre os seus olhos o fez despertar, eram quase oito horas da manhã. Ao olhar no relógio na cômoda ao lado, levou um tremendo susto que quase o fez cair. O padre teve uma noite horrível de sono, demorou a dormir e o pouco que dormiu sonhou com bela Anne, sonho esse que o deixou muito perturbado. O padre Delariça tinha aula às nove horas da manhã, e justamente na classe de Anne. Há princípio ele muito relutou em ir, mas algo dentro dele foi mais forte, ele arrumou-se rapidamente, tomou o café correndo e foi para a escola, chegou em cima do horário, foi direto para a classe. De uma forma inevitável os seus olhos se direcionaram automaticamente para carteira onde Anne se sentava, ela não estava lá, "teria faltado" pensou o padre, o seu semblante mudou, de um aspecto apreensivo para um de tristeza, os alunos apenas observavam os estranhos comportamentos do padre.
 - Tudo bem com o senhor professor?
 Perguntou uma das alunas.
 - Sim Clarice… Está tudo bem, não precisa se preocupar, e Aliás, a Anne não veio hoje? 
 Ele mal havia terminado de falar e a bela jovem estava parada em frente à porta da classe.
 - Posso entrar professor? Perdoe-me pelo atraso, é que… Acordei tarde..
 Ao virar o rosto para ver quem era, Delariça assustou-se, era Anne, o seu olhar se perdeu na beleza da jovem, por alguns segundos ele não disse nada, ficou completamente mudo.
 - Posso entrar professor?
 Perguntou a jovem novamente.
 - Sim… Pode… Mais é claro que pode Anne, perdoe-me pela distração, estou com uma dor de cabeça horrível.
 Anne estava mais bonita do que nunca, os cabelos soltos na altura da cintura, o uniforme apertado no corpo escultural, dando destaque às suas belas curvas, seios arredondados, simétricos, coxas grossas, cintura fina, bunda volumosa, tudo deixou Delariça enlouquecido. Durante o decurso da aula o padre não conseguia parar de olhar para a sua aluna, que, propositalmente sentou-se um pouco mais afastada de sua mesa, de forma que da posição em que ele estava era possível ver as pernas tão bem torneadas. Aquela visão enlouquecia Delariça, que sentiu o seu sangue ferver nas veias, o rosto ficou todo vermelho, Anne percebendo a aflição e a agonia do padre o provocava ainda mais, aqueles cinquenta minutos de aula foram por demais agonizantes para Delariça.
 Terminada a aula, o padre sequer despediu-se dos alunos, saiu às pressas direto para casa. Já não era mais possível esconder de si mesmo que também estava apaixonado, perdidamente apaixonado, essa era uma situação em que ele não sabia o que fazer, no seminário não ensinaram a lidar com o sentimento chamado amor.
Terminado a aula voltou correndo para casa. Deitou-se no sofá, adormeceu.


" Lembranças do Sonho".

    "Deitada em finos lençóis, lá estava ela, expondo aos seus olhos do sacerdote toda a sua beleza, a pele clara e macia, o perfume suave tomando o ambiente enchendo-o de delírios e desejos. As mãos suadas do padre tão perto de tocar os seios perfeitamente arredondados e desnudos da jovem, mamilos duros, as mãos ao alcance de suas magníficas curvas. Diante de seus olhos ela terminou de se despir, quanta graça em cada movimento, quanto encanto e ternura, os olhos se perdiam a cada novo movimento, a cada peça de roupa que caia ao chão, até que ficou completamente nua em sua frente, a fina penugem cobrindo a intimidade, movimentos excitantes, uma dança sensual na sombra da noite, eram dois dançarinos das sombras."


 O padre despertou com o som de uma buzina na rua, estava molhado de suor, a coisa estava fora do controle, os seus sentimentos eram confusos e cheios de conflitos, mil coisas ruins passavam por sua cabeça. A que mais o atormentava era o fato de que alguém viesse a descobrir que ele, um padre, estava perdidamente apaixonado por uma adolescente filha de um pastor evangélico. O que as pessoas diriam? O que os pais da jovem diria?
 Delariça não tinha mais força para fazer suas orações, o semblante estava caído, pálido, parecia mais um doente. Naquela noite não teria missa, o padre tomou um demorado banho e dirigiu-se para a praça em frente à igreja na tentativa falha de esfriar a cabeça e reorganizar os seus pensamentos. 'O que ele menos esperava foi o que justamente aconteceu', no momento em que ele sentou-se em um dos bancos mais afastados da praça, não demorou nada e lá veio ela, resplandecente como nunca, com um vestido vermelho bem curto e grudado ao corpo, explorando cada centímetro de suas perfeitas e provocantes curvas. O olhar de Delariça mais uma vez se perdeu na beleza da moça, sua memória trouxe a mente cada detalhe do sonho que ainda há pouco teve, ele balbuciou para si mesmo baixinho, “somos dançarinos das sombras".
 - Olá professor, tudo bem, posso me sentar aqui com o senhor?
 - Claro que sim Anne, por favor, sente-se.
 Os dois ficaram ali conversando, o tempo passou que eles nem perceberam, quando deram conta das horas, já era tarde, temendo que a moça fosse para a casa sozinha, Delariça ofereceu sua companhia, Anne aceitou. Os dois foram juntos, a passos curtos, por um breve momento Delariça esqueceu-se de seu sacerdócio, de seus fiéis, de sua imagem de padre, de seus compromissos eclesiásticos, da igreja, de tudo. Era apenas o homem Giovani Delariça que estava ali, a figura eclesiástica desmanchou-se de seus pensamentos, as lembranças do passado retornou à tona com uma força destruidora, ao caminhar lado a lado com a moça, as suas mãos se roçaram, e de repente num movimento involuntário e quase inesperado, estavam os dois de mão dadas, poucos minutos depois, já não suportando mais o fogo infernal da paixão que o queimava, veio o primeiro e tímido beijo, e o segundo ensandecido, o terceiro, e descontroladamente todos os outros.
 A consequência do veneno da paixão desenfreada aconteceu logo depois, precisamente meia hora depois, o santo leito do padre Delariça foi o palco de sua maior loucura e 'pecado' de amor inconsequente.
 Lá estava ela, como no sonho, as vestes vermelhas de Anne combinavam com a sua lingerie quase transparente, Delariça deitou-se na cama espaçosa de seu quarto, quase nu, ela aproximou-se dele lentamente, fazendo-o arrepiar-se por inteiro, começou beijando o pescoço, fazendo-o queimar-se em chamas da danação. Os beijos da jovem Anne percorria o corpo do padre de baixo para cima, ele gemia enquanto ela arrancava a sua peça íntima, Delariça delirava contorcendo-se. Devolvendo o favor, ele fez a mesma operação, começando pelo pescoço da moça e descendo lentamente até a curva dos seios, rodeando com os lábios os mamilos, fazendo-a se contorcer inteira, ousado ele desceu um pouco mais, atinge o umbigo, e da mesma maneira arrancou a sua lingerie, buscando o proibido e o oculto, sugando a seiva da sua intimidade, úmida, latejando de prazer. Ela apenas o olhava entre gemidos intermináveis e urros, eram dois 'dançarinos das sombras'. A lua estava enorme e a noite muito clara, a frouxa luz do luar era refletida na pele suada da moça, enquanto a valsa dos lábios continuava indo e vindo, descendo e subindo, assim seguiu-se aquela noite, Delariça naquele momento renunciava seu ministério e se entregava ao amor proibido, restava agora o outro dia e as consequências de seu ato de loucura.    
 O amor é assim, Louco, insano, traiçoeiro e de prazeres infernais. E as consequências do amor proibido na vida de Delariça veio não muito depois, a moça trouxe um resultado de exame, e nele, o inesperado aconteceu. Anne estava grávida, "e agora, meu Deus, o que vou fazer?" Pensou Delariça. "É o fim?"
 Dias depois, Delariça não compareceu a escola, nem ao mercado, nem celebrou missa, preocupados os seus fiéis o procuraram em toda a cidade sem sucesso, até que alguém o encontrou a porta do porão da igreja destrancada, pendurado em uma viga de madeira, tenra corda no pescoço do padre, trêmula teia que ainda balançava o corpo sem vida… 
     





quarta-feira, 17 de julho de 2019

CONTO 4.



ANJO LEDO.




    "Os sonhos são pontes suspensas entre o mundo dos nossos desejos e as nossas memórias, então, sonhar seria ligar esses dois mundos e transitar por eles desfrutando de seus mistérios".




 O meu nome é Olafec Orcam, sou um poeta apaixonado, basta isso e nada mais. 
 O relato que vou lhes contar é de grande relevância; irei dizer a despeito de certo anjo ledo, que surgiu em minha vida há alguns anos. esse nome que lhe dei de - anjo ledo,  deve-se ao fato dela ser uma mulher belíssima, muitíssimo especial. Ainda não encontrei beleza que eu possa fazer comparação. Nada é mais vívido, nada é mais dócil, nem todas as flores do mundo tem o perfume semelhante ao dela, nada, exatamente nada neste mundo se compara a beleza desse anjo ledo, ela é simplesmente divina. 
 Esses relatos desrespeitam a minha vida, a minha história, e confesso que, fiquei pensativo em como começar a contar-lhes, mesmo porque, o anjo ledo aos meus olhos tem qualidades divinas, que supera em muito o reles mortal que sou. Não é só pela beldade magnífica, vai muito além, esse anjo ledo tem algo simplesmente mágico, um poder conquistador irresistível. 
 Os seus negros olhos falam ao coração mais duro, a graciosidade de seu sorriso toca a alma mais distante. Eu nunca fui de crer em histórias sobre personagens mitológicos, pelo menos não era antes de conhecê-la, agora, eu posso afirmar categoricamente que ela é a própria Afrodite personificada. Eu não estou exagerando ao afirmar que ela é a deusa do amor e da beleza, por esse motivo a chamo de anjo ledo, anjo que arrebatou-me a alma com apenas um olhar, e que aprisionou-me o coração com apenas um sorriso.
 Eu sempre ouvi dizer que o amor é forte e arrebatador, e também sempre pensei que já o havia conhecido e o experimentado. Mas… Em um belo dia, esse anjo ledo surgiu no horizonte dos meus olhos, tudo então mudou, percebi que eu ainda não tinha conhecido o verdadeiro amor. Aos poucos o meu coração foi se rendendo a sua beleza, ao brilho intenso do seu olhar, ao seu sorriso cativante, de forma despretensiosa ela foi me conquistando, dia após dia, no início tentei resistir, tentei fugir desse amor, mas confesso que não tive forças, algo dentro de mim dizia que esse era o grande amor da minha vida, e, por mais que eu tentasse impedi-lo, seria simplesmente inútil, nada é mais poderoso que esse amor, não há como fugir dele. Quando estou próximo dela, fico observando-a; na verdade admirando o que ela faz, o jeito dela se sentar e cruzar as pernas, o jeito como ela arruma os cabelos, aquele olhar de canto de olho, os sorrisos em momentos de descontração, o jeito charmoso e sexy de andar, a sonoridade da sua voz, enfim, tudo nela é maravilhoso. Quando me atenho a estas cenas do nosso cotidiano, confesso que choro por dentro, isso mesmo, derramou rios de lágrimas na minha alma, até quase me afogar em um descontrolado desejo de abraçá-la e beijá-la, de tocar aquele corpo, de possuí-lo em meus braços, de sugar a seiva virgem daqueles seios, de sentir a maciez de seu sexo. 
 Como é difícil controlar os meus desejos, como é difícil te amar desmesuradamente, como é difícil mirar os teus lábios imaginar os teus beijos sabendo que não está no alcance desse pobre mortal, não posso desfrutar das delícias que se esconde nestes pequenos lábios, neste corpo nu, esse é, e sempre será o meu eterno desejo, impossível desejo. Amar o anjo ledo não fazia parte dos meus planos, mas o destino quis que acontecesse, e quer saber de uma verdade; foi a melhor coisa que já me aconteceu, este divino sentimento me renova a mocidade todos os dias, a magnífica e glorificada beleza do anjo ledo me revigora.

 Os dias foram se arrastando no palco da vida, e sem tê-la ao meu lado, os dias não têm sentido, se arrastão lenta e dolorosamente. Enquanto no mais profundo da minha alma a saudade flagelava o peito em chagas incuráveis, dói muito saber que nunca a terei, dói ter tanto amor dentro do peito e não poder 
dividi-lo com ela.
 Dias depois vieram os sonhos, como se fosse uma forma de castigo imposta a mim, quero lhes falar sobre esses meus sonhos, pelo menos um deles, se eu fosse contextualizar a todos, certamente daria um livro enorme. Vou lhes narrar o que mais mexeu comigo, digo isso pela 
forma como ele pareceu-me real, tanto que chorei ao despertar, eu queria que aquele sonho fosse eterno. 
 O sonho deu-se da seguinte maneira:
 “Era noite, e estávamos em um quarto muito bonito por sinal, mas não era quarto de hotel, nele havia uma cama enorme e redonda, havia também um espelho no teto, enorme, eu estava deitado totalmente nu, quando ela entrou de repente. O seu perfume tomou todo o ambiente, quase enlouqueci, aquele corpo nu, os seios redondos, pele morena, mamilos endurecidos, a pele brilhante, sua intimidade como a flor de açucena, úmida, pedindo que eu a possuísse. Uma música tocava baixinho,  então ela se aproximou, eu senti o calor daquele corpo juvenil, e aqueles lábios de mel tocaram os meus em ardentes e descontrolados beijos, e desceu até meu sexo, degustando toda minha rigidez. As minhas peregrinas mãos tocaram cada centímetro daquele corpo, sentindo aqueles mamilos vermelhos, endurecidos, esfregando-se em mim, a umidade latejando em meu sexo, o espelho no teto refletindo a sua nudez, nossos corpos suados, ela por cima de mim, nossos corações acelerados. Foi um sonho delicioso, ela gemia, pedia mais, com força, até chegarmos ao ápice, ela enlouquecia, eu também, foi incrível, parecia real."

 Ainda agora consigo sentir o sabor de seus lábios, o meu corpo inflama só em lembrar-se do sonho; depois de despertar chorei de tristeza por ser apenas um sonho, um desvario da minha imaginação enlouquecendo. 
 Eu te amo anjo ledo, com todas as forças do meu coração, mesmo sabendo que você nunca será minha, ainda sim te desejo, sou um reles mortal, indigno de possuí-la, divino ser dos meus sonhos noturnos. Permita-me falar um pouco mais de você, o quanto admiro sua beleza. O que eu mais gosto em você é esse seu jeito inocente e despreocupado, é o seu jeito de seduzir sem saber que está seduzindo, a sua inocência angelical me faz esquecer que vivemos em um mundo caótico e preconceituoso, amo você. Os teus ideais tão bem definidos, a tua candura, o teu jeito de encantar até mesmo as flores, te amo anjo ledo. Seu corpo, se me permite dizer, é perfeito; esplendoroso. Os negros olhos conseguem penetrar no mais profundo da minha alma, os teus pequenos lábios tão bem desenhados arrancam da lira do amor os suspiros e as notas mais ardentes, os seus belos seios, me faz perder em mil imaginações e desejos de 
amor. As tuas pernas formosas tão bem desenhadas, tem no diâmetro a perfeição do pecado, não estou exagerando quando digo que na face desta terra, não há beleza maior, me tornei poeta somente para ser seu escravo, um servo fiel desse platônico amor.
 Um pedido ousado tem a lhe fazer anjo ledo de meus sonhos de amor, embora eu saiba que tal pedido é impossível; mesmo assim eu te suplico.
“Desnuda-te da sua divindade, renegue o seu alto trono, desfaça de suas asas, e torna-te mortal tal como sou, despe de sua glória e faça parte desse mundo mortal e pecador, meu coração já é teu, permita que o seu coração, nem que seja por um minuto apenas, seja meu também. Permita que os meus lábios tenham os teus beijos, e os meus braços os teus abraços, nem que seja por um minuto apenas, basta esse minuto para que tudo se torne eterno.
               
                                *****
        

“É difícil explicar as coisas do coração, quando a razão está dizendo que é loucura; da mesma forma, é impossível de explicar a razão, quando o coração diz que é loucura, uma se opõe a outra.”





 Eu sou apenas um poeta solitário, sem destino certo, tendo como tesouro apenas as palavras e a disposição em lhes contar mais esses pormenores.  Talvez eu seja um louco, talvez cada leitor me julgue como louco, seja como for, de certa forma talvez eu seja mesmo insano, e aceito tal sentença. Eu já lhes contei sobre certo anjo ledo que surgiu em minha vida, assim de repente, sem avisar ela surgiu e sem piedade ela enlouqueceu-me. Desde então, do momento em que meus olhos viram aqueles belos olhos brilhantes, minha vida virou do avesso.
 O amor foi crescendo dentro do meu peito, crescendo como uma erva, envenenou o meu coração, tomou a minha alma, escureceu a minha razão. O que vou lhes contar me sobreveio pouco depois daqueles primeiros dias, o anjo ledo que se mostrava oculta e inacessível, respondeu aos meus anseios e aos meus pedidos.
 Era uma bela tarde de domingo, primavera, as flores desfilavam toda a sua beleza no jardim próximo a minha residência. Na tarde daquele domingo eu resolvi caminhar, buscar novos ares, sentir o perfume de outras flores em um jardim mais próximo, levantei-me de onde estava, e lentamente fui à outra praça. Perdoe-me, mas não me sinto à vontade para lhes revelar os nomes dos locais e onde os fatos se passaram. Lá estava este poeta, no ofício de sua labuta, buscando no âmago do coração a inspiração de cada verso. Desde que comecei a escrever, sempre risquei meus textos e poemas em um modesto moleskine, somente depois que os passo para a máquina de escrever, isso antes do advento da modernidade, agora existem os computadores, essas maravilhas da modernidade, que na verdade são máquinas de escrever glorificadas, mas o meu processo criativo segue sempre a mesma sequência. Naquela manhã, uma inspiração inesperada tomou meu coração, a minha cabeça estava cheia de palavras de amor, o motivo, - foi certo sonho com o anjo ledo -, seguido de uma mensagem, ardente mensagem de amor. Ela havia correspondido, e respondia positivamente, meu coração parecia explodir dentro do peito.
 Cheguei a tal praça, silêncio, poucos transeuntes passavam ali, no pensamento, o sabor do sonho, o sabor daqueles lábios de mel na memória, o sexo ardente, queimando a pele como fogo, a lembrança daquela mensagem, o sabor do pecado estava ao alcance dos meus lábios, a minha razão conflitava com o meu coração, a razão dizia que não, o coração dizia que sim. Eu não sabia a quem ouvir, eu desejava e muito o anjo ledo, mas era um amor proibido, impossível, mas que se configurava possível. Minha idade, minha posição social, meus compromissos políticos, tudo se opunha a esse amor, mas o meu coração, que por tanto tempo a desejava, me dominava naquele momento. Sentado no banco da praça, eu comecei a rabiscar algumas palavras, era a forma que eu encontrava para descarregar o excesso do sentimento em mim.

Eis aí, o poema que fiz naquele dia.
Ele reflete bem o meu desespero, a minha angústia, o poema fala por si só.

ODE AO AMOR ENLOUQUECIDO.

O amor ainda existe lá dentro do peito,
O amor ainda é muito forte lá dentro do peito,
Este sentimento imensurável dentro de mim,
Eu, que pensei, que este sentimento estava adormecido,
Eu que o julguei deveras esquecido,
E de repente, bastaram as tuas palavras,
De repente a sonoridade da sua voz surgiu,
Penetrou no mais profundo de mim,
E este amor prisioneiro e traiçoeiro,
Se revelou novamente me causando medo.




Este amor que no passado trouxe devastação,
Este amor que no passado fez-me desfalecer,
Este amor que arrancou de meus olhos todas as lágrimas,
Que fez de mim este poeta solitário e esquecido,
Que fez de mim escárnio de meus próprios versos,
Que fez em pedaços o meu universo,
Amor com a qual sonhei noites inteiras,
Amor que machucou a minha alma inteira,
Amor que fez em pedaços o meu coração,
Amor que eu mesmo criei.




Com muitas dificuldades e infindas lutas,
Eu o havia aprisionado no calabouço da solidão,
Eu o tranquei e joguei as chaves fora,
Era um amor perigoso, devastador,
Um amor tão forte quanto o aço,
Um amor tão forte quanto a morte,
Um amor que fez de mim um escravo,
Eu finalmente o aprisionei, joguei as chaves fora,
Então fechei os meus olhos e dei as costas para a prisão,
Eu fui embora sem querer ir, assim foi,
Eu que pensei que tudo estava resolvido.




Mas na última noite ,entretanto,
Quando sem que eu percebesse,
Eu me aproximei demais daquele calabouço,
Entre as grades de ferro, eu vi o amor sem vestes,
Aquele mesmo amor que devastou-me por inteiro,
Aquele amor que sempre fez de mim prisioneiro,
Aquele amor… Desfilava sua nudez,
Pronunciou do profundo das sombras as suas palavras despidas e devassas,
Então o que eu não imaginava aconteceu,
As lembranças retornam como fogo na memória.




Nesta última noite ,entretanto,
Foi que eu percebi o meu erro do passado,
Eu tranquei aquele amor em grades de ferro,
Eu havia jogado todas as chaves fora
Para certificar que ele nunca sairia dali,
Mas cometi o pior de todos os erros,
Junto à esse amor prisioneiro,
Eu também tranquei o meu coração,
Eu não havia percebido que o amor o tomou para si,
E o levou ocultamente meu coração calabouço adentro,
A verdade é que eu me tranquei naquela prisão.




Hoje… Eu já não sei o que fazer,
Talvez eu enlouqueça com esse amor,
Talvez eu enlouqueça de tanto te amar,
O que será daqui para frente já não sei,
Mas aquelas íntimas palavras,
Pronunciadas no fogo da paixão,
Revelou o que eu sempre fui para este amor,
Eu sempre serei…
Um eterno escravo de teu corpo nu.




 Meu coração estava enlouquecido, morrendo de amor pelo anjo lendo, um abismo que eu mesmo criei para mim. E de repente, lá estava ela, ao longe, passou tranqüilamente, eu a vi, ela não me viu. É sempre assim, ela me seduz, me enfeitiça, me enlouquece, e depois… Depois fingi não me conhecer.
 Essa situação está me enlouquecendo, meu coração está envenenado, eu quero aquele amor proibido, àquele corpo nu proibido, àqueles seios selvagens proibidos, mas não devo, mas não posso... Certa vez, quando ela estava na minha mansão, em uma raríssima ocasião em que ficamos sozinhos, algo de diferente aconteceu. A princípio ela estava quieta, não queria conversa, eu a respeitei, eu não sei explicar como, mas iniciamos um curto diálogo e a certa altura, o diálogo foi se prolongando, ela contava-me de seus sonhos, de suas aventuras como atriz, eu, apenas escutava, bebia do brilho de seus olhos, da famosidade daquela face. Mas o diálogo partiu para um terreno perigoso, assuntos e fatos ardentes, eu senti nos olhos dela um descontrolado desejo por mim, e não suportando mais, cedi a pressão do coração. Nos beijamos, fizemos amor naquele dia, beijei sua intimidade pulsante, minha embriaguez foi da sua beleza, perdoe-me por não lhes dar tantos detalhes, lembrar daquele dia é difícil, escrever os detalhes da nossa noite de amor é demais para mim.
 Tempos depois ela enviou-me uma mensagem, que ao ler petrificou minha alma. A mensagem era curta e dizia o seguinte. "Estou grávida, e agora, o que faremos? Papai está desconfiado". Aquelas palavras foram como facas no meu coração, eu, político renomado, homem conhecido de todos, havia engravidado a filha menor de idade da minha empregada. Eu não sabia o que fazer, e estava completamente desesperado. Para não ruir diante da sociedade, fiz o que não deveria fazer, o que eu reprovo em mim mesmo, eu fugi, abandonei Brasília, identidades falsas, grana alta no bolso, fim de mandato, início de uma vida de riquezas. Eu vivo solitário, em uma mansão, talvez agora os senhores compreendam o motivo que não lhes dei tantos detalhes em meus relatos. Escrever foi a forma que encontrei de aliviar o peso da alma, eu recorro a isso diariamente. Ainda há coisas a contar-lhes, pormenores de toda essa, 'história', detalhes que talvez os senhores desejam saber, e quem sabe neste momento estão se perguntando, "Quem é o meu filho". Eu não prometo nada… Mas quem sabe em breve, eu lhes conte mais algumas coisas referentes a minha desastrosa vida.

Ainda te amo anjo ledo, mesmo distante e covarde.

Seu… Sempre seu, Conde Olafec Orcam.




MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

           As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do reino.      Nos recônditos ...